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UM BIGODE FARFALHUDO

Domingo, 25.09.16

Separadas por grandes distâncias, entrecortadas por rochas altíssimas, encravadas entre ribeiras e grotões, ligadas apenas por veredas ou caminhos de difícil acesso, desde sempre, as freguesias das Flores souberam procurar formas de aproximar os seus habitantes, sobretudo por altura das suas maiores festividades. Assim nasceu o tradicional costume de cada família ter, nas outras freguesias da ilha, os seus “conhecidos”.

Na Fajã Grande quase todas as famílias tinham “conhecidos” no Mosteiro, no Lajedo, nas Lajes, na Lomba e até em Ponta Delgada e nos Cedros. Por isso, pela festa da Senhora da Saúde rumavam à Fajã Grande romeiros de toda a ilha que demandavam as casas dos seus “conhecidos” , onde se hospedavam durante dois, três ou mais dias. Quando se realizassem as festas nas suas freguesias, seriam eles a dar hospedagem aos da Fajã, nas suas próprias casas.

Certo ano, na véspera da Senhora da Saúde, alta noite, chegou à Fajã Grande, o Arlindo, vindo Lomba. Fizera-se ao caminho já tarde e por isso chegava àquelas horas. À Praça encontrou o Adriano, um dos filhos do Manuel Tesoureiro, seu “conhecido”. Conversaram um bocado, foram beber um “traçado” ao botequim do Venceslau e seguiram juntos para a Fontinha, onde morava o velho Tesoureiro com a mulher e os filhos. Ao chegarem a casa já todos dormiam. Pé ante pé, o Adriano foi acordar a mãe, informando-a de que estava ali o Arlindo da Lomba e que era preciso acomodá-lo em qualquer sítio.

A velhota ficou aflitíssima e sem saber o que fazer. É que a noite já ia adiantada, todos dormiam regaladamente e a casa estava à cunha: num quarto estavam os conhecidos do Mosteiro, no outro os de Ponta Delgada, as filhas tinham-se acomodado na loja e ele mais os irmãos iam ficar em cima duma manta, no chão da cozinha. E agora como é que ia ser? Onde se havia de acomodar o Arlindo? Que era um problema bicudo, lá isso era. Uma grande consumição! Mas na rua é que o seu “conhecido” não havia de ficar. Tinha que se arranjar sítio para o Arlindo dormir, fosse como fosse. De repente teve uma ideia. Sem acordar o velho Tesoureiro que dormia que nem um justo, dirigiu-se, pé ante pé, para o seu quarto, alisou os lençóis, abanou os cobertores para arejar o velho colchão de palha, virou o travesseiro do lado contrário e, sem fazer barulho ou acender sequer uma mecha, acomodou o Arlindo ao lado do marido, enquanto ela se foi estirar para a loja, junto das “piquenas”.

Ao acordar de madrugada o velho Tesoureiro não ouviu, como era costume, o estrepitoso ressonar da sua consorte. Preocupado, não lhe tivesse acontecido alguma desgraça, passou-lhe ao de leve uma das mãos pela cara, a certificar-se de que a sua Maria ainda respirava e, qual não foi o seu espanto, quando em vez de uns pelos fracos, interpolados e pouco viçosos apalpou um bigode farfalhudo. Assustadíssimo com aquela taumaturga e repentina mudança, gritou tão alto que quase acordou a casa inteira:

- Ó Maria! Ó alma do diabo! Como é que o bigode te cresceu tanto numa noite?

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