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A CRUZ DA CALDEIRA

Sábado, 17.10.15

Uma das mais emotivas, aterradoras e arrepiantes estórias que se contavam antigamente, aos serões, em muitas casas da Fajã Grande, era a da Cruz da Caldeira, a qual, para além do seu conteúdo narrativo que implicava a prevenção contra determinados comportamentos e atitudes que poderiam aproximar os humanos do Diabo, explicava a razão de ser ou a existência duma enorme cruz branca que existe no alto da Rocha dos Bredos, precisamente no antigo caminho que ligava a Fajãzinha à Caldeira e ao .

Contava a estória que certa noite um grupo de pessoas estava a fazer serão numa casa da Caldeira. Os presentes conversavam, alguns homens jogavam às cartas, outros fumavam e descansavam, as mulheres cardavam e fiavam e as crianças umas já dormiam e outras, brincavam. A conversa começou a aquecer e, de repente, transformou-se em discussão e esta em tirapuxa. Um dos homens presentes, muito forte e anamudo, perante as afirmações de alguns dos outros de que não se podia nem devia assobiar à meia-noite, porque isso era chamar o Diabo, dizia que por si assobiava, onde e quando quisesse e lhe apetecesse, a qualquer hora do dia ou da noite e que não tinha medo nenhum de o fazer. Os outros que não e ele que sim. As mulheres assustadíssimas.

Foi então que um dos presentes lhe disse que ele não era capaz de, quando fosse meia-noite, ir à Ribeira e dar três assobiadelas, chamando o Cão-Feio. Os outros homens começaram a assanhá-lo enquanto as mulheres se benziam, persignavam e rezavam pequenas jaculatórias. O homem, porém, não se continha. Parecia que já tinha o Eiramá metido no corpo. E vai disto aceita a aposta: - Se lhe dessem três canadas de vinho ele ia sozinho à Ribeira, à meia-noite, dar as três assobiadelas.

Os outros aceitaram e, um pouco antes de bater a meia-noite no relógio da sala, o homem partiu. Assim, à meia-noite em ponto, estaria lá no alto, junto à Ribeira, pronto para dar os três assobios.

A noite estava escura como breu e o mar rugia como um touro. À meia-noite todos se calaram e, logo que o relógio deu a primeira pancada, ouviu-se o primeiro assobio, muito forte e prolongado. Todos se arrepiaram, as mulheres bichanavam pequenas orações, os cães começaram a uivar e o mar a rugir cada vez com maior intensidade. Passado um pouco, ouviu-se o segundo assobio, mas mais fraco e menos vibrante do que o primeiro. Todos se arrepiaram e até o silêncio que se seguiu parecia assustador. Os cães cada vez uivavam mais e o mar rugia com mais força. Metia medo! Esperaram atónitos e estupefactos. O terceiro assobio já não se ouviu. Aguardaram, temerosos, uns a olhar para os outros, sem dizerem nada, pressentindo que algo de estranho acontecera. Esperaram mais algum tempo e nada. Os homens puseram-se alerta. As mulheres com o coração apertado e as mãos cruzadas sobre o peito, implorando clemência e perdão. Esperaram, esperaram… Nem assobio nem meio assobio! Passou-se um quarto de hora, passou meia hora… O terceiro assobio sem se ouvir e o homem sem regressar. Não se fiou nem se cardou mais… Ninguém saiu para as suas casas, nem ninguém dormiu até de madrugada. Uns bem incentivavam os outros a sair na procura do homem, mas ninguém teve coragem de o fazer. Só de manhã, quando os primeiros raios de luz começaram a raiar, tímidos, por detrás dos montes, um grupo de homens partiu na direção da Ribeira, para o local onde, supostamente, o homem havia assobiado. Assim que desembocaram à Ribeira, começaram a ver sangue misturado com cabelos. Chegaram finalmente a um algar, escavacado lá bem no fundo da Ribeira. Estava mais aberto e mais escarrachado do que nunca. Ao redor mais sangue, mais cabelos e restos de roupa. Mas o homem nunca mais o viram, nem nunca ninguém soube dele, cuidando que ele teria sido arrastado e levado lá para o fundo do algar, cujas profundezas ninguém conhecia. Essa a razão por que lá no alto, no lugar onde encontraram o sangue os cabelos, foi erguida uma enorme cruz branca que ainda hoje lá existe, denominada de A Cruz da Caldeira.

 

 

 

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