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ONÉSIMO ALMEIDA

Sábado, 29.10.16

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida nasceu na freguesia do Pico da Pedra, ilha de S. Miguel, em 18 de Dezembro de 1946. É professor universitário, ensaísta e ficcionista. Entrou para o Seminário Menor de Ponta Delgada em 1985, transitando, dois anos depois, para o de Angra do Heroísmo. Desde cedo revelou possuir uma inteligência invulgar, uma memória prodigiosa e uma capacidade de aprendizagem notável, manifestando grande apetência para a literatura, nomeadamente para a escrita. Ainda no Seminário, para além de muitos textos de excelente qualidade literária e de conteúdos riquíssimos, que divulgava em jornais, revistas, academias, saraus culturais e na rádio, escreveu as suas primeiras obras: Esperança-21 (teatro) e O Centenário (poema-paródia).

Após a formação no Seminário, frequentou a Universidade Católica, de Lisboa, bacharelando-se e emigrou para os EU, completando a licenciatura e fazendo o doutoramento em Filosofia, na Brown University, Rhode Island, nos Estados Unidos da América, onde reside desde 1972. Começou a exercer docência naquela Universidade a partir de 1975. É actualmente professor e director do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros. Fundou e dirige, desde 1980, a Gávea-Brown Publications, com considerável atividade editorial, e a revista bilingue de letras e estudos luso-americanos Gávea-Brown. Deve-se ao seu empenho a criação da cadeira de Literatura Açoriana, que, no ano lectivo de 1977-78, começou a fazer parte do elenco disciplinar do departamento. É vice-presidente do Rhode Island Committee for the Humanities (Rhode Island) e membro, entre outras instituições, do Conselho Executivo do Watson Institute for International Studies (Brown University) e da American Philosophical Association. Os percursos apontados e a actuação, desde os princípios da década de 80, em diversos congressos e colóquios nacionais e internacionais, acima de uma centena, são suficientes para dar uma imagem da sua vitalidade curricular. O seu trajecto intelectual encontra-se marcado pelo contacto com a tradição anglo-saxónica da filosofia analítica e pelo pragmatismo filosófico norte-americano, ascendente que se revela tanto na propensão para o rigor da linguagem na prosa ensaística em filosofia e no espírito crítico que a sublinha como nas influências que, de modo mais ou menos directo, é possível detectar nos seus textos. Pensadores como Willard Van Orman Quine, Ludwig Wittgenstein, Karl Popper, William James, John Dewey, Richard Rorty, Paul Feyerabend e Thomas Kuhn, ou Karl Marx, Karl Manheim, Louis Althusser, estes três configurando o eixo do debate da sua tese de doutoramento, são, entre outros, os de sua predilecção intelectual, desvendando áreas preferenciais na filosofia da linguagem e na linguística, na epistemologia, na filosofia ética e política, na sociologia e na teoria antropológica da cultura e dos valores. Esta última apresenta-se como uma zona de confluência das outras áreas, cujo núcleo central situa na problemática das mundividências, de que a ideologia seria um caso particular. Este problema, que se reflecte com insistência nos textos posteriores a 1980, fê-lo abandonar a ideia de publicação da tese de doutoramento, por considerá-la, e já na fase final da investigação, ultrapassada nos seus desenvolvimentos, pela nova perspectiva, cujo primeiro aprofundamento acontece quando, no ano lectivo de 1980-81, se dedica a abordar essa problemática numa cadeira sobre «A Formação das Mundividências». A temática axiológica torna-se, a partir daqui, nuclear, e a ela se pode reconduzir a produção ensaística que se debruça sobre temas da cultura portuguesa, como os equívocos da «filosofia portuguesa», o eventual contributo de Portugal para a ciência moderna, a identidade nacional e os valores culturais de determinadas épocas e gerações através da análise da obra de figuras como Fernando Pessoa e Antero de Quental, ou ainda sobre assuntos que directamente dizem respeito à sociedade e cultura açorianas. A reflexão sobre a identidade cultural do açoriano, seja o que habita as ilhas, seja o da comunidade emigrante, embora se coloque num contexto de debate específico, com natureza diferente da teorização filosófica dos valores, não deixa de a esta estar referida como um dos rumos de aplicação da teoria à prática, como, aliás, se torna patente em textos sobre a aculturação do emigrante e sobre a política do turismo nos Açores, Não é, pois, isenta de razões a afirmação que enraizasse neste horizonte especulativo o seu interesse pela questão da literatura açoriana, além dos mais evidentes motivos de orientação literária do autor, pois que o modo como a aborda é norteado por perspectivas sociológicas e de antropologia cultural e linguística, em muitos pontos lembrando a atmosfera crítica de textos anteriores, já acima citados, nomeadamente naqueles em que se deu à discussão do conceito de «filosofia portuguesa» e ao questionamento dos descobrimentos portugueses e da ciência. A inspecção destes textos e a sua comparação com aqueles põem em realce a tónica axiológica, já que, para Onésimo Almeida, é no conceito de açorianidade que se funda a expressão literatura açoriana, cuja discussão não pode libertar-se da referência ao conjunto de «valores estéticos e éticos» que aquele conceito compreende. Assim, embora não diga de modo directo que exista uma literatura açoriana, a sua prudência leva-o a situar-se no âmbito de uma óptica que parece tender para a salvaguarda da crítica e da problematização permanentes. O seu mérito esteve na acção decisiva que permitiu instituir, a partir de 1983, um campo alargado de debate teórico em torno da literatura açoriana - não só pela organização de simpósios sobre o tema como pelas publicações onde reuniu textos de diversos autores -, em que a sua posição emerge marcada pela cautela, reservada e crítica, quanto a um juízo afirmativo, cabal e decisivo, sobre tal existência. Podemos, no entanto, deduzir dos textos que o problema da existência é, antes, o problema do âmbito de realidade da literatura açoriana, como um caso específico no panorama da literatura portuguesa, suficiente para determinar-lhe os contornos de objecto de estudo nas notas dominantes de certa individualidade - povo, cultura, valores -, que não cabe na definição genérica da «portugalidade». Mas a sua personalidade multifacetada não se reduz ao acima dito, pois que todo esse ensaísmo, filosófico e literário, divide compromissos com a crónica jornalística e a criatividade nos domínios da ficção - conto e teatro. O primeiro livro surgiu em 1975. Nele reúne crónicas publicadas na imprensa, dando-lhe o sugestivo título Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia. São estas páginas o primeiro produto da experiência do autor em terras norte-americanas e do seu contacto com a comunidade açoriana emigrante. Essa existência exprimiu-se - como de igual modo em L(USA)lândia - a Décima Ilha, - no relato breve ou episódico do dia-a-dia da emigração, com reflexões políticas várias sobre a sociedade e a cultura luso-americanas. As outras colectâneas de crónicas não deixam de se inscrever nesse pano de fundo da diáspora açoriana e do diálogo que o autor mantém com a ilha longínqua, nelas verbalizando as suas experiências pessoais de português no mundo. É também nesse horizonte onde encontramos o húmus inspirador dos seus contos e teatro. (Sapa)teia Americana retoma, no plano ficcional do conto, o tema da vida emigrada. Conta ou reconta factos verídicos ou ficcionados, onde se unem a atenção crítica com a ironia, o humor das situações com o drama, num retrato realista que se forja a si mesmo como imaginário da diáspora, a que não falta mesmo a dimensão mítica de uma geografia: a L(USA)lândia, no entanto, real pela presença dos seus habitantes (lusalandos ou lusalandeses), em carne e osso, em alegria, sofrimento e esperança no sonho americano. Esta L(USA)lândia, que a imaginação semântica do autor forjou a partir da proximidade gráfica e fonética do US, comum a USA e à terra (land) LUSA distante, emerge diante do leitor, por entre os fragmentos das imagens que o autor fixa e descreve de gentes, nomes e lugares, favorecendo uma espécie de linha narrativa que salta de conto para conto. Dir-se-ia que o autor-narrador assume o papel de cronista da terra LUSAlandesa, escrevendo em ficção os anais históricos da gesta emigrante, que, sob outros motivos, havia já abordado no teatro de Ah! Mònim dum Corisco. Referência distinta merece a peça teatral No Seio Desse Amargo Mar. Entre outros, são personagens Antero, Nemésio, Côrtes-Rodrigues, Santos Barros. Peça de teor reflexivo, cujo diálogo se propõe como des-construção e reconstrução da identidade nacional e açoriana, mostra a tendência de Onésimo Almeida para a desmontagem do imaginário mítico português, com raízes remotas em António Sérgio e de Eduardo Lourenço. Um dos traços que ressalta na leitura da obra de ficção é o do humor, um humorismo que cruza a anedota pitoresca com uma ironia certeira ou acentuadamente satírica, visando situações e vivências humanas, e que tem alcançado lugar de tema ensaístico.

Obras principais: Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia. Ah! Mònim dum Corisco!... (Sapa)teia Americana,  A Questão da Literatura Açoriana: Recolha de Intervenções e Revisitação, Filosofia portuguesa: alguns equívocos, Açorianidade: Equívocos estéticos e éticos, Aculturação: algumas observações. L(USA)lândia: a Décima Ilha, Mensagem: Uma Tentativa de Reinterpretação, Literatura, sociedade e política: o caso açoriano, In Conhecimento dos Açores através da Literatura. Angra do Heroísmo, O Renascimento da «Morte da Ideologia, Açores, açorianos, açorianidade: um espaço cultural, No seio desse Amargo Mar: Antero de Quental et l’Europe, Que Nome É Esse, ó Nézimo?: E Outros Advérbios de Dúvida.), Rio Atlântico, entre muitas outras.

 

Texto retirado do CCA – Cultura Açores

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