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A CRUZ DO OUTEIRO

Sexta-feira, 02.12.16

Uma das mais emblemáticas construções edificadas na Fajã Grande foi, inequivocamente a Cruz. Construída bem lá no alto do Outeiro, precisamente no local em que este mais se prolonga sobre o povoado, como que a separar a Assomada da Fontinha, a Cruz impunha-se e debruçava-se sobre as casas campos, num abraço gigantesco, a abençoar, pessoas, animais, lares, terras, maroiços, ruas, vielas e até o mar. Branca, ingente, altiva e gigantesca a Cruz como que se assemelhava ao Cristo Redentor do Corcovado, apresentando-se como verdadeiro símbolo do cristianismo e da fé do povo da mais ocidental freguesia açoriana, apresentando-se de forma semelhante à da gigantesca estátua brasileira, como um ícone da Fajã Grande e até das Flores, postando-se ainda como marco abençoado de dezenas e dezenas de embarcações que, emergindo no horizonte, aproavam à ilha, na demanda das rotas marítimas entre a América, a Europa e a África.

Não se sabe ao certo quando surgiu a ideia de construir uma grande cruz no alto do Outeiro, nem sequer altura em que foi construída, uma vez que o monumento não revela a data de construção. Sabe-se, no entanto que ela é um verdadeiro símbolo da fé e da crença dos nossos antepassados que assim desejavam ver a sua terra permanentemente abençoada pelos braços da cruz redentora.

Durante muitos anos e até à década de cinquenta do século passado realizava-se, anualmente junto à Cruz, uma festa com missa campal precedida de romaria que tinha lugar no dia 14 de setembro, dia em que a Igreja Católica, liturgicamente, celebra e comemora a Exaltação da Santa Cruz ou seja o madeiro em que Cristo foi crucificado. Era também junto a esta Cruz que nas terças e sextas-feiras quaresmais, um grupo de homens, quer chovesse quer ventasse, ajoelhava entoando cânticos e orações diversas e prolongadas. As suas vozes, ecoando nas encostas dos montes, ressoavam e repercutiam-se sobre os velhos telhados dos casebres. Simultaneamente, em todos os lares, famílias inteiras ajoelhavam também e, em convicta e comunitária oração, uniam-se às preces dos cantores, suplicando perdão para os delituosos e pecadores e beneficência para os infelizes e sofredores.

O Outeiro e mais concretamente o lugar da Cruz era também um enigmático local para passeios, uma vez que sobranceiro à freguesia, a que se tinha acesso por uma ingreme e sinuosa vereda, de lá se desfrutava duma vista fantástica e deslumbrantemente bela. Ao perto, os telhados e frontispícios do casario, mais ao longe os campos verdes e amarelados de couves e milho e, além, separado pela mancha negra do baixio, o oceano azulado e infinito, contrastando com a tímida pequenez da ilha. Era, inclusivamente um lugar de visitas turísticas, dada a sua rara e invulgar beleza. Ao iniciar-se a subida, o espetáculo excedia-se em pulcritude, em cores, em luzes e em sons. Mas era sobretudo no dia da festa, durante a romaria, em que o povo subia em fila empunhando as velas, entoando cânticos, ao mesmo tempo que as luzes se iam alongando na subida, formando um cordão luminoso e colorido, uma espécie de colar que se ia prolongando pela encosta até se enroscar ao redor da cruz. Visto de longe, o espetáculo era magnífico.

Emblemática e mítica era ainda a Cruz do Outeiro, por quanto na imaginação da pequenada, era lá que na passagem do ano, à meia-noite, o Ano Velho e o Ano Novo travavam uma árdua luta, com o objetivo de decidirem entre si quem ficaria a mandar no próximo ano: se o Ano Velho se o Ano Novo. Nessa noite mágica todas as crianças da freguesia adormeciam nas suas camas ou berços de palha e casca de milho, uns agarrados aos outros, muito bem cobertos e caladinhos, com os olhitos muito arregalados por fora dos cobertores, com os ouvidos à escuta, a tentar descortinar algum ruído ou barulho indicador da luta e a desejar que fosse o Ano Novo a vencer. Mas só no dia seguinte de manhã, ao indagar junto dos adultos quem teria sido o vencedor, ficavam a saber que tinha sido o Ano Novo a vencer a contenda

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