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PARTE IX - VOCABULÁRIO 2

Sábado, 25.03.17

Lambão           - Pessoa que come muito.

Mamulo          - Inchaço na cabeça originado por uma pancada.

Mancheia        - Pequeno monte de qualquer produto ceifado mais ou menos da espessura de uma mão e que o ceifeiro vai colocando atrás de si e que depois é amarrado para mais facilmente ser transportado. De mão cheia.

Máquina          - Pequena casa que possui uma centrifugadora onde o leite é colocado para separar a nata do leite magro. Na Fajã Grande havia duas: A Máquina de Cima pertencia à firma Martins & Rebelo e a Máquina de Baixo era uma cooperativa que acabou por ser destruída pelo Martins & Rebelo. O leite era medido em baldes, ao litro, ficando o registo num mapa e posteriormente pago aos donos. O leite magro ou desnatado era trazido para casa pelo seu proprietário, para sustento dos animais. As máquinas funcionavam duas vezes por dia, com horário próprio e o sinal de abertura assim como o encerramento era dado pelo apitar de um enorme búzio.

Marmelo         - Diz-se de algo grande ou descomunal, incluindo pessoas.

Monço             - Forma deturpada de moço.

Não-sei-que-diga – Forma “prudente” para designar o diabo. Dizer diabo era um pecado e o seu nome era substituído por este e outros como “O coiso mau”, “O Cão-da-mei-noite”, etc.

Pai-velho        - Jogo feito por rapazes. Um é o pai e os outros são os filhos, o jogo consiste em que o primeiro domine as aventuras dos filhos, o que geralmente não consegue.

Piauzinho        - Criança de quem se tem muita pena.

Pinguinha        - Uma pequena quantidade de qualquer coisa.

Qual carapuça – Expressão usada para se indicar que se rejeita o que o interlocutor afirma.

Queicões         - Cocões, peças de madeira entre as quais gira o eixo dos carros e são apertadas ou alargadas com um parafuso, funcionando como travões. É o seu aperto que origina o chiar dos carros de bois.

Queiró -          Planta do tipo da urze ou Torga muito comum nas Flores. Era muito usado como lenha para o lume e nas matanças dos porcos.

Refujo pecató - Invocação deturpada da ladainha “Refugium pecatorum” que significa “Refúgio dos pecadores”..

Regina confesso- Invocação deturpada da ladainha “Regina confessorum” que significa “Rainha dos Confessores” ou seja dos que confessaram a fé cristã custando-lhe a morte.

Regina setóruó - Invocação deturpada da ladainha “Regina sanctorum omnium” que significa “Rainha de todos os santos”.

Reginangeló    - Invocação deturpada da ladainha “Regina Angelorum” que significa “Rainha dos Anjos.

Reginapostoló- Invocação deturpada da ladainha “Regina Apostulorum” que significa “Rainha dos Apóstolos”.

Ribanceira      - Grande quantidade de pedras e terra caídas das encostas de um monte.

Sabagana         - Do Americano, pessoa desprezível. É um insulto.

Sanababicha    - Do Americano, pessoa desprezível. É um insulto.

Sarigaito         - Pessoa jovem que não faz nada. Possivelmente de origem americana.

Toitição          - Pancada dada no toitiço ou toutiço, como forma de castigar ou repreender.

Trambulhão    - Grande queda.

Trancador       – Marinheiro que na caça à baleia tem a missão  de atirar o arpão ao cetáceo. Nas Flores usa-se o verbo “trancar” com o significado de espetar algo em alguém ou alguma coisa, possivelmente relacionado com o trancar que significa por a tranca na porta. Assim trancador é aquele que tranca.

Turre zé burre – Invocação deturpada da ladainha “Turris ebúrnea” que significa “Torre de marfim”

Vigia               - Casota no alto de um monte onde se espreitavam as baleias. Homem que ocupava a vigia.

Zalu zinfimó   - Invocação deturpada da ladainha “Salus infirmorum” que significa “Saúde dos doentes”.

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PARTE IX - VOCABULÁRIO 1

Sexta-feira, 24.03.17

Acartar            - Acarretar.

Aleive             - Acusação maligna, calúnia.

Anamudo        - Pessoa que não tem medo de nada.

Antonho          - Forma popular e deturpada de António.

Apoita             - Ancora ou pedra amarrada a um cabo que colocada no fundo do mar prende o barco. È uma forma popular de pouta.

Araçá              - Árvore da família das Mirtáceas que dá um fruto muito saboroso, no género da romã, mas muito menor, sob duas formas: amarelo e vermelho. Existem exemplares vindos das Flores em Paredes.

Azeite-doce    - Azeite normal, de oliveira que na ilha era usado quase somente como medicamento.

Badameco       - Pessoa a quem não se deve dar importância. Possivelmente de origem americana.

Basto               - Milho ou outro produto que não foi desbastado.

Belga               - Qualquer faixa de terreno comprida e estreita e geralmente sobranceira a outra.

Bocadinho       - Pequena quantidade.

Caganita          - Pessoa muito fraca, que não pode com quase nada. É usado no sentido depreciativo.

Cambulhão     - Conjunto de maçarocas de milho amarradas com a casca de forma a que se pendurem no estaleiro e se conservem por muito tempo, resistindo à chuva e ao sol.

Canarroca       - Planta invulgar, muito frequente na ilha com uma raiz semelhante ao gengibre e uma flor muito bonita, aromática e doce. É considerada maligna para os campos, pelo que deve ser cortada frequentemente e serve apenas para cobrir ramadas ou forrar os currais dos porcos, transformando-se, neste caso em estrume.

Canga              - Jugo.

Canteiro          - Espaço destinado a criar a planta da batata-doce. Era sempre feito junto das casas, tinha a for quadrangular e era protegido por um bardo. Cavado em grande profundidade era colocado bastante estrume e sobre estes as batatas cobertas de terra. A rama nascida era cortada e plantada nos campos para dar a batata-doce, fundamental na alimentação e na engorda dos porcos.

Carvalho         - Carvalho Araújo, navio que durante anos ligou mensalmente as ilhas dos Açores e Madeira a Lisboa. Chamava-se assim porque fora o comandante Carvalho Araújo que o apreendeu na 2ª guerra aos alemães, ainda navio de guerra e depois adaptado a transporte de carga e passageiros. Transportava tudo o que as ilhas necessitavam e produziam. Para as Flores e Corvo era o único meio de ligação com o mundo.

Companha       - Grupo de marinheiros que compõe uma pequena embarcação. Vem em alguns dicionários e é usada noutras zonas ligadas ao mar.

Conhecido       - Nas Flores as freguesias eram distantes e não haviam transportes. As deslocações de a outra freguesia eram, por vezes, longas e difíceis e não se faziam num dia. Era pois hábito ter pessoas conhecidas pelas várias freguesias que se hospedavam reciprocamente.

Consolá tu zaflitó- Invocação deturpada da ladainha “Consolatrix afflictorum” que significa “Consoladora dos aflitos”.

Cramar            - Lamentar-se, geralmente de forma simulada ou sem razão.

Destróia          - Pessoa, geralmente criança, que não se porta lá muito bem. Possivelmente tem a sua origem no verbo destruir.

Diabo-que-te-carregue – Expressão usada para indicar o desprezo que se tem por outra pessoa.

Domuzau.       - Invocação deturpada da ladainha “Domus aurea” que significa “Casa de ouro”.

Eito                 - Grande pedaço de um campo em que se cultiva separadamente um determinado produto agrícola.

Encambulhar  - Fazer cambulhões de milho.

Encangar         - Por a canga nos animais bovinos.

Engorda          - Diz-se de um animal que está a preparar-se para ser vendido e exportado. (Para que dê muito dinheiro deve estar o mais gordo possível)

Esbagoar         - Passar as contas do terço ou dizer muitas orações. Possivelmente por assimilação com o verdadeiro significado - tirar os bagos a.

Esparrel          - ou esparrela, remo que nos botes da baleia substitui o leme.

Estaleiro         - Local em forma de casota, assente sobre quatro estacas ou colunas onde se guarda o milho amarrado em cambulhões e com a casca. Tem formas diversas e nalgumas ilhas chamam-se burra.

Faeira              - Forma usual de designar a faia.

Fedisá.            - Invocação deturpada da ladainha “Foederis Arca” que significa “Arca da Aliança”.

Feitos              - Fetos.

Froca               - Blusão jeans, também chamado na ilha casaco de angrim. É de origem americana.

Garrancho       - Parte superior e mais finas das árvores, que secas servem sobretudo para acender o lume. Possivelmente ligado a um dos significados da palavra – arbusto tortuoso.

Grutão             - Grandes vales que existem nos matos.

Gueixo            - Novilho, bezerro que será boi, feminino de gueixa.

Janaxé.            - Invocação deturpada da ladainha “Ianua coeli” que significa “Porta do Céu”.

 

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PARTE VIII - VII ATO CENA 16

Quinta-feira, 23.03.17

ÁLVARO     (Entrando numa correria) – Ei! A bênção avó!

AVÓ             - Deus te abençoe e te faça um santo. Mas tu não devias estar a dormir? A que horas vocês chegaram?

ÁLVARO     - Chegámos à Ponta às três e à Fajã às quatro.

GRAÇA       - E a que horas caminharam de Ponta Delgada para chegar a essas horas? Dizem que de Ponta Delgada aqui, a andar devagar são mais ou menos cinco horas. Saíram às onze e atravessaram o mato à meia-noite! Credo! Santo Deus!

ÁLVARO     - Não tia. Nós saímos de Ponta Delgada ainda era cedo. Não sei que horas eram… mas estavam a bater as Trindades…

LUZIA         - Então saíram por volta das sete.

GRAÇA       - Por esta altura do ano, em toda a parte, as Trindades são por volta das sete horas.

LUZIA         - Aqui, fui tocar as Trindades ainda não eram bem sete…

JULIANA     - E porque é que demoraram esse tempo todo?

ÁLVARO     - Foi porque nos perdemos.

GRAÇA       - Perderam-se!? De noite!? No mato!? Está ouvindo, mãe? Eles perderam-se nos matos, por isso demoraram esse tempo todo…

AVÓ             - Eu bem dizia… Eu bem sabia… Tinha cá uma coisa dentro de mim que dizia que se iam perder… Foi por isso que pedi tanto a Santa Rita, por eles, para que lhes mostrasse o caminho... Foi um milagre! Um grande milagre1…

ÁLVARO     - Ó avó!...

AVÓ             - Foi um milagre! Foi mais um milagre da minha Santa Rita.

LUZIA         - Ó mãe, deixe-o contar primeiro e depois vamos ver… Também Deus não faz milagres assim, por tudo e por nada…

GRAÇA       - Claro que não… E então com um ateu… Com uma pessoa que nem vai à missa ao domingo…

JULIANA     - Nem cumpriu a desobriga…

GRAÇA       - E este ano, pelos vistos, nem pagou o culto, nem as bulas nem os indultos… A Floripes, coitada, é que ia sempre pagá-los…

ÁLVARO     - Mas querem ouvir ou não?

JULIANA     - Conta lá, conta lá como foi que vocês se perderam.

ÁLVARO     - Foi assim: o senhor Algarvio sabem quem é, o amigo de meu pai, queria que a gente dormisse lá, em casa dele, mas meu pai tinha prometido a minha irmã que vínhamos p’ra casa e teve medo que ela ficasse muito preocupada se a gente não aparecesse. E então, nem por nada deste mundo ficava lá. Depois ele pensava que ia fazer Lua… Meu pai conhece bem o caminho… mas chegámos a uma relva, como a noite estava escura como breu e a gente nem sequer tinha um foco, nós não víamos nada e perdemos o carreiro. E começamos a andar na relva sem saber onde é que estávamos…

JULIANA     - Ui! Que grande mamulo que tens na cabeça! Onde é que fizeste isto? Bateste em algum sítio?

ÁLVARO     - Foi na rocha da Ponta… Eu caí…

AVO             - Valha-me o não sei-que-diga! Teu pai perdeu o juízo! E se tu caías por aquela descampado abaixo!?

ÁLVARO     - Não caía avó. Meu pai foi muito leste! Agarrou-me logo…

GRAÇA       - Então como fizeste o mamulo?

ÁLVARO     - É que meti o pé num rego, tropecei, dei um trambolhão e bati com a cabeça numa pedra…

LUZIA         - E teu pai não pôs nada?

ÁLVARO     - Ó tia!? Não tinha lá nada p’ra pôr. Quando chegámos à Ponta é que entrámos em casa do senhor Gomes e a filha dele pôs-me uma faca fria aqui. Olhe, está ver? Esta muito mais pequeno e já só dói uma pinguinha…

JULIANA     - E ainda foram acordar gente da Ponta a essas horas! É preciso não ter vergonha! Teu pai não tem vergonha nenhuma!

ÁLVARO     - Eles estavam acordados… Estava lá muita gente… o senhor Gomes estava deitado na cama, quase a morrer… Já tinha ido lá o senhor padre dar-lhe os últimos sacramentos.

GRAÇA       - Credo! E entraram lá?…

JULIANA     - Oh! Então já deve ter morrido, porque esta manhã eu ouvi os sinos da igreja da Ponta dobrarem a finados e era homem porque tocou três laudes… Mas no mato? Perderam-se no mato, de noite… e depois?

AVÓ             - Foi Santa Rita… Foi um milagre de Santa Rita… Vamos acender-lhe a luzinha e fazer-lhe as novenas, rezando o terço e as ladainhas…

ÁLVARO     - Ó avó. Não foi milagre nenhum. Sabe como foi que nós descobrimos o caminho?

AVÓ             - Foi Santa Rita, foi Santa Rita que vos acompanhou.

ÁLVARO     - Não foi avó! Fui eu, com os meus pés. Descalcei-me e com os pés a arrastar na relva, descobri o carreiro onde a relva estava mais amachucada e depois meu pai, com as mãos, apalpando uma parede descobriu para que lado ficava a Fajã. Depois foi sempre a andar, andar e quando chegámos acima da rocha a Lua apareceu por trás da rocha dos Paus Brancos.

AVÓ             - Foi um milagre de Santa Rita… Fui eu que lhe pedi tanto para ela vos acompanhar e guiar até a casa…

ALVARO     - Ó avó, então se foi a Santa Rita que nos acompanhou porque é que ela me deixou cair na rocha e fazer este mamulo? Podia-me ter aguentado para eu não cair! (Sai a correr).

AVÓ             -Eu me benzo!... Vamos! Vamos! De que estão à espera? Acendam a luzinha a Santa Rita. Vamos rezar-lhe o terço.

                     Cai o pano.

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PARTE VIII - VII ATO CENA 15

Quarta-feira, 22.03.17

Entra a tia Juliana.

 

AVÓ             - Já chegaste?! E entraste na Assomada, em casa dos pequenos? Soubeste se o Álvaro e o pai já chegaram?

JULIANA     - Esteja descansada, mãe. Eles chegaram de madrugada, parece que já passava das quatro. A Amélia diz que o Álvaro, coitadinho, vinha mais morto do que vivo, o pobre piauzinho parece que quando chegou a casa nem se aguentava em pé. Fazer uma caminhada daquelas durante toda a noite não era p’ra menos… Mas ela já o acordou e ele já foi levar as vacas ao Outeiro Grande.

LUZIA         - Chegaram às quatro da manhã! Santo Deus! Louvada seja Santa Rita de Cássia Bendita! Então atravessaram os matos de noite. Aquele homem…

GRAÇA       - E se se perdiam ou se caiam nalgum grotão ou na rocha da Ponta que é tão perigosa… Louvado seja o Santo Nome de Deus1

AVÓ             - Foi Santa Rita. Foi a minha milagrosa Santa Rita de Cássia que os acompanhou e protegeu! Tanto que eu lhe pedi…

LUZIA         (Espreitando pela janela) – Olhem, ele vem aí! O Álvaro vem aí, mãe!

 

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PARTE VIII - VII ATO CENA 14

Terça-feira, 21.03.17

Uma sala de casa rural (agricultor pobre) açoriana dos anos 50. Num canto uma cómoda (mesa) com fotos e santos em cima. Várias cadeiras ao redor da mesa e uma cama. A avó e as tias Luzia e Graça estão a rezar a Ladainha de NS em latim.

AVÓ               -  Turre zé burre.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Domuzau.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Fedisá.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Janaxé.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Zalu zinfimó.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Refujo pecató.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Consolá tu zaflitó.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Reginangeló.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Reginapostoló.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ               - Regina confessó.

TODAS           - Oraprenó.

AVÓ                - Regina setóruó. – (Ouve-se o bater duma porta. Interrompendo a reza.) – Graça, não ouves abrir a porta. Vai ver se foi a Juliana que chegou do Delgado?

GRAÇA       - Foi, mãe! Acabou mesmo agora de chegar.

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PARTE VII - VI ATO CENA 13 B

Segunda-feira, 20.03.17

M.LEVADA - De Ponta Delgada, de noite, atravessando os matos com uma criança desta idade!? Não estás bom...

PAI               - Mas a verdade é que vim. Saí de lá já muito tarde... A noite estava muito escura... Eu nem sei as horas...

IDALMIRO – Vão dar três, daqui a pouco.

PAI               - Três!? Eu saí de lá por volta sete... Não foi Álvaro?

ÁLVARO     (Sonolento) - Estava a dar as Trindades...

CIZALTINA - Pobre piauzinho! Toda a noite a andar no mato!? E não tiveste medo, meu querido?

ÁLVARO     - Não senhora. Vim sempre agarrado à mão de meu pai. E ele não tem medo de nada!

PAI               - Só que andámos algum tempo perdidos... Pelos vistos até mais tempo do que eu pensava...

LISANDRA- Perdidos!? E chegaram cá? Foi Nossa Senhora de Fátima. (Para o moribundo) Ó Isabelinha aperta-lhe a mão, outra vez, a ver se ele dá algum sinal...

PAI               - Mas o pior aconteceu ao descer a rocha. Logo a seguir ao Risco... Já havia Lua, e eu trazia-o pela minha mão... Só que ele vinha distraído, a olhar para tudo: para a Lua reflectida no mar, para os montes de sargaço no rolo, para um navio cheio de luzes que ia a passar pelo Monchique... e, como já vinha cheio de sono, de repente, zunba: meteu o pé num rego de água, escapuliu-me da mão e caiu num dos sítios mais perigosos da rocha. Se eu não fosse tão lesto e lhe deitasse a mão...

IDALMIRO- Tinha-te caído ao mar…

M.LEVADA- Credo homem! Nunca mais te calas com essas tolices…

PAI               - Mas olha Maria: a verdade é que naquele sítio eu nunca mais o agarrava...

ÁLVARO     - Via-se o mar lá em baixo.

IDALMIRO – Ai se via!.. Se é no sítio que estou a pensar, nem a alma se aproveitava. Eu conheço aquela rocha melhor do que ninguém. Há quarenta e cinco anos que passo lá todos os dias... E na descida venho sempre carregado com as latas do leite. Mas nunca caí.

CIZALTINA- Que grande susto senhor António. E ele não se pisou?

PAI               - Só fez um mamulo na cabeça. Chorou... Chorou… O mamulo cresceu... E eu sem nada frio para lhe pôr. Mas como ele gritava tanto disse cá para mim: Não vou acordar ninguém, mas se vir alguma casa com luz na Ponta, vou bater à porta e pedir uma faca...

RICARDINA- Ó senhor António!? Já podia ter dito. – (Corre a ir buscar uma faca).

TADEU        (Despertando.) – Faca! Vão matar algum porco? (Acordando.) O José e o Manel já chegaram?

CIZALTINA- Meu tio e o Idalmiro deram-nos uma grande ajuda!... Benza-vos deus-obra! Um a dizer tolices e outro a dormir…Olhe o melhor era irem ambos para casa ou deitarem-se um bocado lá dentro.

RICARDINA (Com a faca) – Ó Lisandra, põe-lhe tu a faca, tens mais jeito para isso.

ÁLVARO     - Ó pai, não quero a faca. Vão-me cortar o mamulo? Vai doer muito...

CIZALTINA – Não, não vai doer. Eu é que te vou tratar. Deixa ver onde é, Alvarinho….É aqui, não é?! Coitadinho! Dói-te muito? E olhem que é enorme… - (Poe-lhe a faca na cabeça) - Com que então um galo para cantar de noite... Isto não dói nada. Olha., já está a mingar...

GENOVEVA – Um pingo de azeite-doce é que era bom. O azeite-doce para mamulos e inchaços é como a mão de Deus...

IDALMIRO    - É, mas é logo a seguir... Enquanto está quente. Este foi feito quase em cima da rocha, já está frio, já não vai nem com faca nem com azeite-doce...

CIZALTINA – Olhe que se engana, sr Idalmiro. Está muito melhor. Não está meu querido?

ÁLVARO     - Está sim senhora, obrigado!

PAI               - E eu tenho que ir! – (Ouvem-se bater três horas num relógio de parede) – Oh! Três da manhã! Tenho que ir. Tenho os outros em casa sozinhos... Obrigado a todos... E as melhoras do doente...

CIZALTINA – Ó senhor António, deixe o menino cá a dormir. Está tão cansadinho e cheinho de sono! Amanhã vem busca-lo… Mas se quiser lho levo a casa. Eu tenho que ir à Fajã, amanhã. É um pecado caminhar com ele a estas horas. Eu tomo conta dele... Amanhã vem buscá-lo...

PAI               (À porta e já de saída)- Não Cizaltina! Não pode ser. Mas obrigado por tudo e melhoras para o teu pai.

CIZALTINA – Ele podia cá ficar, senhor António... Mas o senhor é que sabe. Pobre piauzinho! (Beijando Álvaro) – Adeus! Boa noite e boa viagem. Vão com cuidado…

                     (Saem o Álvaro e o pai)

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PARTE VII - VI ATO CENA 13 A

Domingo, 19.03.17

(Entram o Álvaro e o pai. Ficam espantados com o que vêem).

PAI               (À porta) - Desculpem de bater à porta a estas horas… Mas precisava dum grande favor…

RICARDINA- (Chegando junto à porta) – Mas quem é? Ainda não vi quem é!

CELESTINA - É gente da Fajã!  E eu que julgava que eram os nossos… É um homem com uma criança!...

RICARDINA - Que querem a estas horas? Mas entrem... Entrem.

CELESTINA – Áh é o senhor António Tiantonho, da Fajã... Muito obrigado! Vem ver meu pai, não é? Mas caminhar de tão longe a estas horas, senhor António... Deus lhe pague… Ele já está nas últimas…. Já não fala nem nos ouve…

PAI               - (Entrando, atrapalhado) - Eu não vinha… eu…vinha…Eu… não sabia…

IDALMIRO – Oh António! Oh homem entra…Que diabo andas a fazer por aqui com essa criança, a estas horas?

PAI               - O que se passa Idalmiro? É o Gomes que está doente?!

RICARDINA - É senhor António, é meu pai. O pobrezinho está assim desde a seguir ao jantar. De manhã ainda foi à nossa terra da Grota, apanhar um cesto de inhames… E o pobrezinho ainda trouxe o cesto às costas… Veio carregadíssimo, coitadinho…Sabe como ele era... Era sempre a trabalhar, a trabalhar. Mas ele já não podia… Chegou a casa, por volta do meio-dia…

CIZALTINA- Ainda nem tinha dado meio-dia, Ricardina! E mãe bem estranhou dele vir tão cedo… Nunca chegava ao meio-dia para jantar.

RICARDINA- Pois é verdade, eu já troco tudo... é dos nervos, meu Deus, é dos nervos. Desculpe senhor António. Ah! Onde é que eu ia? Tu também estás sempre a interromper-me, mulher. Olhe Sr António sentou-se à mesa e não comeu quase nada: “e não tenho fome, e não tenho fome, não me apetece comer, e não sei o que tenho e dói-me ali…” E nós numa aflição... Sem saber o que fazer…

CIZALTINA- Minha mãe foi logo fazer um chá de erva-neva, mas nada... Não havia maneira de ficar bom.

RICARDINA - Pois fizemos chás de tudo: de poejo, de cidreira, de macela, de funcho e nada... Ele deitou-se e nós numa aflição cada vez maior, sem poder fazer nada. Está a ver meu pai deitar-se durante a tarde?  E não havia maneira de ficar melhor. Foi então que meus irmãos caminharam para Santa Cruz, para ver se falavam com o senhor doutor ou ver se ele pode vir cá. Mas a estas horas ele não vem…

GENOVEVA – Dos Terreiros para cá, a pé, de noite!? Não o apanham cá… Quando o foram chamar para meu cunhado Alfredo era de dia e ele veio? Veio uma fava… Eles não se preocupam com os pobres!

CELESTINA - Estão para lá há um horror de tempo e nada! E nós aflitos, com meu pai neste estado… Foi por isso que quando ouvimos bater à porta pensámos que eram eles...

IDALMIRO – Para mim isto já não há doutor que lhe valha... Ele já nem fala, nem ouve...

M.LEVADA – Credo homem! Estás sempre a agoirar. Dás um grande consolo a esta gente! Antes tivesses ficado em casa, a dormir.

RICARDINA - Deixa lá Maria que a gente sabe bem como ele está. Não vale a pena tapar o sol com uma peneira. Custa muito a crer, mas a gente sabe bem como ele está… E um homem aqui faz sempre muito jeito, enquanto meus irmãos não chegarem...

CELESTINA – E o tio Tadeu não nos adianta nada… Tem estado toda a noite a dormir…

PAI               (Aproximando-se de Isabelinha) – Oh senhora Isabelinha, longe de mim pensar o que estava acontecer, quando bati à porta. Mas deixe estar que ele ainda vai viver por muitos anos. Isto é coisa passageira...

ISABELINHA- Deus o oiça, António, Deus o oiça! Mas as esperanças já são muito poucas. O senhor padre já cá veio, mas só deu-lhe a Extrema-Unção. Ele já nem falava, nem ouvia. Já não pode confessar-se nem receber o Sagrado Viático. Isto foi uma grande desgraça. Um homem que, desde que o conheci, nunca teve nenhuma doença, nunca tomou um comprimido, nem uma injecção, nunca teve uma dor de dentes, nunca teve uma gripe, nunca teve nada... E de repente foi isto... Apagou-se…Foi como uma luz que se fosse apagando aos poucos.

IDALMIRO-É sempre assim! Dizem que um homem que nunca teve nada durante a vida, vem uma coisa de repente e zás. Rapa-o logo desta prá outra. –( Para o pai de Álvaro) - Mas tu António, não vieste cá de propósito para o ver, pois não. Pelos vistos nem sequer sabias que ele estava às portas da morte. Que raio de diabo te trouxe por aqui, a estas horas, homem?

LISANDRA – Credo, homem! Louvado seja o Santíssimo Sacramento! À beira de um moribundo e a chamar pelo mafarrico! Ta renego Satanáz!

PAI               - Não, não sabia de nada. Eu venho de Ponta Delgada...

 

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PARTE VII - VI ATO CENA 12

Sábado, 18.03.17

Uma sala semiescura de casa rural (agricultor pobre) açoriana dos anos 50. Num canto uma cómoda (mesa) com fotos e santos em cima. Várias cadeiras ao redor da mesa e uma cama onde o Gomes está moribundo. Já não fala nem ouve. Apenas, de vez em quando, lança estertores. À volta, a esposa, as filhas, alguns parentes e vizinhos. Os presentes rodeiam a cama, rezam e choram, enquanto o Gomes agoniza. A esposa, Isabelinha, à cabeceira da cama.

 

LISANDRA - Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo.

TODOS        - Assim como era no princípio agora e sempre e por todos os séculos dos séculos. Ámen

LISANDRA - Ó meu Jesus perdoai-os e livrai-nos do fogo do inferno.

TODOS        - E levai para o céu as almas mais abandonadas.

LISANDRA - Amado Jesus, José e Maria.

TODOS        - O meu coração vos dou e a alma minha.

J.GOMES – (Geme).

LISANDRA - Amado Jesus, José e Maria.

TODOS        - Assisti-me na última agonia.

LISANDRA - Amado Jesus, José e Maria.

TODOS        - Expire em paz a alma minha.

LISANDRA – Ó Virgem Santíssima, não permitais tal:

   Que eu não viva nem morra em pecado mortal.

TODOS        - Em pecado mortal não hei-de morrer,

                     Porque a Virgem Maria me há-de valer.

LISANDRA - Imaculado Coração de Jesus.

J.GOMES – (Geme).

TODOS        - Sede a nossa salvação.

LISANDRA - Imaculado Coração de Maria.

TODOS        - Sede a nossa companhia.

LISANDRA – Dai-lhe Senhor o eterno descanso.

TODOS        - Entre os esplendores da luz perpétua.

J.GOMES – (Geme).

LISANDRA - Que a sua alma descanse em paz.

TODOS        - Amem. Em nome do Pai, do Filho e do espírito Santo. Ámen. – (Benzem-se todos.)

RICARDINA- Ai! E os nossos que nunca mais chegam!

CIZALTINA – E é quase de madrugada, são quase três horas!

TADEU        - (Dormitando) – Hum! Já é de madrugada? Já é p’ra me levantar e ir à erva p’rá Ribeira da Grota?

CIZALTINA - Não tio! Deixe-se estar, durma mais… Ainda é muito cedo.

ISABELINHA (Para o moribundo) - Ai meu amor! Meu querido marido! Fala comigo! Ao menos diz-me se me ouves… Ouves-me?

GENOVEVA – Ó mulher, não vês que ele já nem fala nem ouve. Pede-lhe para te apertar a mão se te está a ouvir.

ISABELINHA - Jesuíno! Ó meu Jesuíno do coração! Ainda me ouves? Aperta pelo menos a minha mão, se me estás a ouvir…

CIZALTINA - Apertou, mãe, apertou? Minha mãe sentiu alguma coisa?

J.GOMES – (Geme).

ISABELINHA- Não filha não senti nada. Ai que desgraça a nossa! O que nos havia de acontecer! De repente, sem ninguém fazer conta… Mas eu tenho muita fé. Já lhe pus o escapulário do Carmo. Nossa Senhora do Carmo não vai permitir que ele morra!

IDALMIRO    - Ó mulher tens que está preparada para o pior! Ele já há muito que não dá sinais de vida. Para mim já morreu! Já não há nada a fazer. O António do Outeiro esteve três dias assim… Todos diziam que arrebitava… Olha… Foi o que se viu… Foi-se…

M.LEVADA   - Credo! Cala a boca homem. Que agoirento! Ele ainda há pouco gemeu…

ISABELINHA- Ai! Gemeu, gemeu… Mas ele está nas últimas, está. O meu coração diz-me que sim. O que vai ser de mim e dos meus filhos… Ele era a luz desta casa… Nunca nos faltou com nada… Era das terras para casa e de casa para as terras. Sempre o primeiro a se levantar… Sempre o primeiro a chegar a tudo…Caminhava para as terras ainda de noite… Voltava depois das Trindades. Nunca fugiu ao trabalho… Nunca parava… Só se fosse pra falar com um amigo! Mas mesmo para isso nunca tinha tempo…Nunca faltou com nada aos pequenos… Ai meu querido marido… As nossas terras sempre mondadas… Trazia tudo num mimo: as relvas, as terras de mato, as terras de milho… Todos o gabavam… Em casa sempre pronto a deitar mão a tudo… Era a lenha sempre no cepo… Era debulhar o milho… Era fazer os cambulhões… Ele é que tratava do porco e das galinhas… Nunca estava parado… Sempre a trabalhar… Sempre com o juízo nisto e naquilo para que nada nos faltasse…

Batem à porta.

CELESTINA- Ui! Até que enfim! São eles, são eles! – Corre, nervosa, a abrir a porta, cuidando que são os irmãos e o médico) - Já chegaram!? Já chegaram!? Entrem, entrem depressa

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PARTE VI - V ATO CENA 11 B

Sexta-feira, 17.03.17

ÁLVARO     - Ó pai! Para quê?  Tenho os pés quentes e a relva está toda molhada…

PAI               - Faz o que te digo. Descalça-te e dá-me os sapatos. Vou guardá-los na manga da minha froca, até ao Risco, onde acabam as relvas. Do Risco para lá já os podes calçar. Agora vais andando à minha frente, mas vai andando com cuidado, sentindo a relva debaixo dos teus pés, até encontrares o carreiro, onde ela está amachucada. Estás habituado a andar descalço. Passa muita gente por aqui. A erva está muito amachucada no sítio onde as pessoas passam. Assim, com os teus pés, vais conseguir encontrar o carreiro.

ÁLVARO     - Agora percebo. Dê-me a mão, que tenho tanto medo. Mas descanse, pai, que eu vou encontrar o carreiro.

PAI               - Vamos! Vai andando devagar, arrastando os pés… Assim… - (Pausa) – Devagarinho… Procurando bem…

ÁLVARO     - Pai! Encontrei! É aqui! Olhe, apalpe com as suas mãos e veja. É aqui, não é?

PAI               - É! É! Bravo! Estás a ver como foi fácil. Agora vai sempre direitinho, à minha frente, pelo carreiro adiante…

ÁLVARO     - Pai, mas eu queria ir ao seu lado, queria ir de mão dada consigo. Tenho medo. Olhe ali um vulto. É uma vaca deitada. Mas eu tenho tanto medo.

PAI               - Só deves ter medo de nos perdermos outra vez.. E eu acho que continuamos perdidos. Estamos a andar na direção de Ponta Delgada e não na direção da Fajã.

ÁLVARO     - Ó pai! Outra vez perdidos! Nunca mais chegamos a casa. E agora? O que vamos fazer?

PAI               - Agora vamos ter que resolver este problema, outra vez. Mas a noite está muito escura e não se vê nem a Ursa Maior nem a Estrela Polar… Não sabemos para onde fica o norte e por isso não sabemos se vamos na direção da Fajã. Mas vamos continuar a andar e quando encontrares uma parede, paras.

ÁLVARO     - Está bem, pai. – (Silêncio.) – Olhe! Estamos com sorte. Há aqui uma parede.

PAI               - Então para..- (Álvaro senta-se! O pai acaricia a parede de ambos os lados. Depois, com muita determinação e certeza.) - Íamos enganados. Nesta direção, regressávamos a Ponta Delgada. Vamos voltar para trás, porque a Fajã é na direção contrária.

PAI               - Como é que meu pai descobriu.

PAI               -Eu nunca andei na escola, nem sei ler nem escrever, mas durante a minha vida, aprendi muito, com o trabalho e com meu pai, teu avô, que já morreu há muitos anos. Ele ensinou-me que quando há nevoeiro ou andamos numa noite escura no mato e não se vê nada, nos podemos orientar pelas paredes, porque as paredes e os muros voltados para o norte recebem menos sol e, por isso, têm mais humidade e têm mais musgos e mais ervas. Foi isso que eu descobri, quando estive a apalpar a parede. Fiquei a saber para que lado fica o norte. Ora nós íamos a andar para o norte e como a Fajã fica para sul, foi só voltar ao contrário. Agora tenho a certeza que vamos na direção certa.

ÁLVARO     - Ó pai! Demoramos muito, já deve ser muito tarde. Deve ser quase meia-noite.

PAI               - Ainda não. Mas se fosse, qual era o problema?

ÁLVARO     - É que toda a gente diz que a meia-noite é a hora má, é a hora do demónio, em que ele aparece e aparecem muitas outras coisas. Minha avó até tem uma oração que reza para o afugentar para longe, quando está acordada à meia noite. Tenho tanto medo pai e ainda falta tanto para chegarmos a casa.

PAI               - Já te disse para não acreditares em nada disso. Tudo são coisas que as pessoas inventam:

ÁLVARO     - Ó pai e a ainda temos que passar a ladeira das Covas.

PAI               - E o que tem a ladeira das Covas?

PAI               - Pai não sabe? As pessoas quando passam lá ouvem gemidos. Pai, acredite! Toda a gente que passa lá ouve. Até o Senhor Padre Silvestre quando vai dizer missa à Ponta ouve. Ele ficou cheio de medo e agora  leva sempre dois homens com ele e dizem que os três ouviram os gemidos. A tia Juliana diz que aquela ladeira tem coisas do outro mundo porque Tiana de Bárbara contava que antigamente um homem viu lá uma mulher com pés e mãos de cabra.

PAI               - Isso são tudo tolices! Já foi descoberto o que eram os gemidos que toda a gente ouvia. Era a Ana do José Felício que andava por lá a gemer. Ontem um grupo de homens foi-lhe fazer uma espera, na relva do João Cristóvão. Esconderam-se toda a tarde na relva e à noitinha viram-na chegar e esconder-se numa furna. Eles calaram-se bem calados. Quando ela sentia alguém passar na ladeira, punha-se logo a gemer e a gritar. Eles pensavam que era apenas para assustar o senhor padre Silvestre. Mas depois apanharam-na e deram-lhe uma sova e ela lá explicou que só queria que as pessoas da Ponta tivessem medo de passar por ali, para não irem levar a moenda ao moinho do André e as deixassem no seu, que ficava para além da ribeira do Cão. Presta atenção ao carreiro e não penses mais nas tolices que te metem na cabeça.

ÁLVARO     - Já deve ser tão tarde… E ainda falta tanto para chegarmos a cima da rocha da Ponta. E a rocha é muito difícil de descer… e assim às escuras…

PAI               - Ou eu me engano muito ou quando chegarmos ao cimo da rocha já vamos ter Lua. Vai é com cuidado e atenção para não caíres e não nos perdermos outra vez. Tua irmã deve estar muito preocupada. Temos que andar mais depressa.

ÁLVARO     - Vamos pai!

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PARTE VI - V ATO CENA 11 A

Quinta-feira, 16.03.17

                     É noite escura. O pai e o Álvaro caminham, no escuro, nos matos, atravessando a ilha.

 

ÁLVARO     - Pai, a noite está tão escura! Não vejo nada! Devíamos ter ficado em casa do senhor Algarvio, em Ponta Delgada.

PAI               - E teus irmãos em casa sozinhos, sem saber de nós, preocupados, pensando que nos perdemos…

ÁLVARO     - Ó pai! Mas está tão escuro!... Não vejo nada!... Vamos voltar para trás!

PAI               - Vais ver que daqui a pouco os teus olhos se vão habituar à escuridão. E a Lua não vai tardar a aparecer. Isto é luar de Agosto!

ÁLVARO     - Ó pai! Mas eu tenho medo, muito medo.

PAI               - Medo de quê?

ÁLVARO     - Das almas do outro mundo.

PAI               - Qual almas do outro mundo, qual carapuça. As almas do outro mundo não fazem mal a ninguém. Os que morrem nunca mais voltam! As almas que ainda andam neste mundo é que, muitas vezes, fazem mal umas às outras.

ÁLVARO     - Mas dizem que no mato, de noite, aparecem muitas coisas.

PAI               -Aparecem tantas coisas como de dia, isto é, não aparece nada. A noite é igual ao dia, só com uma pequena diferença: é que é escura, não se vê. E é por isso que as pessoas têm medo.

ÁLVARO     - Ó pai, mas dizem que nos Terreiros, de noite, aparece um padre e um cão com uma cesta na boca e dentro da cesta leva a chave do sacrário. Foi o tio Francisco Fonseca que viu…

PAI               - Minhocas, minhocas na cabeça, é o que ele tem.

ÁLVARO     - E no largo da Cancelinha? Dizem que aparece lá uma mesa posta, com comida em cima…

PAI               - Também essa nunca vi. E com muita pena minha, porque às vezes passo lá com fome e aproveitava para comer.

ÁLVARO     - Ó pai! Por que é que é tão anamudo? Por que é que não tem medo de nada!

PAI               - Vou contar-te uma coisa. Uma vez, quando eu era rapaz, ia para o Areal, já era de noite. Ao passar na Furna das Mexideiras, ouvi uma barulheira  enorme. Fiquei assustadíssimo, tive muito medo e voltei para casa a correr cheio de medo. Meu pai perguntou-me o que tinha. Contei-lhe e ele disse-me que eu tinha que lá ir ver o que era, se não nunca mais lá passava. Como eu não queria ir sozinho, obrigou-me a ir com ele lá ver o que era.

ÁLVARO     - E pai foi?

PAI               - Fui, claro, mais ele.

ÁLVARO     - E viram alguma coisa?

PAI               -Vimos muitos cães. Tinham matado um carneiro, nesse dia, e atirado a cabeça para o baldio. Os cães apanharam-na, levaram-na para dentro da furna e, como todos a queriam comer, ladravam muito, faziam uma grande algazarra. Era esse barulho que fazia eco na furna. Era assustador! Mas era uma coisa deste mundo, tão natural. Foi assim que eu perdi o medo. Nunca mais acreditei em nada dessas tolices que contam por aí. Se não tivesse lá ido, nunca mais lá passava com medo… E contava a toda a gente e todos ficavam com medo… Tu também não deves acreditar nessas tolices.

ÁLVARO     - Ó pai, mas avó conta que pai Cristiano via muitas coisas. - (Ouve-se barulho) – Pai, está a ouvir! Ai! Tenho tanto medo. Estão a gemer, ali.

PAI               - É um boi que está a berrar. Estás a ver aquela mancha escura. É um boi na relva do Mantes. Viu-nos passar e, como é de noite, julga que é o dono e começou a berrar. Como vês, é tudo natural, é tudo deste mundo. Não tens que ter medo de nada do outro mundo. É preciso é ter cuidado com algumas coisas deste mundo… Essas, às vezes, é que nos fazem mal…

ÁLVARO     - Mas no fim da missa o senhor padre reza uma oração para afugentar os espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas…

PAI               - Espera – (Param) – Olha Álvaro, perdidos estamos nós. Mas não te preocupes. Antes de chegarmos às relvas vínhamos por um atalho. Era fácil de encontrá-lo. Agora entramos nas relvas, andamos por carreiros formados pelos passos das pessoas, através das pastagens, separadas por cancelas e tapumes de hortênsias. É difícil seguir pelo carreiro sem nos desviarmos. Mas vamos voltar a encontrá-lo. Não te preocupes.

ÁLVARO     - Ai! Tenho tanto medo, pai! E agora? Perdidos!? Vamos ficar aqui até de manhã?

PAI               - Não. Temos que seguir para nossa casa. Vamos procurar o caminho e vamos encontrá-lo. - (Silêncio) – Olha há aqui um tapume de hortênsias. Perto deve haver a cancela que dá para a relva seguinte…

ÁLVARO     - Pai, encontrou a cancela?

PAI               - Não. Estamos mesmo perdidos Mas vamos resolver isto. – (Silêncio) – Vamo-nos sentar um pouco.

ÁLVARO     - Pai, a erva está molhada!

PAI               - É do sereno. Senta-te em cima da minha froca.

ÁLVARO     - Pai, cada vez tenho mais medo. Vamos ficar aqui toda a noite?

PAI               - Não. Vamos resolver isto e já. Descalça os sapatos!

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PARTE V - IV ATO CENA 10

Quarta-feira, 15.03.17

C.SOPAS     (Entrando e falando ciosa e com os lábios muito salientes) – Poxo entá? Poxo entá? Xô Anxoninho, ua exoxuxinha pux xeux… Ui voxês nom xom da Faxã? Tanban andom a pedi. Xouxade xexa Deux. Uma exoxuxinha pux xeus. Uma exoxuxinha pu alma dox xeus.

ALGARVIO- Muda, traz-lhe uma boa fatia de pão com doce e um pedaço de queijo. Queres uma tigela de leite, Chora-Sopas?

C.SOPAS     - Xo xe fô café. Café. Nom goxo leixe, brr, brr. Leixe nom pexa.

D: JOSEFA  - Olha a finória! Não gosta de leite! E ainda há-de ser o que ela quer e pão com doce! Havia ser massa sovada… Muda, leva-a para a cozinha… E ela que saia pela porta de trás. Sim senhor, ainda vem bater à porta da sala, como se fosse uma visita importante. É uma desavergonhada é o que ela é! E sabem onde fica de noite, quando vem para Ponta Delgada? Sabem? É em casa do Cacho Maduro e dizem que pelos vistos fica na mesma cama com ele e com a mulher. Isto é o fim do mundo! – (Benzendo-se.) - Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Para sempre seja louvado.

ALGARVIO-Josefa! Tem tento na língua, olha o que dizes…

D JOSEFA - Eu não ponho famas nem aleives a ninguém. Só digo o que oiço dizer. Olha vou é tratar da ceia que se faz tarde. O Antoninho e o pequeno vão cear e dormir cá.

ALGARVIO – Claro mulher! Isso nem se pergunta.

PAI               - Ó António, eu agradeço-te muito, mas não posso ficar de forma nenhuma! É que tenho os outros sozinhos em casa! Não os quero deixar sós. Já está a ficar muito tarde. Está quase a dar Trindades. E eu tenho muito que andar. São quatro horas daqui à Fajã, mas é de dia e um homem sozinho! De noite e com o pequeno… nem em cinco horas… Tenho mesmo que ir. A Amélia não adormece sem eu chegar e fica muito preocupada! Tenho mesmo que ir e já!

ALGARVIO – Nem pensar António! Então vais-te meter nos matos, de noite, com esta criança? Estás doido, homem. Eu não vou deixar. Vão comer e dormir aqui. Obrigar uma criança destas a atravessar os matos de noite!?

PAI               - Faz lua toda a noite. Eu tenho que ir. Não me peças mais para ficar. Para te fazer a vontade vou aceitar alguma coisa para comer, mas apenas para o pequeno… Eu cá por mim amanho-me sem nada…

                     (Levantam e saem).

ALGARVIO – Continuas o mesmo teimoso de sempre! Vamos lá comer alguma coisa porque vão ter que andar muito! Ai vão, vão.

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PARTE V - IV ATO CENA 9 C

Terça-feira, 14.03.17

D JOSEFA - E rezar? Também já sabes rezar?

ÁLVARO     - Claro que sei D. Josefa. Até já sei o Pecador em latim e responder ao De Profundis. Sabe o que é o De Profundis? É o responso que o senhorr Padre reza quando morre alguém: O senhor Padre diz: “De profundis blábláblá até domine” e a gente responde: “Ne caspicias ne visonis”, três vezes seguidas.

D.JOSEFA   - Louvado seja o Sagrado e Imaculado Coração de Maria! Até já sabe o “Necaspicias”. Como é que tu já sabes isso!?

PAI               - Meu cunhado é o sacristão lá na Fajã, D. Josefa. De semana não lhe dá jeito ir ajudar à missa, porque precisa de ir trabalhar para as terras. Então minhas cunhadas pediram-me para deixar ir o Alípio, o que é a seguir ao mais velho. É verdade que ele também me faz falta, mas dão-me cinquenta centavos por dia… Bastante jeito me dá! Elas ensinaram lá os latins da missa ou quê ao outro e este ia ouvindo, ouvindo e olhe: aprendeu tudo.

D.JOSEFA – Então Álvaro, tu é que devias ir para sacristão. É tão lindo ajudar à missa… Acender as velas dos altares e tocar a campainha quando se levanta Nosso Senhor… Estar ali tão pertinho de Nosso Senhor…

ÁLVARO     - Pois… Mas o senhor padre diz que sou muito pequeno e não chego para acender e apagar as velas. Eu já disse que punha uma cadeira e subia para cima do altar para acender as velas. Mas não pode ser… Não se pode por os pés em cima dos altares. Ó senhorr António, posso lhe fazer uma pergunta?

ALGARAVIO – Todas as que quiseres. Ora vamos lá. O que queres saber?

ÁLVARO     - O senhor chama-se mesmo Algarvio ou isso é um apelido? É que eu nunca vi ninguém com esse nome.

ALGARAVIO – Não! Eu chamo-me António Alves da Costa Cabreira, mas em toda a ilha sou conhecido pelo António Algarvio. É que cá na ilha vocês tem uma mania muito engraçada: como há muitos Antónios e muitos Josés e muitos Manéis e muitos não-sei-quê, resolvem distingui-los com qualquer indicativo a eles ligado, é o José de Tianina, o Manuel do Monte, o António Cambado e a mim baptizaram-me por António Algarvio, sabes porquê? Porque não sou de cá, sou do Algarve. – (Retorcendo as pontas do bigode.) – Eu nasci em São Bartolomeu de Messines, a freguesia maior e mais importante do concelho de Silves, no Algarve. Também lá passam dois rios, mas mais pequeninos: o Arade e o Gavião. É a terra das pedras de amolar, que vocês aqui chamam esmorizes e também a terra onde nasceu o ilustre poeta João de Deus. Ainda lá está a casa onde ele nasceu e viveu. Já ouviste falar em João de Deus? Foi ele que escreveu a “Cartilha Maternal”, o primeiro livro escrito em português para as criancinhas aprenderem a ler.

D. JOSEFA - Lá está ele com as suas literaturas. Deixa em paz a criança, homem! Precisa é de aprender a rezar e fazer as nove primeiras sextas-feiras em Louvor do Sagrado Coração de Jesus.

ÁLVARO     - Não nunca ouvi. Mas, senhora D. Josefa, eu já sei rezar e até já sei responder à missa. Mas eu gosto muito de ouvir as histórias do senhorr António. Ele fala tão bem e sabe tanta coisa…

ALGARAVIO - Então vou contar-te uma história que nem os professores sabem ensinar, porque não vem nos livros da 4ª classe. - (Retorcendo as pontas do bigode e muito entusiasmado e com grande orgulho e patriotismo.) – São Bartolomeu de Messines foi um eficiente baluarte miguelista, por duas razões: primeiro porque foi local de residência de um dos mais célebres comandantes das tropas que apoiavam o nosso rei D. Miguel, de nome José Joaquim de Sousa Reis, mais conhecido pelo “Remexido”; segundo porque foi lá, junto à ermida de Sant’Ana, que as forças que apoiavam o nosso rei D. Miguel infligiram, em vinte e quatro de Abril de 1834, uma pesada derrota às forças liberais, que eram bem mais numerosas e melhor apetrechadas, comandadas pelo Marquês de Sá da Bandeira.

ÁLVARO     - Se fosse o Marquês de Pombal eu sabia quem era, porque vem a fotografia dele no livro da 4ª classe.

D.JOSEFA – Credo, menino. Esse foi que matou os frades e os padres todos e roubou os conventos… Um herege! Um herege!

ALGARAVIO – Pois ficas a saber para nunca mais esqueceres que esta vitória se deveu ao sábio e eficiente comando dum valoroso general chamado Tomás António da Guarda Cabreira, – (retorcendo as pontas do bigode) - meu antepassado e acérrimo defensor da causa miguelista.

D. JOSEFA - Tinha que vir, mais uma vez à baila, o general! E dizem que o homem era ateu e que morreu sem se confessar e arrepender… E tu vais pelo mesmo caminho…

ALGARVIO - Por isso não há messinense que se preze que não seja monárquico e miguelista. Abaixo a república! Viva a Monarquia! – (Retorcendo as pontas do bigode) - António, isto não demora muito e vamos ter rei outra vez a governar-nos…

D. JOSEFA - Foi por falares contra os nossos governantes e contra Deus que fugiste para aqui…

PAI               - Ó Dona Josefa, deixe lá! Os homens vêem-se é pelas acções e não pelas orações.

D.JOSEFA   -Pois o Antoninho fala assim porque também não põe os pés na igreja, não vai à missa, nem à desobriga. Está com o coração empedernido como este herege. Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Mas Deus, através das minhas orações, há-de ter piedade de vocês. E tantos desgostos que ele já teve e tanto que já sofreu por falar de mais e não há maneira de se emendar e arrepender.

ALGARVIO – Enquanto for vivo hei-de pugnar pelos meus princípios monárquicos.

                     Batem à porta e vai a muda ver quem é

D. JOSEFA - Muda, vai ver quem é?... Despacha-te mulher.

MUDA         (Vai à porta e faz sinais de chorar e comer)

D. JOSFA - Quem é mulher? Gente a chorar! Ai credo! Querem ver que morreu alguém!

MUDA         (Faz sinais negativos e continua a fazer sinais de chorar e comer).

D. JOSEFA - Então? Alguém está a chorar porque levou uma tareia?

MUDA         (Faz sinais negativos e continua a fazer sinais de chorar e comer, com maior insistência).

D JOSEFA - Ai mulher que não te explicas com jeito! É alguém que está a chorar com fome?

ÁLVARO     - Já sei! É a Chora-Sopas que anda a pedir pelas portas!

MUDA         - Ih! Ih!  (Fazendo, para Álvaro, sinais afirmativos e de contentamento).

D JOSEFA - Ora essa! Era só o que faltava agora! É todos os dias isto… E às vezes mais do que uma vez por dia, gente à porta a pedir. Manda-a embora que não há nada.

ALGARVIO – Josefa! Isso é que caridade!? Isso é agir de acordo com a religião que praticas? Muda, diz-lhe para entrar que se lhe há-de dar uma côdea de pão e um pedaço de queijo. Não entendo a tua religião mulher…

PAI               - É uma caridade! Ela é uma desgraçada, António. Não tem nada nem ninguém e corre a ilha toda a pedir. Ainda há dias andou na Fajã.

 

 

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PARTE V - IV ATO CENA 9 B

Segunda-feira, 13.03.17

ALGARVIO - Josefa, não comeces… – (Retorcendo as pontas do bigode.)

JOSEFA - Eu não ponho famas nem aleives a ninguém. Só digo o que oiço dizer.

PAI               - D. Josefa, com seis filhos para criar, com as terras para trabalhar e o gado para tratar… Não acha que tenho sarna para me coçar?

ALGARAVIO - Ora vamos deixar coisas tristes e vamos conversar é com este nosso homenzinho, que desde que chegou ainda não disse nada. Como te chamas? Perdeste a língua?

ÁLVARO     - Álvaro, Álvaro Lourenço Belchior.

PAI               - Ele está um bocado mal disposto. É que nós viemos de barco…

ALGARVIO – No do Gregório, que foi levar farinha à Fajã…

PAI               – Sim. Mestre Gregório apareceu lá na Fajã e é que se ofereceu para me trazer. O pequeno, quando soube ficou todo contente, porque nunca tinha andado no mar. No início da viagem, vinha muito bem-disposto, mas depois o mar começou a piorar, a piorar e ele começou a enjoar, vomitou e passou mal toda a viagem… Uma desgraça! Sorte foi ter adormecido a partir da ponta do Albarnaz.

  1. JOSEFA - Coitadinho! Então deve estar muito fraquinho e cheiinho de fome.

ALGARVIO - Ó mulher e tu aí parada a fazer o quê!? – (Retorcendo as pontas do bigode.) – Vá lá, buscar alguma coisa para a criança comer.

D.JOSEFA   - O menino quer uma tigelinha de leite e uns biscoitinhos que tenho ali dentro, ainda quentinhos? Quer?

ÁLVARO     (Tímido e envergonhado.) – Não senhora. Não quero nada. Obrigado.

ALGARVIO-Ó Josefa, francamente. Isso é pergunta que se faça a uma criança, ainda por cima a uma criança que enjoou toda a viagem, da Fajã até aqui, que deve estar cheia de fome? – (Retorcendo as pontas do bigode.) – Vai imediatamente buscar alguma coisa para ele comer. Nunca se pergunta a um doente se quer saúde.

  1. JOSEFA - Muda! Ó Muda! Despacha-te mulher! Ai meu Sagrado Coração de Jesus! Ela nunca me ouve. - (Levanta-se e vai buscar comida.) - Estás cada vez mais surda.

ALGARVIO - Então chamas-te Álvaro. Sim senhor. Bonito nome. Fazes muito bem em acompanhar sempre o teu pai. – (Para o pai.) – Ainda tens dois mais novitos, não tens?

PAI               - Tenho uma menina de três e um rapaz de meses. Mas estão quase sempre em casa de minha sogra.

  1. JOSEFA (Entrando com uma bandeja com biscoitos e uma tigela de leite.) – Ora vamos lá a comer, que deves estar mortinho de fome.

ÁLVARO     - Não quero, obrigado.

PAI               - Álvaro, não te faças rogado. A D. Josefa oferece de boa vontade.

ÁLVARO     (Aceita e come sofregamente).

ALGARVIO - Então o leite das vacas cá do Algarvio não é melhor do que o das do teu pai? - (Para o pai.) – Quantas vacas tens, agora, António?

PAI               - Duas. Mas vou embarcar uma, a Toucada. Já está à engorda. Quero ver se me dá pelo menos um conto, para por água em casa e mandar fazer uma pia para lavar roupa. A água faz muita falta numa casa e a pequena é muito novinha e fraquita, não pode andar a acartar baldes e baldes de água e ir lavar sozinha para a ribeira. Tenho uma bezerra deste ano, que vou criar para fazer vaca. – (Para o Álvaro que acabou de comer.) – E agora? Como se diz à D. Josefa?

ÁLVARO     (Mais animado e recomposto.) - Obrigado senhora D. Josefa!

ALGARVIO -Sim senhor! Álvaro, - (retorcendo as pontas do bigode) – agora que já recuperaste as forças, diz-me lá: já andas na escola?

ÁLVARO     - Não senhor. Só tenho seis anos, mas em Março faço sete e a Sra Professora já disse que no dia a seguir entro logo para a escola.

PAI               - Ele já sabe ler. São minhas cunhadas que o ensinam. Depois ouve os irmãos a estudar e aprende tudo.

ALGARVIO - Depois de fazer a 4ª classe deves pô-lo a estudar, que ele parece muito inteligente

PAI               - Ui! Como António? Isso é uma loucura. Só se for com conchas de lapas. Já a Amélia também era muito esperta e quando acabou a 4ª classe a senhora professora disse-me o mesmo. Mesmo que fosse aqui na ilha eu não podia… Mas então para o Faial… Nem pensar…

ALGARVIO – Isto é uma vergonha! Numa ilha como esta só haver escolas primárias! Quem quer continuar a estudar tem que ir para o Faial, para a Terceira ou para S. Miguel. Isto não se admite!...

PAI               - As crianças fazem muita falta aos pais para os ajudar nas terras. Olha em toda a Fajã, que me lembre, só duas raparigas é que foram estudar para o Faial.

ÁLVARO     - Eu já sei os rios de Portugal todos. Quer ver Sr António: Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga, Mondego, Tejo, Sado, Mira e Guadiana. E também já sei os reis da 1ª dinastia e os seus cognomes…

PAI               - Álvaro, não aborreças mais o Sr António.

ALGARVIO – Deixa lá gosto de ouvi-lo. Além disso, com esta idade e a saber tudo isso não é muito vulgar.

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PARTE V - IV ATO CENA 9 A

Domingo, 12.03.17

PAI               (Entrando com  Álvaro e cumprimentando D. Josefa.) -  Como está D. Josefa? Dá-se licença?

JOSEFA - Faça favor. Entre, entre. Como está Sr António? Ah! E traz um menino!

ALGARVIO (Tentando levantar-se.) – Ó homem! É preciso bater à porta e pedir licença? Esta casa é tua!... Então como estás, homem? – (Abraçam-se.)

PAI               - Como vai essa saúde António?

ALGARVIO - Já esteve pior, muito pior, mas ainda não está bem. Esta viagem no Carvalho custou-me muito, quase me matou. E da Fazenda de Santa Cruz para aqui, como não há estradas, nem carros, olha, tive que vir de palanca. Esta terra não progride. Nunca mais fazem estradas… Admite-se que ainda não haja uma estrada a ligar a freguesia mais importante do concelho de Santa Cruz à vila?... E no concelho das Lajes ainda é pior: quatro das seis freguesias ainda não tem estrada que as ligue à vila. - (Retorcendo as pontas do bigode.) - Vocês lá na Fajã querem tratar qualquer coisa na sede do vosso concelho e têm que ir a pé! Isto não se admite… Bem, mas ainda mal consigo andar, meu amigo. Foi uma operação muito grande! Já me arrependi de ter vindo no último Carvalho! Devia ter ficado mais algum tempo na Terceira. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - Só que se o fizesse teria que lá ficar mais um mês. Não se admite que o navio só venha uma vez por mês às Flores. De duas uma: ou ficava mais um mês em Angra do Heroísmo, gastando uma fortuna ou vinha-me embora para as Flores, fazendo um grande sacrifício e correndo grandes riscos. Mas vá lá que correu tudo bem e estou a ficar melhor. – (Apontando para o Álvaro) – Então trouxeste um dos pequenos!? – (Retorcendo as pontas do bigode) - E este qual é? É o mais velho? Como estás meu rapaz? Dá cá um abraço.

PAI               - Este é um dos do meio. - (Para Álvaro) – Cumprimenta o Sr António. – (Para o Algarvio) – E lá em Angra, como foi?

ALGARVIO - Oh homem tu também já foste lá, à faca. Sabes como é. Eles são uns carniceiros!  Nos primeiros dias é esperar, esperar, em casa das Senhoras Cupides, na rua da Garoupinha, nº 5, que é o hotel das Flores e de S. Jorge. Aquilo está sempre cheio de florentinos e jorgenses. Depois lá consegui a consulta no doutor Gago da Câmara. Felizmente ele marcou logo a operação e internou-me imediatamente no hospital. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - Olha ali a Josefa é que gostou de estar em casa das Cupides. Ficou a saber a vida de toda a gente em Angra do Heroísmo… Inclusive a do bispo, do cabido da Sé de quase todo o clero da ilha…

D.JOSEFA   - Credo, que exagero. Mas olha que eu nunca perguntei nada a ninguém. Só ouvia o que me diziam. E olhem que não era pouco! Aquilo é que é pouca vergonha, naquela cidade. São lugares muito grandes. Se aqui já é o que se vê, o que não seria lá. Este mundo está perdido! Até já dizem que é o terceiro segredo de Fátima que vai ser revelado.

ALGARVIO - Ó António, fala-me de ti homem. Que grande desgraça te aconteceu! E eu que não pude ir à Fajã para te dar um abraço. Naquela altura já estava muito doente… Mas conta-me, como foi que ela morreu?

PAI               - António, foi uma desgraça. Foi uma grande desgraça!

  1. JOSEFA - E ela ainda era muito nova, não era Sr António? E é verdade que estava à espera doutro filho? Coitadinha. Deus dê paz à sua alma.

ALGARVIO - Ó mulher ouve e cala-te.

PAI               - Tinha 41, D. Josefa. E estava à espera de um filho… estava… Sabes como ela era António. Não parava, nem em casa, nem nas terras. Sempre a trabalhar. Ajudava-me muito! E agora que a Amélia, a mais velha, já fazia muita coisa em casa ela ajudava-me muito nas terras. Foi tratar dumas galinhas e um sanababicha de um galo da Madeira deu-lhe um bicada numa perna, por azar, numa variz. Depois aquilo nunca mais curava… Fui procurar o senhor doutor… Corri a ilha toda atrás dele… Lá mandou que ela fizesse análises… Ela tinha a albumina muito alta, e ele pediu para a internar no hospital da Vila. Levei-a imediatamente, com muito sacrifício, porque ela já não conseguia andar pelo seu pé. Tivemos que subir a rocha dos Bredos com ela às costas, de palanca. Foi terrível! E, para desgraça minha, já não voltou a sair do hospital….

ALGARVIO- Esse sanabagana desse doutor é que é o responsável por tudo isso. Passa a vida a caçar e em jantaradas. Procura-se por toda a ilha e nunca se encontra. E quando se encontra, só sabe receitar leite de cabra. Mas a culpa não é só dele. É deste governo republicano, a culpa é dos republicanos que desde o regicídio governam este país. Isto não se admite. O governo não olha por nós. Uma ilha com mais de dez mil pessoas tem só um médico e um hospital com meia dúzia de camas! Um hospital que é uma vergonha! A minha sorte foi nem lá entrar. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - Esta ilha está totalmente abandonada e desprotegida, homem. Isto é uma vergonha!... As pessoas morrem aqui com uma simples dor de cabeça, porque não há um comprimido para lhes dar. E ninguém faz nada para mudar isto! Eu bem falo e protesto, mas ninguém me ouve. Acusam-me de monárquico, como se fosse um crime desejar outra vez um rei para Portugal. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - E agora António, como é que vais organizar a tua vida, homem?

PAI               - Isso é que me preocupa e muito. Mas tenho que me amanhar sozinho. Os dois mais velhos já me ajudam muito, embora um deles ainda ande na escola, na 3ª classe. Mas eu não o tiro da escola por nada deste mundo! Eles a bem dizer já fazem tudo, menos lavrar com o arado de ferro. E a Amélia, a mais velha, foi muito habituada pela mãe na vida da casa. Já faz tudo sozinha. Coze pão no forno, coze bolo, acarta água, arruma a casa, faz a comida e vai lavar à ribeira. Olha até já remenda a roupa. (Voltando-se para Álvaro). Este é o meu companheiro! Acompanha-me sempre para todos os lados. Mas custa-me muito vê-los penar assim… e depois sempre a lembrarem-se da mãe… Custa muito, custa! Tudo a faz lembrar. – (Com lágrimas nos olhos) - Uma mãe faz muita falta numa casa…

D.JOSEFA   - Se faz Antoninho, se faz. Olhe perdi a minha já era uma rapariga e a falta que ela me fez… Só Deus e eu o sabemos. Mas o Antoninho é muito novo. Não vai faltar mulher que o queira! Olhe o José da Grota, aqui de Ponta Delgada… Há pouco mais de um mês que a mulher lhe morreu e já anda com a mais velha da Ana do Outeiro. Dizem que nas terras aí para cima é uma vergonha! Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Para sempre seja louvado.

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PARTE V - IV ATO CENA 8

Sábado, 11.03.17

Uma sala de casa rural (agricultor remediado) açoriana dos anos 50. Num canto uma cómoda (mesa) com fotos e santos em cima. Várias cadeiras ao redor da mesa e um cadeiral (de vimes), no qual está sentado António Algarvio, dono da casa e, numa outra cadeira, D. Josefa. Dormitam.

Batem à porta.

 D.JOSEFA (Acordando um pouco espantada.)- Muda! Ó Muda! Parece que estão a bater à porta. Despacha-te mulher! Ai meu Sagrado Coração de Jesus! Esta Muda nunca me ouve.

ALGARVIO- Ó mulher como é que queres que ela te ouça se é surda? Vá lá tu abrir a porta… Anda lá.

Continuam a bater.

 D.JOSEFA  (Levantando-se a custo e cramando.) – Ai este meu reumatismo… Esperem que já lá vou!... E aquela Muda que está cada vez mais surda. E eu aqui já sem poder fazer nada e a ter que fazer tudo… O Sagrado Coração de Jesus tenha compaixão de mim. – (Continuam a bater.) - Esperem!... Esperem! Jesus! Credo! Parece que querem rebentar a porta! Já lá vou…

ALGARVIO – Ó mulher despacha-te e deixa-te de rezas… Só rezas e jaculatórias! Vá lá ver quem é.

D.JOSEFA   - Á! ´- (Voltando-se da porta para o Algarvio.) – É gente da Fajã! É o teu amigo António com um dos pequenos.

ALGARVIO - Ó mulher e de que estás à espera? O meu amigo António!? Manda-o entrar imediatamente, que me custa levantar.

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PARTE IV - III ATO CENA 7 B

Sexta-feira, 10.03.17

M.DA ANA    - Ui! Acabámos de passar a Baixa Rasa e o ilhéu do Cão! Eu bem me parecia que a tua boa disposição ia acabar de pressa…

JACINTO        - Não desanimes rapaz. Conta mais histórias para te distraíres.

ÁLVARO        (Angustiado) – Pai, vamos para trás, quero ir p´ra nossa casa. Estou a ficar muito mal disposto.

PAI                  - Paciência! E tanta alegria que tiveste quando soubeste que vinhas…

  1. GREGÓRIO – Jacinto, agarra bem o miúdo. Não vês que ele vai vomitar.

ÁLVARO        - Brr. Ai! Ai! Oh pai! - (O pai e o Jacinto agarram-no, inclinando-o para a borda do barco. Álvaro vomita.) – Ai! Ai Jesus que eu morro. Quero ir para casa. Ai. Ai. Não quero andar mais de barco. Ai! Ai! Ai que eu morro!

MULATO       - Não morres coisa nenhuma. Isto acontece a todos. É só nas primeiras vezes. Ainda vais ser um grande marinheiro, quando fores grande.

M.DA ANA    - Bravo! Assim é que se aprende! Eu também comecei assim. Vais ver que para a próxima vai ser melhor.

ÁLVARO        - Pai ainda falta tanto… Da Rocha da Ponta até Ponta Delgada ainda demora muito? Eu não aguento isto! Quero ir para casa!

M.GREGÓRIO – Calma rapaz, calma. Vamos resolver o teu problema. (Levanta-se, entrega o leme a um dos marinheiros, pega nalguns velhos casacos e outras peças de roupa, dobra-as, enrola-as e estende-as no fundo do barco, à proa, formando uma pequenina cama. Passa carinhosamente, a mão pela cabeça de Álvaro.) - Deita-te aqui. Vais ver que assim passas melhor e não vomitas mais.

ÁLVARO        (Deitando-se) – Olhe pai! Já viu como o Monchique visto daqui tem uma forma diferente do que visto da Fajã. Daqui parece um cesto voltado com o fundo para cima e da Fajã parece um quarto de bolo queimado.

 

                        O pano fecha-se. Algum tempo depois:

 

M.GREGÓRIO – Eh António. O pequeno vai acordado? Aqui, na baía dos Fanais o mar está muito manso. Vou passar com o barco por dentro do ilhéu, para baloiçar menos. Diz ao pequeno que se levante para ver isto.

JACINTO        - Para mim é o sítio mais bonito de toda a costa da ilha.

PAI                  - Álvaro levanta-te, para veres a baía dos Fanais e o Ilhéu de Maria Vaz.

ÁLVARO        (Tentando levantar-se. Ainda um pouco tonto.) - Já chegamos a Ponta Delgada, pai!? O barco parece que está parado!

PAI                  - Não. Estamos na baía dos Fanais. Levanta-te para ver o ilhéu de Maria Vaz. O mar aqui está muito mansinho.

ÁLVARO        (Apontando admirado.) – Ih! Que grande. É muito maior do que o ilhéu do Cão. Parece uma ilha. Deve ser quase do tamanho do Corvo.

MULATO       - Não exageres rapaz. Mas lá que é grande, é?

ÁLVARO        - O mar está tão mansinho aqui! Vive ali alguém Sr Gregório?

M.GREGÓRIO – Não! Antigamente ainda havia cabras e ovelhas. Os donos vinham cá trazê-las de barco. Mas começaram a roubá-las… e agora já ninguém as vem cá por.

MULATO       - Só se for tolo! Para ficar sem elas…

MULATO       - Isto aqui é bom é para lapas e para pescar. Ali, no rolo dos Fanais, as lapas são como a palma da minha mão! O pior é descer a rocha para as apanhar.

M.DA ANA - E aqui, no ilhéu, os ratos são do tamanho de cães.

ÁLVARO     (Agarrando-se ao pai, cheio de medo.) – Óh pai, é verdade! Eu tenho tanto medo…

M.GREGÓRIO (Para o Manuel da Ana.) - Oh Manel, para de dizer asneiras e meter medo ao pequeno. Presta mais atenção a essas cordas! - (Para Álvaro) – Olha Álvaro: aqui é um dos locais mais belos da ilha das Flores. Tenho passado aqui muitas vezes e já vim pescar ali para aquelas rochas. Ali, naquelas baixas, há muitas vejas, rateiros, e peixes-reis. Lá dentro, no rolo, também há muita moreia. Antes de andar no mar, vinha pescar para ali com meu pai. Ele descia aquela rocha com os olhos fechados… e ela não é fácil de descer. Conhecia o caminho como a palma das mãos! Vês aquela queda de água, parecida com as da Fajã? É a ribeira da Francela. Lá em cima vêem-se as relvas onde o gado pasta. Aquelas lá ao longe já são de Ponta Delgada, estas de cá são da Ponta.

PAI               - Logo, quando viermos para casa, vamos atravessá-las todas.

ÁLVARO     - E de lá de cima vê-se o ilhéu?

PAI               - Se viermos com dia…

M.GREGÓRIO- Eh pessoal, a partir da ponta do Albarnaz temos o vento pela ré. Vamos aproveitá-lo. Mulato, apaga o motor. Manel, içar a vela. Antonho deita o pequeno outra vez. Para além do mar estar pior, a navegação à vela é pior para quem se dá mal no mar. Eh rapazes vamos a isto! Há que aproveitar o vento e poupar o gasóleo.

ALVARO   (Deitando-se.) – Óh senhor  Gregório, daqui a Ponta Delgada ainda demora muito?

M.GREGÓRIO – Com a ajuda de Deus e deste vento dentro de meia hora estamos lá. Eh Manel, olha-me essas cordas. Cuidado Mulato, tapa o motor que vai respingar muita água. Olha Antonho, já se avista o Corvo.

PAI               - Álvaro, levanta-te para veres o Corvo!

ÁLVARO     (Levantando-se a muito custo e cambaleando.) – Ui ! Então é verdade o que me dizia o Câncio: do Albarnaz vê-se o Corvo. Ui! Mas é uma ilha tão pequenina. Oh pai, com aquelas nuvens por cima parece um biscoito, saído do forno, ainda a fumegar. Ai! Ai. Quero ir para terra! Esta maldita viagem nunca mais acaba! (Volta a deitar-se.)

M.DA ANA – Deita-te, deita-te. Não sabes o que te espera. Daqui até ao porto vai bater um bocado.

M.GREGÓRIO- Pode ser que ele durma. Com estes balanços! Pessoal! Com este vento vamos à vela até Ponta Delgada. Como vão sem fazer nada, podem lançar as linhas e pescar. Isto é mar para serras.

PAI               - Já adormeceu!

M.DA ANA - Ainda bem Antonho. Com este mar e a navegar à vela até Ponta Delgada, ele ia dar-te que fazer. Linhas prá água! Vamos ver se arranjo ceia p’rà minha Maria e para os meus pequenos.

 

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PARTE IV - III ATO CENA 7 A

Quinta-feira, 09.03.17

A bordo do S. Pedro, navegando a noroeste da ilha. O barco inicialmente navega a motor, mas na parte final da viagem navega à vela. À ré com a cana do leme na mão, calças arregaçadas vai sentado M. Gregório.

 

M.GREGÓRIO- Ó Antonho, senta-me esse pequeno ao pé de ti. Com os balanços do barco não vá o diabo tecê-las.

M.DA ANA    (Para o Álvaro.) -  Então é a primeira vez que andas de barco?

ÁLVARO        - É sim senhor. E estou a gostar muito.

 J.DO ALTO   - (Para o Mulato.) – Ou me engano muito ou da Rocha da Ponta p’ra lá vai gostar pouco…

PAI                  - O mar vai estar sempre assim calmo, até Ponta Delgada?

JACINTO        -Hum! – (Olhando para as nuvens.) – O vento está a rodar para noroeste. Da ponta do Albarnaz para lá vai meter umas vagas grandotas.

.M.DA ANA   - Ó Jacinto! Parece que nunca andaste no mar. Da ponta do Albarnaz para lá? Com que então? Parece que estás cego! Olha como as nuvens correm para cima da terra. Não enganes o homem! Da Baixa-Rasa p’ra lá já vai mexer bem!

ÁLVARO        - Ó pai, olhe como se vê a Fajã daqui. É tão diferente. Olhe, estou a ver a casa d’avó, acolá.

MULATO       - E a tua? Não a vês?

PAI                  - Não, não a pode ver. Fica na Assomada, por trás daquele Outeiro, que tem a cruz no alto.

ÁLVARO        - Vê-se bem é a igreja e a torre do chileno? A Fajã vista daqui parece um navio, parece mesmo o Carvalho Araújo, quando vem fazer serviço aqui para a baía: a Ponta do Baixio é a proa e depois é o convés com as casinhas brancas e as torres da igreja e da casa do chileno.

JCINTO           - Sim senhor, muita imaginação. Mas o que é isso da torre da casa do chileno?

ÁLVARO        - É aquela casa muito alta com uma torre. Mas não sei porque se chama assim. Talvez meu pai saiba.

PAI                  - Há uns anos atrás houve um homem de cá que emigrou para o Chile. Lá, pelos vistos, a vida correu-lhe às mil maravilhas. Fez fortuna… Passados muitos anos voltou riquíssimo, dizem que milionário, e então construiu aquela casa enorme, com uma torre em cima. É a casa maior da freguesia e toda a gente a conhece pela “casa do chileno”.

ÁLVARO        - Pai, estamos a passar a rocha das Covas. Olhe a nossa terra, vê-se bem daqui. Foi ali… Lembra-se?

M..DA ANA   - O que aconteceu ali rapaz? Tu sabes muitas histórias, mas teu pai é que as conta? Então diz lá? O que aconteceu ali?

ÁLVARO        - Ó pai conte!

PAI                  - Foi um grande susto que apanhámos. Eu tenho ali uma terra, mesmo bem junto à rocha. Há uns dias atrás, ele veio comigo apanhar erva-santa. Estávamos mesmo bem encostados à rocha, ali, junta aquelas faeiras, quando começaram a cair pedras, calhaus enormes. Vimos a morte pintada! Não fossem os gritos do Constantino, de cá de baixo, a dizer para ficarmos junto da rocha, hoje não estaríamos aqui.

M.DA ANA    - Tiveste sorte rapaz! Olha se apanhavas com aqueles marmelos!

J.DO ALTO    - Estas rochas são muito perigosas, não são?

PAI                  - Perigosíssimas! Quase todos os dias caem pedras ou ribanceiras. E eu tenho muitas terras junto à rocha. Tenho aquela de mato, tenho mais abaixo uma lagoa de erva, tenho três relvas, mais além, nas Águas e ainda tenho outra lá para cima, nos Paus Brancos. Tudo debaixo da rocha. Mas há quem esteja pior…

ÁLVARO        - Eu agora já sei como se deve fazer, quando estamos junto da rocha: se estiverem a cair pedras devemos fugir para junto da rocha. Se for ribanceira é que é pior.

MULATO       - Tem morrido muita gente?

PAI                  - Meu pai contava que antigamente morria mais. Mas hoje em dia, não. Nos últimos anos, que me lembre, morreram três pessoas. Aquela ribeira chama-se Ribeira das Casas. Os antigos diziam que era por antigamente haver ali casas que foram cobertas por aquela ribanceira que ali se vê, à nossa esquerda, mesmo no sírio da minha terra. Mas não acredito muito…e se tal aconteceu já foi há muitos anos.

ÁLVARO        - Ponta Delgada também fica assim debaixo duma rocha?

JACINTO        - Não. Ponta Delgada fica no cimo duma encosta tem um cais muito bonito e grande e uma pequena baía ladeada por uma ponta que também se chama Ponta Delgada, e que deu o nome à freguesia e pela Ponta do Ilhéu e estende-se por uma grande planície, cheia de casinhas pintadas de branco. É muito mais bonita do que a Fajã. Nunca lá foste, pois não? Vais gostar muito… Ainda ficas é lá…

MULATO       - Não tem é assim uma torre como o do chileno ou lá o que é…

M. GREGÓRIO - Mulato, mais atenção ao que vais a fazer. Vê se não respinga água salgada para cima do motor.

ÁLVARO        (Encostando-se ao pai, começando a ficar enjoado) – Pai, ainda falta muito para chegarmos a Ponta Delgada?

 

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PARTE III - II ATO CENA 6

Quarta-feira, 08.03.17

Na mesma rua a avó de Álvaro está sentada à janela, rezando o terço.

 

ÁLVARO        - Adeus avó, adeus avó. Até logo. Vou a Ponta Delgada, de barco!

AVÓ                (Benzendo-se.) – Eu me benzo do não-sei-que-diga. Credo em cruz! O que estás a dizer? Vais para onde?

ÁLVARO        - Avó, vou p’ra Ponta Delgada. Ouviu bem, avó? Pon-ta Del-ga-da!

AVÓ                - Tu não estás bom do juízo ou estás a fazer pouco de mim. Não se enganam pessoas de idade.

ÁLVARO        - Avó, acredite, é verdade, eu vou mesmo a Ponta Delgada. Eu não sou nenhum intrujão. Olhe já estou calçado e tudo.

AVÓ                - E vais a Ponta Delgada com quem e fazer o quê?

ÁLVARO        - Vou com meu Pai. Para lá vamos de barco e para trás vimos a pé. Meu pai vai fazer uma visita ao seu amigo, o sr António Algarvio.

AVÓ                (Volta a benzer-se.) – Eu me benzo do Coiso Mau. Teu pai está doido. Caminhar assim sem mais nem menos para Ponta Delgada… A estas horas… Para voltar hoje…

TIA JOANA    (Aparecendo à janela.) – Quem é que vai a Ponta Delgada?

ÁLVARO        - Sou eu, mais meu pai, tia Joana?

TIA JOANA    - Teu pai não tem uma pinga de vergonha! Ainda não há um ano que tua mãe morreu e ele já caminha para todos os lados. Não para em ramo verde! Nunca está em casa. É uma vergonha! Já toda a gente fala na freguesia.

ÁLVARO        (Saindo a correr.) – Metam-se na sua vida. E se falam é porque minha tia ouve.

TIA JOANA    - E o pior, mãe, é que ele caminha para aqui e para acolá e manda os dois pobre piauzinhos mais velhos para as terras sozinhos. Qualquer dia ainda acontece alguma. Onde é que se viu duas crianças daquela idade andarem sozinhos por essas terras de foices e machados a ceifar feitos e cortar lenha!...  Pobres piauzinhos! Ainda se vão cortar! É preciso não ter vergonha! E caminha com uma criança a estas horas para Ponta Delgada! Vão voltar para casa de noite, a umas lindas horas! Ainda se vão é perder…

AVÓ                - Deixa estar que Santa Rita há-de fazer o milagre de os guiar. Vou já fazer-lhe uma promessa: quando eles chegarem vou acender-lhe a luzinha e rezar-lhe a ladainha.

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PARTE II - II ATO CENA 5

Terça-feira, 07.03.17

Rua duma freguesia. Quatro crianças preparam-se para uma das suas brincadeiras habituais: - pesca à baleia (imitação do quotidiano dos adultos). Com duas canas construíram um bote. Três ocupam o barco: o mestre à ré, um marinheiro a meio e o trancador à proa.

 

RODRIGUES  – (De um lugar mais alto, com as mãos nos olhos, finge que tem uns binóculos e vigia baleia. Depois, simulando encontrar uma, simula também atirar uma bomba.) – Fexxt Poom!

CÂNCIO         (Correndo) – Baleia! Baleia! Baleia à vista!

JÚLIO e GREVES /Correndo na direcção do bote) – Baleia! Baleia! Vamos arriar! Bote para a água! (Entram para o bote e pegando-o ocupam os respectivos lugares, fingindo remar).

RODRIGUES  (Abandona rapidamente a vigia e vem fazer de baleia. Anda de cócoras, com a boca cheia de água. De vez em quando levanta-se e lança rapidamente jactos de água de forma a que não seja arpoado.)

GREVES         - Vira-me esse esparel p´ra direita, mestre. Ali há baleia!

CÂNCIO         - Já está na direcção! Arpoar agora!

GREVES         (Atirando o arpão, tentando atingir a baleia.) – Remar com mais força.

ÁLVARO        (Passando a correr.) – Atira-lhe Greves, atira-lhe mas não lhe acertas. Bom trancador sou eu! Não falho uma.

RODRIGUES  (Para os do bote.) – Parem, parem. Agora não vale. – (Para o Álvaro.) -Eh Álvaro anda brincar connosco. Não aguento sozinho a fazer de baleia. Ele está-me sempre a perseguir e apanha-me logo. Não consigo vir a cima d´água.

ÁLVARO        - Não posso, hoje não posso.

JULIO             - Olha o medricas, vai p’ra casa da avó, p’ra baixo das saias das titias…. Ááá!

GREVES         - Olhem! E traz os chinelos. O chinelinho hoje vem de chinelos.

ÁLVARO        - Vocês falam é de inveja. Se soubessem p´ronde vou!? Vou para Ponta Delgada e de barco, num barco a sério.

JÚLIO             - Vais… Vais… Vais mas é tratar das galinhas da avó…

RODRIGUES - Eh pá. Olha que ele vai calçado. Se calhar é mesmo verdade. E olhem que não nos  liga.

ÁLVARO        - Vou e vou de barco. Mas num barco a sério. É no S. Pedro, que já está no Cais. Adeus! Não posso demorar-me. (Sai a correr).

CANCIO         - Vamos continuar a brincar, com ele não podemos contar hoje. Olha vem ali o Chapinha. É do melhor que há pra´baleia… (Saem).

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PARTE II - I ATO CENA 4

Segunda-feira, 06.03.17

                        Entra o Álvaro em grande correria.

AMÉLIA         (Dirigindo-se ao Álvaro.) – Só agora!? Este tempo todo para ir ao Outeiro Grande? Só agora? Só? – (Pega num garrancho e começa a bater-lhe nas pernas. Caem-lhe maçãs dos bolsos) – Toma, toma para andares mais depressa. E ainda por cima com as algibeiras cheias de maçãs. Está vendo pai? Eu não lhe disse? Está aqui a prova. Onde as foste roubar?

ÁLVARO        (Choramingando e gritando.) –Ai! Ai! Ó pai, não vê? Ela está-me batendo! Ai! Ai! Eu não as roubei. Foram do Delgado d’avó. Tia Juliana  já me disse que quando passar por lá posso apanhar as que quiser.

ALÍPIO           (Para Amélia.) – Amélia, pára!

ALÍPIO           - Se vieste pelo Delgado podias ter ido ter connosco à Cabaceira e ajudar a ceifar os feitos e a cana roca.

ÁLVARO        - Eu não sabia que vocês estavam lá!... Nem tinha foice…

JUSTINO        - Ai! Que espertinho! Não tinhas foice… Mas podias a ir atrás fazendo as mancheias.

PAI                  - Álvaro diz a verdade. Onde apanhaste as maçãs?

ÁLVARO        - Pai, já disse. Foi no Delgado d’avó.

PAI                  - E porque é que vieste pelo Delgado? É muito mais longe …

ÁLVARO        (Fica calado por uns segundos, depois hesita) – É que…eu…

PAI                  - Diz lá porque é que muitas vezes vens pelo Delgado? Pelo Covão é muito mais depressa. Pelo Delgado demoras muito mais… E sabes que fazes falta em casa, para ajudar a tua irmã. Diz lá porque é que vieste pelo Delgado?

ÁLVARO        - Eu venho pelo Delgado porque tenho medo de passar junto ao Calhau das Feiticeiras. Dizem que elas aparecem lá todos os dias e tem as marcas dos pés bem marcadas pelo calhau acima.

TODOS           (Riem às gargalhadas.)

ALÍPIO           - Olha o medroso! Haviam era comer-te. Ó pai ele com as vacas passa e não tem medo. Sem as vacas é que tem medo…

ÁLVARO        - Eu com as vacas não tenho medo por causa das campainhas. As Feiticeiras ouvindo as campainhas das vacas fogem logo. Quando não ouvem barulho é que aparecem…

TODOS           (Dão  uma gargalhada.)

JUSTINO        E pai acredita nisso?

PAI                  - Olha que já me vieram dizer que deitas paredes abaixo, que abres portais e não os tapas e que atiras pedras às ovelhas do Delfim. Isso não pode continuar assim…

ÁLVARO        Ó pai, não atirei pedras às ovelhas do Delfim, foi só ao carneiro. Ele assim que me vê vem pendurar-se ao portal do curral e começa a dar marradas nas vacas. - (Sentando-se à mesa e pegando numa fatia de pão, queixa-se.) – Não deixaram queijo nenhum para mim. (Para o Justino) – Foste tu que o comeste todo. És um grande lambão!

JUSTINO        (Ameaçando-o) – Olha que levas… Só comi o meu bocado. E era bem pequeno…

AMÉLIA         - Come o pão e é se queres. Vou já arrumar a mesa.

ALÍPIO           - Para quem não trabalha, pão sem nada já é bem bom.

ÁLVARO        - É, mas se eu não fosse levar as vacas do primo Luís ele não vos cortava o cabelo de graça…

PAI                  - Basta! Calem-se e deixem-no comer. Ele bem precisa. Eu vou agora a Ponta Delgada e ele vai comigo.

ÁLVARO        (Saltando da mesa muito contente.) – Ui! Já não tenho fome! Já não quero comer! – (Cantarolando) – Vou com pai a Pon-ta Del-ga-da.! Zica-zica… Vou com pai para Ponta Delgada e vocês não vão-ão-ão.

JUSTINO E ALÍPIO   - Oh pai e nós!? Nunca nos leva a lado nenhum… E ele ainda faz pouco de nós.

JUSTINO        - Quando pai foi comprar o bácoro ao Lajedo, foi ele que foi consigo.

ALÍPIO           - Quando foi levar o Boi Lavrado aos Terreiros para o embarcar, também foi ele que foi.

AMÉLIA         - A cunhada de tio Onofre pediu a pai para um de nós ir com ela à Caldeira e foi ele que pai deixou ir.

PAI                  - Então vocês não entendem que ele é o mais novo e se fica em casa não faz nada e eu não quero atravessar os matos da ilha de noite, sozinho.

AMÉLIA         - Pai mas já é tão tarde! Como é que pode ir e vir hoje? Não é possível! Vá antes amanhã…

PAI                  - Está aí um barco de Ponta Delgada, o S. Pedro, de Mestre Gregório. Ele leva-nos para lá. Para cá vimos a pé.

JUSTINO        - E o que é que pai vai fazer a Ponta Delgada, com este badameco?

PAI                  (Para o Justino e a Amélia) – Vocês não se lembram porque eram muito pequenos, - (para o Alípio e para o Álvaro) – e vocês ainda nem tinham nascido, mas quando, há anos, eu vim da Terceira de me operar ao estômago, o nosso conhecido de Ponta Delgada, o mestre António Algarvio, veio de propósito aqui à Fajã para me ver. Por mais que eu viva nunca me hei-de esquecer. E, além disso, devo-lhe muitos favores. Agora, infelizmente, aconteceu-lhe o mesmo. Ele chegou da Terceira, de se operar, no último Carvalho, por isso tenho que lhe ir fazer uma visita e ver como ele está.

JUSTINO        - Mas mãe morreu e ele nunca veio ver pai. E os nossos outros conhecidos vieram quase todos, até os das Lajes.

PAI                  - Ele não veio porque não podia. Nessa altura já estava muito doente.

AMÉLIA         - Favor que lhe façam meu pai não se há-de esquecer de pagar. Mas já é tão tarde, mesmo de barco, vão chegar a casa muito tarde e o Álvaro não aguenta a viagem de noite.

ÁLVARO        - Olha! Fala por ti! Aguento, aguento. Vou levar os sapatos da missa. Nem os estrago, vamos de barco…

AMÉLIA         - Era o que faltava levares os sapatos bons. Leva os outros, os de pele-de-cabra, que te comprei na loja da senhora Glória, que ainda estão bem bons e estão quase a deixar de te servir.

ÁLVARO        - Não levo, não senhooooor. Eles já estão todos rotos e estragados e os monços vendo-me com eles começam a chamar-me “chinelinha”. Levo é os do domingo e pronto. E levo a roupa da missa: as calças castanhas e a camisa cor-de-rosa que o luto por mãe já acabou.

JUSTINO        - Vais passear e ainda queres ir de roupa boa. Olha p’ra ele.

AMÉLIA         - Levas a roupa da escola e os sapatos de pele de cabra ou então vais com essa e descalço. E acabou-se.

ÁLVARO        (Batendo o pé no chão) – Não! E não e não!

PAI                  - Álvaro! Faz o que tua irmã manda. Vai te vestir que o barco deve estar quase a partir.

ÁLVARO        (Sai a correr. Volta a trás e pergunta ao pai) – O S. Pedro está no Porto Velho ou no Cais?

PAI                  - No Cais. – (Para o Justino e para o Alípio) – Ainda é cedo. Vocês vão Pocestinho. As últimas belgas têm muita lenha e já há pouca em casa. Tragam cada um o seu molho. Quando chegarem tirem o leite às vacas. E tu, Alípio vais levá-las. Elas hoje vão para a relva da Pedra d’Água. Vem pela Bandeja e traz um molho de incensos, para o gueixo que está à engorda, comer de noite. E tu Justino tiras o esterco do palheiro das vacas e despejas a poça que já está muito cheia. Deita-a no canteiro da batata-doce. E tu Amélia vais à Máquina levar o leite. Mas tira dois ou três litros para fazeres o queijo e como vai sobrar pouco, deita o desnatado ao porco. Ah! E não te preocupes se demorarmos. Eu com o pequeno não posso andar muito. - (Ouve-se o chorar do irmão mais novo) – Olha o Luís acordou. Toma conta dele e dos outros.

 

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PARTE II - I ATO CENA 3

Domingo, 05.03.17

Batem à porta. Amélia dirige-se para a porta e abre-a. È a Rosa Maiata muito exaltada).

AMÉLIA         - Ah! É a senhora Rosa. Entre, entre.

ROSA M.        (À porta)  - Nem é preciso entrar que não tenho tempo. Teu pai está? Não me vou demorar. É só uma palavrinha com ele.

PAI                  - Estou sim Rosa, entra. Que me queres?

ROSA M.        (Continuando à porta) – Antonho, passaste há pouco tempo na minha do Pico? Junto à ramada das Faias do Norte tinha um eito com uma grandeza de morangos. Não sei se chegaste a vê-los? Era uma lindeza! Sabes o que aconteceu?

PAI                  - Não sei. Nem percebo o que tenho a ver com isso.

ROSA M.        (Mais exaltada) – Ai não tens, não! Vamos ver, vamos ver! Pois olha, foi a Maria Fangueiro que me veio contar tim-tim-por-tim, que o teu Álvaro vinha com a ovelha do Canto do Areal. A maldita fugiu-lhe, foi para cima dos morangos e deu-me cabo deles todos. E agora? Quem mos paga? E tu dizes que não tens nada a ver com isto!

AMÉLIA         - A sra Rosa sabe bem que a Maria Fangueiro é uma grande mexeriqueira e inventa muitas coisas…

PAI                  - Rosa. Viste alguma coisa? Viste alguém meu lá? Não viste, pois não? Então não podes acreditar no que se diz. Diz-se tanta mentira nesta freguesia…

ROSA M.        - Ah! É assim. Pois vou fazer queixa ao regedor.

PAI                  - Vai-te queixar ao diabo-que-te-carregue. (Levanta-se e fecha a porta)

                        Sentam-se à mesa, comendo pão e queijo.

AMÉLIA         - Está vendo pai? É preciso por cobro nisto. A Maria Fangueiro inventa muita coisa, mas esta da ovelha fugir para cima dos morangueiros…

PAI                  - Tenho que falar com ele. É melhor a ovelha passar a andar amarrada.

ALÍPIO           - Ó pai, não adianta nada! Ele é um caganita! Não a aguenta!

AMÉLIA         - Pai! Olhe que não há mais queijo. - (Para o Justino) – Justino não sabes que esse bocado maior é para pai. – (Para o Pai) – Logo à noite posso tirar dois ou três litros do que vai para a Máquina para fazer um queijo?

PAI                  - Este mês já se tem tirado muito… Mas olha, como já estão há três meses sem pagar, o melhor é ficar com ele em casa para bebermos e fazer queijo.

JUSTINO        - O melhor era deixar a Cooperativa e mudarmos para a Máquina de Cima. O Martins & Rebelo paga todos os meses e paga mais cinco centavos por litro do que a Máquina de Baixo. Muitos já se passaram para a de Cima

PAI                  - Isso é que nunca!... Sempre estive na Cooperativa e dela nunca hei-de sair. O Martins & Rebelo o que quer é destruir a Cooperativa. Paga mais agora e depois quando a Cooperativa acabar vai pagar o leite ao preço que quiser. Os que mudam estão a vender-se, estão a destruir a Cooperativa por cinco ou dez centavos. E o trabalho e sacrifício que foi para a criar!... Eu fui um dos fundadores e de lá nunca hei-de sair. Para esse ladrão do Martins & Rebelo é que nunca vou. Prefiro dar o leite inteiro aos bezerros e ao porco.

AMÉLIA         - Pai! Não diga isso! Sei que não gosta do Martins e Rebelo. Mas…É melhor então fazer queijos e até podemos vender alguns.

 

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PARTE II - I ATO CENA 2

Sábado, 04.03.17

                        Entram o Justino e o Alípio. Vêm cansados, trazem foices aos ombros.

ALÍPIO           - Pai, a Cabaceira ficou pronta, os feitos estão todos cortados.

PAI                 - E também ceifaram a cana roca da belga do lado do Caminho Velho como vos mandei?

JUSTINO        - Também ficou toda cortada. Ficou tudo pronto como pai mandou. E ainda cortámos umas faeiras que estavam lá muito bastas, por entre os inhames… p’ra lenha.

PAI                 - E separaram a cana roca dos feitos? È que o outro dia, na Cancelinha, vocês misturaram tudo e depois foi o cabo dos trabalhos… Não viram o vosso irmão?

JUSTINO        (Admirado) – Ele ainda não chegou do Outeiro Grande, de levar as vacas do Luís?

ALÍPIO           - Claro que não chegou. Estás a vê-lo? Ele vai e vem é a brincar. Agora tem a mania de levar uma aguilhada. -  (Tira um bocado de pão de cima da mesa).

AMÉLIA         (Batendo-lhe na mão) – Está quieto! Tens mais pressa do que os outros?

ALÍPIO           (Para a Amélia) – Não mandas em mim! – (Para todos e comendo pão) - O José Coutinho contou-me que o viu o outro dia: quando vem a descer o Covão, faz de conta que vem a tocar a Moirata e o Damasco, encangados, puxando um carro de incensos. Depois, de vez em quando para e põe-se de cócoras, a fazer de conta que está apertar ou alargar, os parafusos dos queicões. Parece um toleirão!

JUSTINO        - É mesmo tolo! Precisava era duns toitições bem dados. Quando não vai ao Outeiro Grande é só brincar: é com a ovelha, é com vacas de madeira, é de baixo do estaleiro a fazer que está a lavrar…. Passa a vida a brincar e nós…

AMÉLIA         - E está sempre a fugir para ir brincar com os amigos à pesca da baleia, ao pai-velho e sei lá o quê… O que sei é que nunca pára em casa…

PAI                  - Ele ainda é uma criança. É muito mais novo do que vocês.

JUSTINO        -É muito novo mas já anda a fazer das suas… O Paulino já me disse que ele lhe abriu o portal da relva da Ladeira, para passar com a ovelha e depois pôs-se a andar e não o tapou.

ALÍPIO           - E o Delfim diz que ele lhe atira pedras às ovelhas. E elas têm crias…

AMÉLIA         -E demora uma manhã para ir levar as vacas e uma tarde para as ir buscar. E eu é que tenho que ir buscar a água à fonte, acartar lenha e deitar comida às galinhas… Fazer tudo…

JUSTINO        - Ele podia bem pegar numa foice e ir connosco… Podia ir ajudar-nos a ceifar feitos. Ou pelo menos ir atrás de nós fazendo as mancheias. A gente a ceifar e ele a fazer as mancheias era muito mais rápido.

ALÍPIO           - E podia andar mais depressa… Meia hora dá para ir e vir ao Outeiro Grande…

JUSTINO        - E o primo Luís diz que ele sobe o Covão agarrado ao rabo das vacas e a bater-lhes desalmadamente.

ALÍPIO           - Elas andam que se fartam. Não há vacas na Fajã que subam o Covão tão depressa como as do primo Luís e foi ele que as pôs assim. E a Trigueira deu leite há bem pouco tempo.

AMÉLIA         - Pai tem que por cobro nisto!... Venham para a mesa que o pão e o queijo já estão partidos. Não vale a pena esperar por ele. Quem não está não come.

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PARTE II – I ATO CENA 1

Sexta-feira, 03.03.17

I ATO

 

Uma cozinha rural açoriana dos anos 50, grande, velha e escura. No centro uma mesa grande com alguns bancos à volta. Sobre a mesa pão de milho e um bocado de queijo. Pendente numa trave uma pequena candeia apagada. No lar panelas velhas e tisnadas, achas de lenha e “garranhos” para acender o lume. No chão um caixote que serve de parque a um bebé, o balde do porco e um gato.

 

CENA 1

 

AMÉLIA        (Varrendo a cozinha e cantarolando)

No alto daquela serra, no alto daquela serra,

Está um lenço, está um lenço a abanar.

Está dizendo:”Viva! Viva!” Está dizendo:”Viva! Viva!”

A quem o queira apanhar, a quem o queira apanhar.

No alto daquela serra, no alto daquela serra,

Está um lenço, está um lenço a abanar.

Está dizendo:”Morra! Morra!” Está dizendo:”Morra! Morra!”

Morra quem não o souber apanhar… (Interrompe com a entrada do pai).

PAI                 (Entrando) – Amélia, viste o Álvaro? Sabes para onde está?

AMÉLIA        - Então meu pai não sabe?! É a mesma coisa todos os dias… Vai levar as vacas do primo Luís ao Outeiro Grande e fica por lá a manhã toda… Meu pai é que fez essas combinações...

PAI                 - Qual combinações, qual carapuça! Não sabes a nossa vida, filha? Como é que eu posso pagar ao Luís para cortar o cabelo a teus irmãos e a mim? Sabes muito bem que o dinheiro que ia gastar por mês para cortar o cabelo a todos dá p’ro sabão, p’ro petróleo e, uma vez por outra, comprar um bocadinho de açúcar. E nem fui eu que pedi ao primo Luís… Foi ele que me fez a proposta: se um dos pequenos lhe fosse levar as vacas todos os dias, ele cortava-nos o cabelo de graça e ainda nos soldava as latas do leite quando rompessem. Não achas um bom negócio? É claro que não ia deixar ir o Justino ou o Alípio, que me ajudam muito nas terras e me iam fazer muita falta. Ainda por cima o Justino tem que ir para a escola… Só podia ser o Álvaro. Só que aquele destróia leva horas para lá ir e vir… E eu aqui feito parvo à espera do sarigaito! E eu bem que precisava dele…

AMÉLIA        (Continuando a varrer) - Meu pai é que tem a culpa toda. Deixa-o fazer tudo o que ele quer e não lhe diz nada. Eu bem precisava dele para me acartar água, deitar comida às galinhas e tomar conta do Luís, quando ele vem para cá. Só que ele demora horas! E quando não vai ao Outeiro Grande é só brincar com a ovelha… E não sei se meu pai sabe, - (parando e dirigindo-se convicta pata o pai) - o pior são as queixas que têm vindo fazer dele: a Júlia Beliza já me veio dizer que qualquer dia vem falar com pai porque ele lhe deita as paredes abaixo e ainda o pior é que a Elisa Garcia já foi fazer queixa a avó porque ele entrou na quinta dela para apanhar maçãs. (Continuando a varrer) - E olhe que já o vi chegar a casa com maçãs nas algibeiras das calças e nas mangas da froca… E o atrevido não me diz onde as apanhou. Eu bem aperto com ele e o belisco…  Mas ele… nada.

PAI                 (Sentando-se à mesa) - Também há pessoas que se queixam por tudo e por nada… Tenho que o repreender, mas não vai ser hoje. Preciso é que ele vá comigo a Ponta Delgada, esta tarde.

AMÉLIA        - O quê!? A Ponta Delgada!? (Arrumando a vassoura.) - Meu pai não está bom do juízo! Vai para Ponta Delgada a estas horas? Com o Álvaro?

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PARTE I - INTRODUÇÃO - JOGRAIS

Quinta-feira, 02.03.17

TODOS - Era uma vez uma ilha pequenina e distante mas coberta de bruma e de flores.

1.os SEIS – Onde as ribeiras corriam transparentes e cristalinas.

2.os SEIS – Com montes cobertos de árvores frondosas.

3.os SEIS – E em cujos ramos cresciam frutos apetitosos.

4.os SEIS – Uma ilha que o mar acariciava suavemente.

TODOS - Era uma ilha pequenina e distante mas coberta de bruma e de flores.

1ª METADE – Onde as manhãs nasciam claras mas repletas de incertezas.

2ª METADE – Onde, à tarde, o sol se tornava amarelado e pardacento.

1º VOZ – Uma ilha…

2ª VOZ – Onde o mar desafiava a esperança,

3ª VOZ – E a tempestade era maior do que a bonança.

TODOS – Era uma ilha pequenina e distante mas coberta de bruma e de flores.

4ª VOZ – Onde, no Inverno,

5ª VOZ - O vento, misturado com relâmpagos e trovões,

6ª VOZ – Rugia ferozmente

7ª VOZ - E cobria a ilha de tempestades rigorosas.

TODOS – E a ilha pequenina e distante mas coberta de bruma e de flores

1.os SEIS – Tornava-se mais pardacenta e escura.

2.os SEIS – O medo apoderava-se de todos.

3.os SEIS – Mas no verão…

8ª VOZ – O vento vestia-se de púrpura

9ª VOZ – E soprava levemente,

10ª VOZ - Embalando uma brisa doce e suave.

TODOS - E a ilha pequenina, distante mas coberta de bruma e de flores

4.os SEIS - Vestia-se de claridade e de esperança.

1.os SEIS – O sol

11ª VOZ – Descia levemente sobre os casebres

1ª METADE – E pintava os campos de um verde amarelado e fulvo.

2ª METADE – E amadurecia os milhos semeados nas belgas mais soalheiras e nos campos mais férteis.

TODOS - Na ilha pequenina e distante mas coberta de bruma e de flores.

1ª METADE – À noitinha,

12ª VOZ – Nas torres das igrejas,

13ª VOZ – Ouvia-se o toque suave das trindades.

2.os SEIS – Os homens com as mãos calejadas e os ombros doloridos

14ª VOZ – Regressavam dos matos carregados com latas de leite,

15ª VOZ – Suspensas em troncos de araçá,

16ª VOZ - Tapadas com ramos de queirós,

17ª VOZ - Tiravam, solenemente, o boné

18ª VOZ - E simulavam uma pequena oração.

3.os SEIS – As mulheres, robustas e mal vestidas,

19ª VOZ - Recolhiam a casa, com molhos de lenha ou de couves à cabeça,

20ª VOZ - Acompanhadas de garotos descalços.

21ª VOZ - Com monco a escorrer-lhes pelo nariz,

22ª VOZ -Agarrados aos saiotes das mães.

4.os SEIS – As velhinhas vestidas de negro e lenço a tapar-lhe a cara,

23ª VOZ - Sentadas às janelas de suas casas,

24ª VOZ -Esbagoavam as contas do rosário, bichanando imperceptíveis ave-marias.

TODOS - (forte) Na ilha pequenina, distante mas coberta de bruma e de flores.

TODOS - (suave) Na ilha pequenina, distante mas coberta de bruma e de flores.

TODOS - (murmurando) Na ilha pequenina, distante mas coberta de bruma e de flores.

 

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NOTURNO – SINTESE E PERSONAGENS

Quarta-feira, 01.03.17

SÍNTESE – Noturno é uma pequena peça de teatro em 7 atos. Na década de 50 uma criança nascida e criada na Fajã Grande nunca saiu da sua freguesia. O sonho de realizar a sua primeira viagem concretiza-se quando o pai, numa tarde de agosto, decide levá-la consigo numa ida a Ponta Delgada. A viagem, apesar de deslumbrante para o pequeno Álvaro, torna-se bastante atribulada.

 

PERSONAGENS:

 

Jograis (Introdução) 24 crianças.

 

Família e amigos de Álvaro:

ÁLVARO

AMÉLIA – Irmã mais velha.

PAI

JUSTINO – Irmão mais velho.

ALÍPIO – Irmão.

AVÓ

JOANA – tia.

GRAÇA – tia.

LUZIA – tia.

ROSA MAIATA – mulher queixosa.

CÂNCIO – Amigo (Mestre do bote da baleia).

JÚLIO – Amigo (Marinheiro – segura o bote).

GREVES – Amigo (Trancador de baleias).

RODRIGUES – Amigo (vigia e baleia).

 

Companha do S. Pedro:

MESTRE GREGÓRIO - mestre do barco.

JACINTO – marinheiro responsável pelas amarras e apoitas.

MULATO – maquinista.

JOÃO DO ALTO – marinheiro novato.

MANUEL DA ANA – marinheiro responsável pelo içar a vela.

 

 Família de António Algarvio e mendiga:

ANTÓNIO ALGARVIO – imigrante do Continente.

D. JOSEFA – ex-cunhada e atual companheira.

MUDA – surda-muda, de seu nome Guilhermina, espécie de empregada, criada pelos pais de D. Josefa.

CHORA SOPAS – mendiga.

 

Família Esteves e vizinhos:

JESUÍNO ESTEVES – pai, moribundo.

ISABELINHA – esposa.

CELESTINA – filha.

RICARDINA – filha.

CIZALTINA – filha.

TADEU – cunhado.

LISANDRA – vizinha.

GENOVEVA – vizinha.

MARIA DA LEVADA – vizinha.

DALMIRO – marido da Maria da Levada.

 

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FEVEREIRO EM ADÁGIOS

Terça-feira, 28.02.17

A castanha e o besugo, em fevereiro não têm sumo.

A doçura de fevereiro faz o dono cavalheiro.

A dois dias de fevereiro, sobe ao outeiro: se a candelária chorar, está o inverno a chegar; se a candelária sorrir, está o Inverno para vir.

Ao fevereiro e ao rapaz perdoa tudo quanto faz, se fevereiro não for secalhão e o rapaz não for ladrão.

A neve que em fevereiro cai das serras, poupa um carro de estrume às vossas terras.

Água de fevereiro enche o celeiro.

Aí vem o meu irmão março, que fará o que eu não faço.

Ao fevereiro e ao rapaz, perdoa tudo quanto faz.

Aproveite em fevereiro quem folgou em janei

Aveia de fevereiro enche o celeiro

Bons dias em janeiro enganam o homem em fevereiro.

Bons dias em janeiro vêm a pagar em fevereiro.

Candelária chovida, à candeia dá vida.

Chuva de fevereiro mata o onzeneiro.

Chuva de fevereiro vale por estrume.

Chuva em Dia das Candeias ano de ribeiras cheias.

Dia de S. Brás a cegonha verás, e se não a vires o inverno vem atrás.

Em dia de S. Matias começam as enxertias.

Em fevereiro chuva, em agosto uva.

Em fevereiro neve e frio, é de esperar ardor no estio.

Em fevereiro, chega-te ao lameiro

Em fevereiro, ergue-se o centeio, a aveia enche o celeiro e a perdiz afaz-se ao poleiro.

Em fevereiro, mete obreiro; pão te comerá, mas obra te fará.

Fevereiro chuvoso faz o ano formoso.

Fevereiro coxo, em seus dias vinte e oito.

Fevereiro é dia, e logo é Santa Luzia.

Fevereiro engana as velhas ao soalheiro.

Fevereiro enganou a mãe ao soalheiro.

Fevereiro enxuto, rói mais pão do que quantos ratos há no mundo.

Fevereiro leva a ovelha e o carneiro.

Fevereiro o mais curto mês e o menos cortês.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Fevereiro quente, não o vejas tu nem o teu parente.

Fevereiro recouveiro, afaz a perdiz ao poleiro.

Fevereiro seca as fontes ou leva as pontes.

Fevereiro trocou dois dias por uma tigela de papas.

Janeiro geoso e fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.

Neve de fevereiro, presságio de mau celeir

O primeiro de fevereiro jejuarás, o segundo guardarás e o terceiro é dia de S. Brás; semeia o cebolinho e te-lo-ás.

O tempo de fevereiro enganou a mãe ao soalheiro.

Para parte de fevereiro, guarda lenha de Quinteiro.

Pelo S. Matias noites iguais aos dias.

Quando a Candelária chorar, o inverno está a passar. Quando a Candelária rir, o inverno está para vir.

Quando não chove em Fevereiro, nem bom prado nem bom palheiro.

Quando não chove em Fevereiro, nem prados nem centeio.

Tanta chuva pelas candeias tantas abelhas para as colmeias.

Tantos dias de geada terá maio, quantos de nevoeiro teve fevereiro.

Vai-te embora fevereiro que não me deixaste nenhum cordeiro.

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FILHOSES

Segunda-feira, 27.02.17

Um dos doces que nunca faltava em todas as casas da Fajã Grande, nos dias de Carnaval eram as filhoses. Tratava-se de um doce tipicamente açoriano que tinha como base uma versão da massa sovada mas com um tratamento final muito diferente. A massa sovada, tradicional nas festas do Espirito Santo e nas bodas dos casamentos era cozida no forno sobre a forma de pão, no primeiro caso e de rosquilhas no segundo enquanto as filhoses típicas dos dias de Entrudo eram fritas sobre a forma de pequenos pedaços retirados da massa e fritos de depois de esticados e moldados com as mãos.

Não se sabe bem a origem destas filhoses comuns a todas as ilhas e chamadas malassadas em São Miguel, mas as ilhas açorianas, apesar de distantes do continente português não apenas pelo espaço mas também pela cultura e pelas tradições receberam muita influência destes através dos primeiros povoadores. É verdade que no território continental não é costume celebrar-se o Carnaval com filoses, sendo estas tradicionais por altura do Natal.

As filhoses, na Fajã Grande eram feitas com farinha e fermento retirado do que se guardava da última fornada do pão de trigo. Feito o fermento inicial era-lhe juntado a farinha, os ovos, água, leite, manteiga, açúcar e muita raspa de limão. Tudo isto era amassado de seguida. A mulher a quem competia esta tarefa colocava um lenço de calafate, arregaçava as mangas e depois de misturar muito bem todos os elementos amassava-os aos murros como de massa sovada se tratasse. O alguidar onde amassa fora amassada era colocado em lugar quente e coberto com cobertores ou xailes a fim de que a massa levantasse muito bem. Só depois eram arrancados pequenos pedaços, esticados e moldados com as mãos que eram postos a fritar em banha de porco bem quente. Uma vez retiradas do lume as fihloses eram polvilhadas de ambos os lados com uma mistura de açúcar e canela. Eram excelentes e comiam-se devidamente racionadas nos quatro dias de folia carnavalesca, porque na quarta-feira de cinzas já era pecado comê-las não apenas porque era dia de jejum mas também porque tinham sido fritas em graxa de porco.

Na verdade, na Fajã Grande, na década de cinquenta do século passado, não havia Entrudo sem filhoses, sem batalhas de água, sem mascarados e sem danças que eram ensaiadas nas noites anteriores. As danças tinham sempre o velho e a velha, mascarados, a fazerem palhaçadas, a meter medo às crianças e a pedinchar filhoses pelas portas das casas por onde passavam.

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A BATALHA DA ILHA DAS FLORES E A BALLAD OF THE FLEET DE ALFREF TENNYSON

Domingo, 26.02.17

A mais ocidental e isolada ilha açoriana foi palco de uma celebérrima batalha que ficou conhecida na história dos Açores como a Batalha da Ilha das Flores

No prélio que ocorreu no dia 9 de Setembro de 1591, a norte de Ponta Delgada, foram intervenientes entre 16 a 22 navios ingleses comandados por lord Tomas Howard e um bem mais poderosa armada espanhola, comandada por Dom Alonso de Bazán, de vigia nos Açores para defender os navios mercantes da carreira da Índia. Pelos vistos houve um erro do comandante inglês que se lançou, precipitadamente, contra os barcos que surgiam de oeste, julgando pertencerem à armada espanhola provinda da Nova Espanha, carregada de mercadorias. Porém, em vez de encontrarem navios mercantes, mal armados, os ingleses depararam-se com uma poderosíssima frota de defesa das ilhas açorianas, constituída por 40 navios de guerra que lhes vinham dar caça. Consideravelmente mais pequena e sobretudo mais frágil, a armada inglesa, duramente fustigada pelo fogo inimigo, foi então obrigada a fugir como pôde. Os ingleses, ao aperceberem-se do erro rumaram a Ponta Delgada procurando posição estratégica. Os espanhóis, no entanto, terão sido mais astutos e rumando a oeste, contornaram a ilha e entraram em Ponta Delgada como se viessem do ocidente, de onde os ingleses não os esperavam, simulando serem uma armada mercante. Os ingleses caíram no logro e precipitaram-se sobre os espanhóis. Foi o descalabro total da armada inglesa. A exceção foi o Revenge, de sir Richard Greenville, que, tendo-se demorado em zarpar de Santa Cruz, não acompanhou as restantes embarcações, acabando porém por ser capturado pelos espanhóis, algum tempo depois. Verdadeiramente épico, esse combate, que custou a vida a sir Richard Greenville, seria depois glorificado por lord Alfred Tennyson no seu poema The Revenge Ballad of the Fleet que se transcreve na íntegra:

 

BALLAD OF THE FLEET

 

AT Flores, in the Azores Sir Richard Grenville lay,           

And a pinnace, like a flutter’d bird, came flying from far away;   

“Spanish ships of war at sea! we have sighted fifty-three!”          

Then sware Lord Thomas Howard: “’Fore God I am no coward; 

But I cannot meet them here, for my ships are out of gear,        

And the half my men are sick. I must fly, but follow quick.

We are six ships of the line; can we fight with fifty-three?”         

 

II

 

Then spake Sir Richard Grenville: “I know you are no coward;   

You fly them for a moment to fight with them again.          

But I’ve ninety men and more that are lying sick ashore.          

I should count myself the coward if I left them, my Lord Howard,

To these Inquisition dogs and the devildoms of Spain.”    

 

III

 

So Lord Howard past away with five ships of war that day,          

Till he melted like a cloud in the silent summer heaven;   

But Sir Richard bore in hand all his sick men from the land

Very carefully and slow,       

Men of Bideford in Devon,   

And we laid them on the ballast down below:         

For we brought them all aboard,     

And they blest him in their pain, that they were not left to Spain,        

To the thumb-screw and the stake, for the glory of the Lord.        

 

IV

 

He had only a hundred seamen to work the ship and to fight,       

And he sailed away from Flores till the Spaniard came in sight,  

With his huge sea-castles heaving upon the weather bow. 

“Shall we fight or shall we fly?               

Good Sir Richard, tell us now,         

For to fight is but to die!      

There’ll be little of us left by the time this sun be set.”     

And Sir Richard said again: “We be all good Englishmen.

Let us bang these dogs of Seville, the children of the devil,                  

For I never turn’d my back upon Don or devil yet.”          

 

V

 

Sir Richard spoke and he laugh’d, and we roar’d a hurrah and so           

The little Revenge ran on sheer into the heart of the foe,  

With her hundred fighters on deck, and her ninety sick below;     

For half of their fleet to the right and half to the left were seen,          

And the little Revenge ran on thro’ the long sea-lane between.    

 

VI

 

Thousands of their soldiers look’d down from their decks and laugh’d,   

Thousands of their seamen made mock at the mad little craft       

Running on and on, till delay’d       

By their mountain-like San Philip that, of fifteen hundred tons,           

And up-shadowing high above us with her yawning tiers of guns,

Took the breath from our sails, and we stay’d.       

 

VII

 

And while now the great San Philip hung above us like a cloud    

Whence the thunderbolt will fall     

Long and loud,                  

Four galleons drew away     

From the Spanish fleet that day.      

And two upon the larboard and two upon the starboard lay,         

And the battle-thunder broke from them all.           

 

VIII

 

But anon the great San Philip, she bethought herself and went,           

Having that within her womb that had left her ill content;

And the rest they came aboard us, and they fought us hand to hand,        

For a dozen times they came with their pikes and musqueteers,    

And a dozen times we shook ’em off as a dog that shakes his ears

When he leaps from the water to the land.         

 

IX

 

And the sun went down, and the stars came out far over the summer sea,

But never a moment ceased the fight of the one and the fifty-three.          

Ship after ship, the whole night long, their high-built galleons came,      

Ship after ship, the whole night long, with her battle-thunder and flame;

Ship after ship, the whole night long, drew back with her dead and her shame.       

For some were sunk and many were shatter’d and so could fight us no more—   

God of battles, was ever a battle like this in the world before?     

 

X

 

For he said, “Fight on! fight on!”   

Tho’ his vessel was all but a wreck;

And it chanced that, when half of the short summer night was gone,               

With a grisly wound to be drest he had left the deck,         

But a bullet struck him that was dressing it suddenly dead,          

And himself he was wounded again in the side and the head,        

And he said, “Fight on! fight on!”  

 

XI

 

And the night went down, and the sun smiled out far over the summer sea,                  70

And the Spanish fleet with broken sides lay round us all in a ring;          

But they dared not touch us again, for they fear’d that we still could sting,        

So they watch’d what the end would be.      

And we had not fought them in vain,

But in perilous plight were we,                

Seeing forty of our poor hundred were slain,         

And half of the rest of us maim’d for life    

In the crash of the cannonades and the desperate strife;   

And the sick men down in the hold were most of them stark and cold,      

And the pikes were all broken or bent, and the powder was all of it spent;                 

And the masts and the rigging were lying over the side;    

But Sir Richard cried in his English pride: 

“We have fought such a fight for a day and a night

As may never be fought again!         

We have won great glory, my men!         

And a day less or more         

At sea or ashore,       

We die—does it matter when?         

Sink me the ship, Master Gunner—sink her, split her in twain!    

Fall into the hands of God, not into the hands of Spain!”        

 

XII

 

And the gunner said, “Ay, ay,” but the seamen made reply:          

“We have children, we have wives, 

And the Lord hath spared our lives.

We will make the Spaniard promise, if we yield, to let us go;       

We shall live to fight again and to strike another blow.”         

And the lion there lay dying, and they yielded to the foe.  

 

XIII

 

And the stately Spanish men to their flagship bore him then,        

Where they laid him by the mast, old Sir Richard caught at last,  

And they praised him to his face with their courtly foreign grace;

But he rose upon their decks, and he cried:        

“I have fought for Queen and Faith like a valiant man and true; 

I have only done my duty as a man is bound to do. 

With a joyful spirit I Sir Richard Grenville die!”  

And he fell upon their decks, and he died.   

 

XIV

 

And they stared at the dead that had been so valiant and true,            

And had holden the power and glory of Spain so cheap     

That he dared her with one little ship and his English few;           

Was he devil or man? He was devil for aught they knew,  

But they sank his body with honor down into the deep.      

And they mann’d the Revenge with a swarthier alien crew,                  

And away she sail’d with her loss and long’d for her own;

When a wind from the lands they had ruin’d awoke from sleep,    

And the water began to heave and the weather to moan,   

And or ever that evening ended a great gale blew, 

And a wave like the wave that is raised by an earthquake grew,          

Till it smote on their hulls and their sails and their masts and their flags,          

And the whole sea plunged and fell on the shot-shatter’d navy of Spain, 

And the little Revenge herself went down by the island crags       

To be lost evermore in the main.      

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AS COVAS

Sábado, 25.02.17

Situado lá para os lados da Ponta, o lugar das Covas era um dos mais diversificados da Fajã Grande, porquanto nele existiam os quase todos os tipos de propriedade em que o amplo terreno da Fajã Grande, no século passado, estava coberto ou subdividido. De facto nas Covas existiam terras de mato, terras da rocha, pastagens e uma ou outra terra de cultivo, estas paredes meias com a Ribeira das Casas e com o Vale do Linho. Só faltavam as relvas do mato mas, em contrapartida as Covas possuía as tradicionais lagoas. As lagoas eram relvas que ou tinham uma ou mais nascentes de água ou beneficiavam de regos através dos quais captavam a água das lagoas vizinhas ou de alguma ribeira ou grota que por ali passasse. Num e noutro caso a água espalhava-se por todo o terreno, tornando-o um autêntico pântano que proporcionava condições ideais para que a erva crescesse fresca e tenrinha, geralmente misturada com inhames e com agriões, uns e outros de muito boa qualidade. Devido às condições pantanosas do terreno e à sua especificidade esta erva não podia em nenhum caso ser pastada pelos bovinos, antes teria que ser ceifada com foice de mão e trazida para as manjedouras. Para além das Covas, na Fajã Grande, antigamente, existiam lagoas nas Ribeira das Casas, nas Águas, na Ribeira, na Figueira, na Silveirinha, nos Paus Brancos, no Curralinho e na Alagoinha. Mas de todas, as das Covas eram as mais emblemáticas e nelas, para além da erva fresquinha, floresciam agriões e inhames, uns e outros utilizados na alimentação dos humanos. Outra especificidade das Covas era o facto de grande parte da sua área ocupar uma parte da rocha, até ao cimo, prolongando-se quase até às relvas do mato. Tratava-se, no entanto, de uma área quase inculta pelo que grande parte da mesma era terreno de ninguém, uma vez que aí a rocha era muito íngreme e não possuía nenhuma vereda ou caminho de acesso.

A restante parte da área das Covas assemelhava-se a uma enorme ribanceira ali caída há centenas de anos e situava-se em terreno plano, integrando uma pequena parte da ampla fajã desde a Ribeira Grande até ao Risco. Junto à rocha ficavam as terras de mato, pobres e perigosas, onde floresciam apenas incensos e faias. O chão era pejado de fetos, cana roca e erva-santa. Não existiam árvores de fruto, pelo que dali se extraía apenas lenha e comida para o gado. Os fetos eram ceifados e postos a secar a fim de serem utilizados como cama para o gado nos palheiros. A cana roca, dadas as dificuldades em carreá-la era cortada e ficava por ali a apodrecer, sem utilidade nenhuma. Mais afastadas da rocha ficavam as relvas e as lagoas, umas e outras de muito boa qualidade, com destaque para os inhames que eram excelentes. Já próximo dos lugares com que fazia fronteira havia uma ou outra terra de cultivo onde se produzia, sobretudo, milho e couves.

As Covas configurava a Norte com o lugar do Vime e com a Rocha do mesmo nome, a oeste com o Vale do Linho e o Rego do Burro, a sul com a Ribeira das Casas, enquanto a leste era protegido pela rocha, até lá ao alto onde existiam as relvas da Caldeirinha e do Bracéu. O lugar era atravessado de sul a norte por um dos mais antigos e importantes caminhos da freguesia que ligava a Fajã à Ponta, sendo quase todo ele no espaço do território das Covas constituído por uma lendária ladeira que descia da Ponta para a Fajã conhecida por Ladeira das Covas. Várias lendas existiam sobre a mesma com destaque para a da Mulher com Pés de Cabra. Foi também naqueles descampados que durante muitos meses se ouviram gritos agonizantes que, até serem desvendados, assustaram muitas pessoas da Fajã e da Ponta que por ali passavam.

O topónimo muito comum nos Açores terá a ver naturalmente com o facto de por ali terem existido algumas covas ou de uma parte da morfologia do terreno formar uma espécie de cova gigante.

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JOANITA

Sexta-feira, 24.02.17

 

O que fazes aí oh António

Encostado à botica

Estou à espera da nossa Ana

E da prima Joanita.

 

Joanita namorada

Fresca e bela como a flor

Olha a sorte venturosa

Joanita meu amor.

 

Eu parti uma laranja

E deitei metade fora

Com a outra fiz um barco

Joanita vamos embora.

           

Joanita namorada

Fresca e bela como a flor

Olha a sorte venturosa

Joanita meu amor.                            

Joanita e António

Estão namorando os dois

Vão-se unir em matrimónio

Serão felizes depois.

 

Joanita namorada

Fresca e bela como a flor

Olha a sorte venturosa

Joanita meu amor.

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