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O DANIEL DE TI BRITSA

Domingo, 22.11.15

O Daniel era considerado um dos mais simpáticos e inteligentes jovens da Fajã Grande na década de cinquenta. Para além de simples, humilde, educado e respeitador era muito trabalhador granjeando o respeito e a consideração de todos.

Filho de Tio Britsa, irmão da minha avó, morava numa das últimas casas da Fontinha, juntamente com os pais e os irmãos. Cedo, porém, como muitos outros jovens do seu tempo e da sua idade, abandonou a freguesia, primeiro por ser chamado para o serviço militar e depois emigrando para o Canadá. Mais tarde regressou de visita, à terra que o vira nascer. Apaixonou-se e casou com a Vitória do Francisco Inácio, uma das meninas mais bonitas da freguesia, também ela muito bondosa, educada, meiga, simpática e trabalhadora, fixando-se definitivamente no Canadá, mais concretamente na cidade de Edmonton, a capital da província de Alberta, onde vive atualmente.

Dele recebi, há dias, um texto intitulado “Recordando o passado da Mãe Terra, Fajã Grande” que aqui reproduzo:

“ Dezanove vezes fui à Terra Natal. Este verão de 2015 realizei mais uma. Tenho a certeza que foi a última. A minha mulher foi menos. Ela lá já não tem familiares. Apenas uma cunhada. O irmão e o sobrinho há muito que partiram. Eu lá ainda tenho vários familiares. Aqui tenho as minhas filhas que já visitaram a Fajã Grande várias vezes. Os netos um dia lá irão. A terra que me viu nascer e crescer é a mesma embora esteja, hoje, com vestes um pouco diferentes.

Oito décadas são passadas desde o dia em que entrei na escola pela primeira vez, juntamente com uma dezena de rapazes. Também eles entravam pela primeira vez. Hoje já lá não vive nenhum. Apenas encontrei um lá a passar férias como eu. Na escola, na altura, éramos mais de quarenta dos quais estarão vivos apenas uns três ou quatro, vivendo noutras partes do mundo. Os outros já partiram. Voltaram à Terra Mãe! A escola feminina, naquele ano teria mais de cinquenta meninas. A maioria destas também já partiram. Talvez estejam vivas meia dúzia. A Mãe Natureza tudo governa. Quando parti da Fajã Grande, em agosto passado, era o homem mais velho que lá estava. Logo a seguir o meu amigo José Fraga da Ponta, com 85 anos, mas que lá não estava. Também sou descendente e tenho origens na Cuada, lugar hoje conhecido em todo o mundo. O primeiro militar nascido na Cuada foi meu tio José Maria de Sousa, filho de José Maria de Sousa e de Maria José Teodósio. Terá assentado praça em Angra, em 1898 e lá esteve até 1922, altura em que emigrou para Nova Inglaterra, juntamente com a família, de onde nunca mais voltou. Foi primeiro-cabo, sempre trabalhando na cooperativa militar nunca manifestou aspirações em subir de posto, como fizeram outros colegas promovidos a capitães. Na mesma unidade esteve meu irmão entre 1951 e 1952. O segundo militar da Cuada foi o sargento Fragueiro Vasconcelos, nascido em 1907. Era filho de António Bettencourt Vasconcelos, natural da Graciosa, e de Maria do Céu Fragueiro, natural da Cuada. O terceiro militar da Cuada foi meu primo, Luís Maria Xavier, em 1946. Não sei se houve outros, posteriormente. Na Fajã não encontrei nenhum daqueles antigos atletas, homens que pensavam que sabiam quase tudo. Crentes em ideias primitivas! Partiram para sempre. Não eram como eu, mal conhecidos, na terra onde nasceram. Terminei a escola primária em 1941 e fui fazer o 2º exame às Lajes, juntamente com meu irmão. Até essa data, apenas meu primo, Pedro da Silveira, o fizera, com 10 anos. Apesar de na casa de meus pais existirem cinco filhos com diplomas da quarta classe, consideravam que era fácil obtê-los e quando saíamos portas fora consideravam-nos como tolos, talvez por não sabermos cantar ou contar histórias, etc. Hoje vivo aqui, nas Pradarias, na terra madrasta, longe daquela que não consigo esquecer. Neste grande país que percorri e todas as direções, nada me pertenço, exceto uma simples casa onde moro. Encontrei portugueses de todas as terras e de todas as ilhas açorianas e pessoas de todos os países da Europa e de todo o mundo. Todos emigrantes como eu! Todos éramos sempre marginalizados, como eu já o era na terra onde nasci. Mas tudo já vai longe e de tudo escapei. Afinal não encontro respostas para três perguntas. De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Alberto Einstein no século XX não explicou tudo. Agora, no século XXI, Stefhen Hawking já tentou completar e explicar tudo. Dizem que foi lucrativo para ele. O horizonte aproxima-se a largos passos, para mim, mas são as leis da Mãe Natureza. Assim é o nosso universo, para além do qual, dizem, existir algo mais. Afinal o mais importante é ter liberdade de pensar, de labutar, de seguir em frente, etc. etc. Vou terminar estas histórias simples pois a única coisa que sei é que nada sei.”

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