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A CALDEIRINHA

Sábado, 23.07.16

A Caldeirinha, encastoada bem lá no alto, sobre a Rocha da Ponta, era um dos mais deslumbrantes e emblemáticos lugares de quantas existiam na Fajã Grande. Situada num planalto de singela beleza e singular rusticidade, a Caldeirinha como que se misturava com o verde das relvas, das queirós, dos juncos, do tamusgo e dos vinháticos, se envolvia com o perfume salificado do oceano, cujos salpicos e respingos, apesar de distante, recebia ao de leve, se confundia com o silêncio que sobre ela desabava em catadupa emanado das escarpas circundantes e, por fim, ornava-se com o colorido das hortênsias que em bardos multicolores dividiam as propriedades dos qua ali as possuíam.

Como os restantes lugares dos matos da Fajã Grande, a Caldeirinha, na década de cinquenta, tinha um papel preponderante e de relevo não apenas no quotidiano das famílias que ali possuíam propriedades, mas também na economia da própria freguesia, por quanto grande parte daquele andurrial era zona de concelho, isto é, zona todos, onde pastava grande parte das ovelhas da Fajã e sobretudo da Ponta e que, nos meses de março e setembro, eram ajuntadas e tosquiadas nos dias de fio. Na verdade, apesar de, vocacionada desde sempre como local de pastoreio de gado vacum, nas partes mais altas e nas escarpas dos montes circundantes pastavam ovelhas, ao desvario, por sua conta, apenas recolhidas nos dias de fio. Numa espécie evasão ocasional e paradigmática, os ventos e, sobretudo as nuvens da Caldeirinha, também funcionavam como avisos meteorológicos para a população da freguesia. De facto, a Caldeirinha, enigmaticamente e devido à sua altitude e ao seu posicionamento geográfico, como que se transformara num verdadeiro centro informativo, numa espécie de boletim meteorológico, onde se podia ler e adivinhar a força do vento, a chuva, o tempo dos dias seguintes a cada dia. Mas a Caldeirinha também se apresentava como uma espécie de granja onde, juntamente com vacas, ovelhas, ervas e queirós, misturadas com coloridos carreiros de hortênsias a tapar valados e grotões, um lugar de excelência, de informação e de grande utilidade, pois era ali que em dias enevoados, cinzentos, chuvosos, se juntavam muitos homens, a ceifar bracéu, a roçar feitos, a cortar queirós para a matança do porco, ou a desbravar a maldita e perversa cana roca ou simplesmente a tratar do gado e que, vezes sem conta e se galvaniza em momentos de alegria, em encontros mágicos, em convívios gratificantes, entrelaçados em singela e genuína camaradagem. Era ali que almoçavam por vezes até repartindo os seus próprios cardápios. Em suma, a Cadeirinha, em tempos recuados, era uma espécie de mito, ou seja, um local de sonhos idílicos, de fascinações extasiantes, de enlevos arrebatadores, porque de rara beleza, grande utilidade e excessivos encantos. Uma espécie de epicentro do trabalho árduo, do convívio, do cansaço e da amizade. Um verdadeiro paraíso.

A Caldeirinha a oeste fazia fronteira com o Alto da Rocha do Vime, a Sul com o Bracéu e o Queiroal, a norte com a freguesia de Ponta Delgada, já pertencente ao Concelho de Santa Cruz e a Oeste com as relvas dos matos da Ponta e com o Risco.

A origem do seu nome muito provavelmente estará ligada ao facto de, embora situada num planalto, é ladeada por vários montes, pelo que vista de cá debaixo, de longe se assemelha a um pequena concavidade ou a uma caldeirinha.

Ali, naquele lugar de encanto e beleza rara, tudo era sublime e transcendente. Até o ar era perfumado com o bafo das vacas e das ovelhas, com o cheiro do poejo, da cidreira e da erva-nêveda, e adocicado com o verde das queirós e dos fetos, com o perfume das hortênsias.

Numa palavra a Caldeirinha era um lugar de encanto, de beleza rara e que, aparentemente, até parecia ser beijada pelo roncar dos aviões que sobrevoavam a ilha, num vai e vem contínuo entre a América e a Europa.

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