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A FESTA DA SENHORA DA SAÚDE

Quinta-feira, 08.09.16

Nos anos 50, a festa da Senhora da Saúde, que desde há décadas se realizava e continua a realizar na Fajã Grande, era incontestavelmente, na altura, uma das maiores e das mais concorridas de toda a ilha das Flores.

Celebrada no dia 8 de Setembro (mais tarde passou para o domingo mais próximo deste dia) a ela vinham romeiros de toda a ilha, sobretudo da Fajãzinha, do Mosteiro, do Lajedo, de Ponta Delgada, dos Cedros, das Lajes e da Lomba. Alguns, sobretudo os de mais longe, vinham com um ou dois dias de antecedência, regressando muitos deles à sua freguesia apenas na oitava da festa, pernoitando e alimentando-se em casa dos seus “conhecidos” da Fajã, durante vários dias. Também do Corvo, quase todos os anos, chegava uma lancha carregadinha de forasteiros que também se acomodavam em casa dos seus conhecidos da Fajã. Até à inauguração da Filarmónica “Senhora da Saúde”, no início da década de cinquenta, vinha geralmente uma banda de fora, da Fajãzinha, da Lomba ou do Corvo, as quais geralmente traziam muitos romeiros. Foi precisamente no ano em que a filarmónica contratada, a da Lomba, não compareceu que surgiu a ideia, mais tarde concretizada, de se criar uma banda de música na Fajã.

No que dizia respeito à parte litúrgica, a festa começava com um tríduo preparatório, pregado geralmente por um padre de outra freguesia ou por um professor do Seminário de Angra, natural das Flores, dado que nessa altura proliferavam pela ilha e que ainda se encontravam em férias, sendo o mais habitual o Dr Caetano Tomás, do Lajedo. Na véspera, de tarde, eram as confissões, geralmente com 4 padres de fora, espalhados pelos confessionários laterais ou pelos ralos da grade da capela-mor. No dia da festa celebravam-se três missas: a da manhã, bastante cedo, destinada às cozinheiras e pessoas que não pudessem ir a outra, mais tarde; a da comunhão, celebrada às nove, com sermão e destinada sobretudo às crianças da catequese e da Cruzada Eucarística e a outros comungantes e às onze, missa solene, cantada, de três padres e com sermão. Nesta quase ninguém comungava, dado que, na altura para o fazer era preciso guardar jejum desde a meia-noite.

Da parte da tarde, interrompendo o arraial, havia a procissão. À frente a cruz paroquial ladeada por duas lanternas, umas e outra levadas por homens trajando opas vermelhas. Depois os anjinhos de asas brancas e cestas de flores e as crianças da Cruzada Eucarística, cobertas com a cruz de Malta, desenhada a vermelho, em faixas brancas, atravessadas sobre o peito. Logo atrás os andores de Santa Teresinha, São José e da Senhora da Saúde, transportados por homens, vestidos de opas os da frente vermelhas e os últimos brancas. Depois os homens de opas vermelhas, carregando lanternas, pendões e o pálio, sob o qual, geralmente, seguia o Ouvidor das Lajes envergando capa de asperges branca e véu de ombros da mesma cor, a segurar o Santo Lenho, ladeado por dois padres vestidos com dalmáticas também brancas mas, como a capa debruadas a amarelo. À frente do pálio seguia o clero excedente que geralmente era pouco e algum seminarista em férias na ilha, envergando sotainas negras e sobrepelizes brancas. Logo atrás a Filarmónica. A procissão percorria a rua Direita, para cima até à Praça e para Baixo até à Rua Nova e as janelas, varandas e pátios das casas por onde passava estavam enfeitadas com colchas de cores variadas, que davam à rua Direita um colorido desusado. A rua estava ornamentada com bandeirinhas multicolores presas nos cantos e janelas das casas e o chão era atapetado com verduras e flores. Uma vez regressada à igreja, a procissão terminava com um sermão. Os três sermões do dia da festa eram geralmente pregados por pregadores diferentes e todos eles, assim como os do tríduo e a missa cantada eram promessas de fajagrandenses residentes na Califórnia e que antecipadamente faziam as suas reservas. Um sermão custava cento e vinte escudos, a missa cantada cem e a missa rezada vinte. As Trindades eram dobradas e não havia início de celebração ou levantar a Deus que não tivesse foguetes e repique bem redobrado dos sinos. Durante a procissão os sinos também repicavam e os foguetes ecoando nas rochas das Águas e da Figueira.

Paralelamente havia uma parte profana ou cívica que começava no sábado e continuava no domingo e que consistia fundamentalmente num enorme arraial, com música, foguetes, quermesse e os jogos do Albino: o do boneco, em que um boneco de madeira suspenso na cintura por um eixo, rodopiava sobre um caixilho também de madeira, apoiado no chão com algumas pedras. O jogo consistia em atirar, de uma distância previamente delimitada, cinco bolas ao boneco, por um escudo. Quem acertasse no dito cujo e conseguisse que ele desse uma volta completa sobre si próprio receberia um prémio: um chocolate, uma laranjada, uma cerveja ou um pirolito de bola. Outro jogo era o da pesca à cerveja: dispostas seis garrafas de cerveja, outros tantos jogadores munidos de um caniço, com um fio e uma argola em vez do anzol teriam que enfiar esta o mais rapidamente possível no gargalo da cerveja que estava na sua frente. O prémio era a própria cerveja para o primeiro que atingisse o objectivo do jogo.

À noite o arraial era iluminado com várias lanternas petromax. Só depois da ida do Padre Pimentel à Califórnia, com o dinheiro que ele por lá arrecadou se comprou um motor que, sob os cuidados de José Furtado, iluminava não apenas a igreja mas também o adro e a parte central da Rua Direita com séries de lâmpadas multicolores também vindas da América. Enquanto José Furtado não chegava ou quando o motor falhava o arraial, para gáudio de muitos, fazia-se às escuras.

 

 

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