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UM BONECO DE MASSA PARA SANTO AMARO

Segunda-feira, 23.11.15

Júlia voltara-se e rebolara-se na cama vezes sem conta. Inicialmente parecia um sonho, depois um imaginar sonolento de algo muito ténue e longínquo e, logo a seguir, um barulho estranho e esquisito a despertá-la definitivamente e a trespassar-lhe o peito, como se fosse um raio. Por fim, já completamente acordada, uma certeza absoluta e irrevogável: eram tiros. Nem sequer esperou para ouvir uma segunda vez ou para se certificar melhor. Levantou-se de rompante, abriu a porta da sala, de maneira a que os pais e os irmãos não se apercebessem da abalada e deu consigo quase tresloucada, no meio da rua, imersa numa madrugada ingente e apavorante, sem saber bem o que fazer ou para onde ir.

Era Maio e a noite estava muito escura e fria. Júlia cobriu os ombros quase nus com um xaile de lã grossa que agarrara à pressa, antes de sair, e rumou, incerta, Fontinha a cima. Os sons martelados e secos de tiros, prolongando-se por aqui e por além, ecoando nas rochas das Águas e das Covas, cada vez pareciam mais nítidos, mais reais, mais aterradores, deixando no ar um rasto de pólvora fumegante. Um temor imenso arrasava-a por completo. Mas persistiu.

Ao chegar ao cimo da Fontinha, Júlia, cada vez mais convicta de que o barulho dos tiros vinha do lado mar, aterrorizou-se mais e desatou numa correria louca, pela canada que dava para o Mimoio. No início, porém, a vereda muito sinuosa, alcantilada de pedregulhos e ladeada com paredes singelas a vedar os pequenos cerrados de milho, as compridas belgas de batata-doce e uma ou outra courela a abarrotar de favas já floridas, não deixava ver o mar mas permitia que o martelar contínuo dos tiros se encafuasse ainda mais naqueles meandros, tornando-os mais reais, mais atribuladores, mais temíveis, mais angustiantes. Agora, se dúvida alguma ainda existisse, desfazia-a por completo no constante ribombar das carabinas e dos fuzis. A sua única preocupação era a de saber se o seu António estaria envolvido naquele aberrante, desmedido e despropositado tiroteio, a quebrar o silêncio íntegro, global, puro e profundo da noite que a penumbra enigmática da rocha lançava sobre a enorme fajã e sobre a baía circundante.

Desde há muito que Júlia e António se amavam, se desejavam reciprocamente com ardor, arquitetando construir, dentro em breve, um lar de felicidade, de bem-estar, de alegria e de amor. Júlia sabia muito bem da oposição cerrada que os seus progenitores lhe haviam de fazer quando se apercebessem do seu relacionamento com o filho do Chibante. Mais se oporiam quando soubessem que ali havia muito amor, que havia uma grande paixão e que conjugavam planos de construírem, em conjunto, o futuro. Talvez por isso é que ele tomara aquela abruta e radical decisão. Por saber que era pobre, muito pobre e que os pais dela haviam de cuidar e de sentir que ele nunca havia de sair da miséria, de um pé rapado, de um badameco de meia tigela e, por isso mesmo, nunca haviam de autorizar aquele casamento, é que ele, o seu António, decidira partir, em busca da aventura, do sucesso, do necessário para um dia, ao regressar das Américas, lhes aniquilar e desfazer por completo arrelias, consumições e de lhes atirar à cara aleivosias. Mas Júlia nunca concordara com aquela partida, para tão longe, para a América e naquelas terríveis e perigosíssimas condições – fugindo, às escondidas, no escuro da noite, envolvendo-se com os aguadeiros de um bergantim, como se fosse um criminoso. Depois era o perigo mais real do que possível de uma fuga clandestina e que, afinal, agora estava ali bem estampada naquele fatídico e malfadado tiroteio.

Ao chegar ao sítio da canada que encimava a Tronqueira, já quase no Mimoio, desfizeram-se as dúvidas por completo. Dali ela via tudo e o cenário era bem real: a uma pequena distância da Baixa Rasa, um enorme bergantim, todo branco, com três altíssimos mastros e velas triangulares, aguardava uma pequena chata que momentos antes saíra do Rolo, junto à Ribeira das Casas, carregando homens e barris de água. A lutar contra os socalcos das ondas provocados pelo contínuo ricocheto dos projéteis na água, numa frustrada fuga, a chata era contínua e permanentemente alvejada por tiros emanados pela guarda costeira do Forte do Estaleiro cruzados alternadamente com outros vindos do Castelo da Ponta. Alguns homens já se haviam atirado à água e, ora mergulhando, ora vindo á tona para respirar, lá se iam esquivando ao desfechar contínuo das balas dos azougados artilheiros. A ordem, inequivocamente, era atirar a matar.

Júlia, numa aflição inexaurível e num sofrimento terrífico, assistia a tudo lá de longe, do alto do Mimoio, no escuro da noite, apenas clarificada momentaneamente pelo fulminar contínuo da pólvora, sem poder fazer nada ou coisa nenhuma. Assistia impotente e dorida, aquele terrífico e dramático espetáculo. Apenas a certeza de que o seu António estava ali, misturada com a esperança de que havia de salvar-se. Nossa Senhora da Saúde havia de o ajudar e se ele salvasse prometeria um boneco de massa a Santo Amaro para o dia da sua festa, em janeiro próximo. E no meio daquela aflição desmedida e daquela agonia inexaurível uma enorme réstia de esperança trespassou-lhe o peito, dulcificando-lhe, momentaneamente, a dor e espevitando-lhe, como em sonho, a alegria: um vulto negro aproximava-se do bergantim. Agarrando-se às grossas escadas de corda que lhe atiravam para o mar, num ápice, saltava a amuara da embarcação, onde se refugiava definitivamente. Outros seguiam-lhe o exemplo. Para desespero dos guardas, todos se salvaram. Pouco depois o bergantim voltava-se e zarpava para Oeste.

O seu António estava salvo e Santo Amaro havia de ter um grande boneco de massa no dia da sua festa!

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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