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A MINHA AMEIXEIRA

Segunda-feira, 24.10.16

Meu pai não tinha horta que produzisse fruta para nos alimentar. No entanto, consciente da importância que a fruta tinha na alimentação de uma criança, por demais deficitária a diversíssimos níveis, teve sempre a preocupação de transformar uma das suas melhores terras de mato – a Cabaceira do Meio – em horta. A tarefa não era fácil, pois a maior parte das belgas eram terreno pobre e pedregoso mais propício a produzir incensos, faias, fetos e cana roca do que árvores de fruto.

Mas meu pai era de fibra rija, o que lhe permitiu dominar e alterar os instintos e as forças da natureza. Assim, com trabalho contínuo e persistente, lá foi desbravando o mato, arrancando pedregulhos, transformando-os em maroiços, cavando e voltando a cavar e, com muito esforço, destreza e sabedoria, lá conseguiu transformar grande parte dos terrenos bravios da Cabaceira do Meio em solos cultiváveis, onde plantou inhames e algumas árvores de fruto: macieiras, pereiras, araçazeiros, nespereiras e até um gigantesco castanheiro.

Não se ficou por aqui o meu progenitor nos seus instintos de fruticultor e, a dada altura, ao deslocar-se às Lajes, comprou, na Junta Geral, meia dúzia de pés de ameixeiras. No dia seguinte, levantou-se cedo, acordou-me e partimos para a Cabaceira do Meio, a fim de plantá-las. Uma aqui, outra acolá, em sítios abrigados ou protegidos por bardos de faias e incensos.

Pedi-lhe para me deixar plantar uma. Que não senhor, que aquilo não era brincadeira, que tinham sido muito caras, que eu não sabia plantar nada nem coisa nenhuma, que tirasse o cavalinho da chuva que seria ele a plantá-las todas. Reclamei, barafustei, tanto rezinguei e lhe pedi que ele por fim, talvez para me calar, escolheu, de entre as seis, a que tinha pior aspecto, a que parecia mais definhada e lá ma deu, ordenando-me que a fosse plantar para outro lado, para onde quisesse, mas longe e nunca nos sítios que ele havia seleccionado, por terem melhores condições e que estavam destinados às outras cinco.

Todo contente, peguei na enxadita e fui abrir uma cova muito grande, ao lado do enorme e vetusto castanheiro, cuidando que este havia de proteger a minha pobre e pequenina árvore. Meti-lhe o pezinho de ameixeira aparentemente definhada, com muito cuidado para que nenhum pelinho da raiz se partisse ou amachucasse, cheguei-lhe muita terrinha para cima, calquei-a com ambas as mãos, disse-lhe. Baixinho, uns segredos, fiz-lhe uns miminhos e lá a deixei, à espera que vingasse, crescesse e desse fruto.

Passado algum tempo voltámos à Cabaceira do Meio, para ver como estavam as ameixeiras. Qual não foi o espanto do meu progenitor quando verificou que nenhuma ameixeira das que ele plantara tinha pegado. A única que alegre e efusivamente florescia era a que tinha sido plantada por mim!

A ameixeira cresceu, tornou-se numa enorme e bonita árvore e durante anos e anos deu muitas ameixas carnudas, avermelhadas e saborosas, que nos foram alimentando a todos lá em casa, pese embora eu reivindicasse, continua mas ingloriamente, que só eu teria direito a comê-las porque elas eram da  “Minha Ameixeira”.

 

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