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O DIA DOIS DE NOVEMBRO

Segunda-feira, 02.11.15

Na Fajã Grande havia, durante todo o ano, um enorme respeito, uma espécie de culto e até de devoção, pelas almas dos que haviam falecido. Estes sentimentos acentuavam-se e como que tinham o seu epicentro no dia dois de Novembro, prolongando-se com réplicas diárias ao longo de todo o mês, quiçá de todo o ano. O Dia Dois de Novembro era denominado Dia de Finados ou Dia de Defuntos e era celebrado com alguma tristeza e melancolia, sobretudo por se recordarem, nesse dia de modo muito especial, os familiares e amigos falecidos.

Para além da celebração das três missas oficium defunctorum, uma delas na igreja da Ponta, fazia-se, de manhã cedo, uma romagem ao cemitério, popularmente designada por o Enterro do Velho Laranjinho durante a qual os sinos dobravam a finados. Na véspera os familiares dos falecidos limpavam o cemitério e enfeitavam com ramos de flores as sepulturas, ou os que as tinham, as campas dos familiares. Na visita ao cemitério faziam-se orações gerais, por todos os falecidos, orientadas pelo pároco. Uma vez terminadas estas cada pessoa dirigia-se para junto à sepultura do familiar a fim de, particularmente, lembrá-lo e orar por ele.

Sabe-se que o culto aos mortos é muito antigo e foi sempre comum todas as religiões, a todos os povos e a todas as civilizações, incluindo as mais antigas. Inicialmente era ligado aos cultos agrários e de fertilidade. Na verdade era crença comum à maioria dos povos da antiguidade celebrar com dignidade e simbolismo o enterro dos mortos, pois acreditavam que os mortos haviam de ressuscitar, como as sementes lançadas à terra haviam de nascer. Assim era santo e salutar o pensamento de orar por eles e respeitar a sua memória.

A Igreja Católica e os cristãos também davam grande importância a este dia, fazendo dele, sobretudo um dia de oração pelos falecidos. Assim o Dia de Finados, dois de novembro era uma espécie de vínculo suplementar entre vivos e mortos, mas também um dia de festa porque para os que acreditam em Deus a vida não acaba, apenas se transforma e terminada a vida terrena os fiéis e os crentes aguardam uma morada eterna no Céu. Na década de cinquenta o povo da Fajã Grande vivia toda esta crença com uma enorme intensidade. Os familiares mortos e as benditas almas do Purgatório estavam sempre presentes no seu quotidiano, sobretudo nas suas orações domésticas e nas celebrações litúrgicas, nomeadamente na tradicional Novena das Almas, realizada todos os dias deste mês, à noite, na igreja paroquial. Em outubro era tirada uma derrama de milho pela freguesia. Com o dinheiro resultante da venda desse milho e da arrematação das línguas dos porcos e de outras ofertas eram celebradas missas e rezados responsos por todos os mortos da freguesia, desde o Cimo da Assomada até ao fundo da Via d’Água. Durante o mês de novembro e em muitos outros dias do ano, as pessoas costumavam ir a cemitério, limpar e enfeitar os túmulos dos seus mortos e rezavam por eles, costume que se cuida que existe desde o século I, quando os cristãos já tinham por hábito rezar pelos mortos, visitando os túmulos dos mártires.

 Nalgumas localidades de Portugal, há poucos anos, ainda eram respeitadas crenças muito antigas, como por exemplo: "no dia de Finados não se caçava nem se pescava", especialmente entre as populações do interior do país. As assombrações e cortejos fúnebres, visitas macabras de esqueletos e caveiras também pertencem a esse dia simbólico. Há aldeias onde se acreditava que as almas dos afogados passeavam por cima das águas do mar e dos açudes espalhando pavor. Também se acreditava que neste dia as almas visitavam os lugares onde viveram ou onde foram assassinados seus corpos. Outra tradição portuguesa era comer, neste dia, "Caldo de Castanha". Nalgumas aldeias de Bragança ainda existe o costume de, no dia anterior ou dia dos Santos, em memória dos mortos, comer-se a "machorra" ou "canhona", nomes que se dão às ovelhas que atingiram um ano de idade sem, no entanto, terem tido crias.

 

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