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AS FURNAS DA ROCHA

Quinta-feira, 18.07.13

Quem subia a Rocha da Fajã Grande, dia após dia, a fim de ir tirar o leite às vacas que pastavam no Mato, durante o Verão, que no Inverno só havia gado alfeiro naqueles descampados, ou mesmo quem a escalasse apenas esporadicamente no cumprimento de tarefas fortuitas, como ceifar feitos, cortar bracéu, ir buscar queirós para a matança, apanhar amoras para fazer doce, ir ao Fio ou até simplesmente quem pretendesse viajar para os Cedros ou para Santa Cruz, neste caso para evitar a travessia da Ribeira Grande junto à Fajãzinha, encontrava, ao longo daquelas íngremes e sinuosas trinta e duas voltas, três furnas: a do Peito, a da Caixa e a dos Dez Réis.

As furnas eram concavidades encravadas na rocha, mesmo à beirinha do caminho, com formatos diferentes, com tamanhos desiguais e com fins diversificados, embora todas elas constituíssem marcos significativos na subida de tão gigantesca e descomunal escarpa.

A Furna do Peito era a primeira, a maior e a mais útil. Situava-se logo no início da subida, na décima volta e tinha a forma de uma grande caverna encravada num sítio mais saliente e pedregoso da Rocha cuja forma se assemelhava a um gigantesco peito humano, razão óbvia do seu epíteto. A Furna tinha uma dupla finalidade: ora servia de abrigo da chuva, de protecção dos ventos e resguardo dos temporais ora de lugar de descanso, de repouso e de retoma de fôlego. Mas era também uma espécie de templo onde entravam os caminhantes, sobretudo os que sentiam mais medos e ostentavam maiores dificuldades, durante a subida, a fim de obterem ânimo, calma, tranquilidade e, sobretudo, esperança de chegar ao cimo, livres de qualquer perigo ou salvos duma eventual derrocada. Por isso havia sido colocada, numa das paredes interiores da furna, uma grande cruz de madeira e ao redor de todo o seu interior havia-se construído uma espécie de bancada feita de pedras toscas, onde os transeuntes que ali entravam se sentavam ou a descansar e a retemperar forças para continuar a subida, ou a implorar a Deus, à Virgem e a todos os Santos, Anjos e Arcanjos que impedissem o desabamento por ali abaixo de pedras ou ribanceiras, pelo menos enquanto durasse a extenuante e morosa caminhada, até ao acimo.

Por sua vez a Furna da Caixa era bastante mais pequena, tinha muito pouca profundidade e situava-se, rigorosamente, a meio da escalada. Quem ali chegava, pelo menos, tinha a certeza de que já galgara a primeira metade daquela abstrusa, enigmática e escabrosa subida. Como o seu tamanho e profundidade, de tão escassos que eram, não permitiam a um cristão sequer ali entrar para descansar ou abrigar-se, alguém construíra nos seus limítrofes um logradouro, com um muro protector e uma banqueta em forma de semicírculo e que servia simultaneamente de local de descanso e de miradouro. Na realidade, dali, enquanto se descansava, podia-se observar a Fajã como se de uma vista aérea se tratasse. Ao perto o verde das relvas da Figueira e das Águas e as terras de mato do Pocestinho e dos Paus Brancos; mais além as belgas da Bandeja e das Queimadas, os cerrados do Alagoeiro e do Mimoio e depois as casas com o vermelho escuro dos telhados a misturarem-se com o verde amarelado das courelas. Por fim e a delimitar a imensa fajã a mancha negra do baixio, recortada por caneiros e enseadas a entrelaçarem-se com o oceano imenso e infinito onde se haviam cravado desavergonhadamente, lá ao longe, a Baixa Rasa e o Monchique.

Finalmente, logo a seguir à Fonte Vermelha, a mítica Furna dos Dez Réis, a última, a mais pequena e, provavelmente a mais profunda. Tão pequena que nem uma cabeça humana caberia na sua entrada, tão funda que não se lhe conhecia a profundeza. Era no entanto uma das mais importantes e mais almejada de atingir por todos os que subiam aquele inexaurível alcantil. Por um lado, chegar à Furna dos Dez Réis era ter a certeza de que faltavam apenas dez voltas para chegar à cancela do Mancebo, no cimo da Rocha. Por outro lado aquela furna tinha um poder mágico e sobrenatural: quem metesse lá dentro uma mão bem fechada e formulasse um desejo que não fosse muito ambicioso, esse desejo ser-lhe-ia concedido.

Quanto a mim todas as vezes que por ali passava, metia a mão, firmemente fechada, pela furna dentro e formulava o desejo de chegar ao cimo da rocha são e salvo. E confesso que esse desejo sempre me foi concedido.

 

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