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A GARREADELA

Quarta-feira, 20.01.16

Chegou à Fajã na companhia duma tia. Sublime na sua elegância, desdenhosa nos seus procedimentos, outorgante na sua solicitude, Joana, para além de bonita e elegante, irradiava simpatia, carinho e beleza. Os cabelos ligeiramente louros e soltos, rosto fino e perfumado de brancura e transparência, e os olhos de um verde acastanhado, ocultando uma timidez translúcida e uma comunicabilidade indefinida. A cobrir-lhe o corpo um vestido de chita, deixando-lhe os braços nus, o que permitia adivinhar retalhos de um corpo delicado, macio e melífluo, pese embora uma blusa de seda lhe caísse dos ombros a simular decoro. A excelência personificada.

A tia Gertrudes era dos Cedros e casara na Fajã. Conhecera o marido num abril em que o Carvalho, totalmente impedido de fazer serviço em Santa Cruz e nas Lajes rumara a ocidente, ancorando na ampla baía da Ribeira das Casas. Gertrudes regressava do Faial, onde fora consultar médico. O desembarque no Cais era precário e meticuloso. Além disso fez-se quase à boquinha da noite. Foi pelo homem que lhe deu a mão a fim de que saltasse para terra em segurança que Gertrudes se apaixonou. Sozinha, em cima do Cais, sem alguém que a ajudasse e sem saber como regressar aos Cedros, foi acolhida em casa duma família generosa. Eram os pais do Lizandro, o homem a quem se apoiara ao saltar do gasolina para terra. Deram-lhe ceia e dormida. No dia seguinte Lisandro, com beneplácito dos progenitores, acompanhou-a na longa e difícil viagem até aos Cedros, subindo a Rocha e atravessando os matos durante quase um dia. Um ano depois casaram.

Gertrudes, para além de tia, era madrinha de Joana. Desde de tenra idade que a garota se afeiçoara a ela e Gertrudes tratava-a como se fosse filha. Ao deixar os Cedros e ao fixar-se na Fajã, não podia separar-se da pequena por quem tinha tão grande amizade e a quem disponibilizava um enorme carinho. Com a anuência da irmã e do cunhado trouxe-a consigo.

Na Fajã, no entanto, Joana vivia numa monotonia rotineira, desinteressante e quase odiosa. Não conhecia ninguém. Além disso, a tia Gertrudes, muito ciosa da menina a fim de que nada lhe acontecesse de mal e não se metesse em confusões, bem a acautelava, impedindo-a de sair de casa e de se integrar em tudo o que acontecia na terra, de inesperado ou de normal. Apenas aos domingos saía para a missa. De resto, passava os dias fechada em casa, olhando por detrás das vidraças as pessoas que transitavam na rua. A princípio como não as conhecia não identificava quem quer que fosse, mas com o tempo foi-se habituando a rostos e feições que depois, em cada domingo, confrontava e confirmava à entrada e saída da igreja. Passado um ano conhecia toda a freguesia.

Foi o Carlos Salema que lhe mudou o destino. Sempre aprumado e correto, trabalhador e honesto, passava na Assomada, onde ficava a casa do Lizandro, todos os dias, de manhã e à tarde, nas idas e vindas para as terras do Outeiro Grande, do Espigão e da Cabaceira. Passava, parava e voltava a passar e a parar vezes sem conta. O Alexandre Pereira deu pela excentricidade do garrano. Revoltou-se. É que não gostava nada de o ver plantado, todos os dias, em frente à janela. Também ele apaixonadíssimo pela moça, roía-se de inveja e ameaçava, muito embora reconhecesse a vantagem do Salema. Mas, no fundo, sobrava-lhe uma resta de esperança.

- Se ela me visse… Se falasse com ela… Se lhe abrisse o meu coração… Se lhe contasse quanto a amo… Se tivesse oportunidade de ela me conhecer… Outra galo cantaria… - Matutava consigo próprio o primogénito do Pereira, à espera de um encontro com a amada enclausurada. Não sabia como. Mas qualquer maluqueira lhe havia de passar pela cabeça.

Depressa o Salema soube da cobiça do Pereira. Pegaram-se de unhas e dentes na tarde da festa da Casa de Cima, precisamente no dia em que pela primeira vez a tia Gertrudes, abrindo uma brecha no seu persistente carracismo, deixara Joana sair de casa para ir à festa. Ambos viram a moça e, com gaudo e entusiasmo, tentaram aproximar-se e meter conversa. Mas antes que chegassem junto da protegida de Gertrudes, sem que ninguém o previsse, pegaram-se, atirando-se um ou outro com unhas e dentes, como cães raivosos. O burburinho foi tal que os cabeças tiveram que parar as sortes que ainda nem iam a meio. As mulheres gritavam, as crianças tremiam de medo e os homens hesitavam desapartá-los. Uma garreadela como nunca se vira na freguesia. O Salema, de camisa rasgada, sangrava, a jorros, pelo nariz e o Pereira, nu da cintura para cima, tinha um olho negro e inchado como um coicelo.

Foi o regedor que veio por termo à peleja. Que parassem imediatamente, senão dava-lhes ordem de prisão. Iam os dois direitinhos bater com os costados na cadeia da Vila.

A bufar como cavalos depois uma corrida, a arfar como uma junta de bois após lavrar um cerrado, retiraram-se cada qual para seu lado. O Salema para a Tronqueira o Pereira para a Assomada. Mas terminada a briga começou o mexerico. Uma menina tão requintada, tão guardada, tão enfiada em casa, tão protegida pela titia, arranjava um sarilho daqueles, metia-se em tão grande alhada? Ela era a culpada de tudo aquilo. Pois não havia de ser? Havia mesmo quem jurasse a pés juntos que a vira piscar o olho ora a um ora ao outro. Era uma boa peça a menina da GertrudesUm grande coirão, era o que ela era. Uma desavergonhada que viera para a freguesia só para inrediar!

Nesse mesmo dia chegou tudo aos ouvidos da tia Gertrudes. No dia seguinte o Lizandro foi levar Joana aos Cedros, a casa dos pais e, no Carvalho seguinte, partiu para Lisboa para um convento onde tinha uma tia freira que, algum tempo depois, através uma benfeitora do convento, muito de igreja e muito religiosa, lhe arranjou emprego numa das mais conceituadas farmácias da capital.

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