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A CABACEIRA DE TI CARLOS

Quinta-feira, 27.10.16

A Cabaceira era talvez o maior de quantos lugares existiam na Fajã Grande, estendendo-se desde o Delgado até à Volta do Pinheiro, por isso mesmo era vulgarmente subdivida em três lugares: Cabaceira de Baixo, Cabaceira do Meio e Cabaceira de Cima. Em minha casa, porém e por iniciativa toponímica exclusivamente nossa, havia na extensa Cabaceira mais um terceiro lugar, a Cabaceira de Ti Carlos, quase identificada, no entanto, com a Cabaceira de Cima, pois situava-se a sul, paredes meias com o Espigão e o Pocestinho.

A razão de ser deste epíteto, adotado lá em casa para identificar a parte mais sueste da Cabaceira, advinha do facto de meu pai possuir ali uma terra que lhe fora dada, juntamente com algumas outras, por um irmão dele, de nome Carlos, que havia emigrado para a América há muitos anos. Como meu pai possuía mais duas terras por aqueles andurriais, uma na Cabaceira de Baixo e outra na do Meio, aquela terra, assim como o lugar em que se situava passou a ser designada por Cabaceira de Ti Carlos. Para além de homenagearmos o benemérito irmão do meu progenitor evitávamos confundir o local onde devíamos ir, por ordem de meu pai, buscar um molho de lenha, levantar uma parede, apanhar um braçado de incensos ou ceifar uma carrada feitos ou de cana roca para a cerca do porco.

A Cabaceira de Ti Carlos, lugar, era um sítio ermo, esconso e distante do caminho que ligava o Cimo da Assomada aos Lavadouros. A ele tinha-se acesso por uma canada ladeada por frondosas faeiras e altíssimos incensos que lhe davam um ar cavernoso, desfrequentado, sombrio e, aparentemente, tenebroso. Além disso a canada iniciava-se um pouco abaixo do largo da Cancelinha, pleno de mitos, de lendas e de assombros. Estas as razões pelas quais eu me pelava de medo quando ia à Cabaceira de Ti Carlos e, confesso, que nunca ia lá sozinho. As terras ali existentes eram todas de mato e pouco mais produziam do que lenha, feitos e cana roca, uma vez que na globalidade abarrotavam de faeiras, incensos, sanguinhos e um oi outro loureiro ou pau branco. Tudo isto tornava aquele lugar ermo, esconso, tenebroso.

A minha prima e vizinha Deolinda também tinha ali uma terra, paredes meias com a de meu pai e de onde se abastecia da lenha de que necessitava no seu dia-a-dia. Não sei se por ter medo daqueles andurriais como eu, se por ser mulher solteira, ainda nova e ter receio de ser assediada por algum valdevino, pedia sempre à minha irmã que me deixasse ir na sua companhia. E lá ia todo feliz. Mas quando entrávamos na canada da Cabaceira de Ta Carlos, cheio de medo dava-lhe a mão e ao entrar na terra nunca me afastava dela.

A Cabaceira de Ti Carlos, terra que o meu tio doara ao meu pai, era, no entanto, pobre e pouco produzia. Decerto que, assim como o lugar a que deu nome, desapareceu no tempo e talvez no espaço, mas continua na minha memória como lugar quase sagrado, repleto de mitos, de sonhos e também de pesadelos.

 

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