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A MARIA DA LUZ

Sexta-feira, 18.03.16

Vinda das Lajes, na década de cinquenta, chegava à Fajã Grande, com alguma frequência, normalmente para vender peixe, uma mulher estranha e muito diferente, nos hábitos, nos costumes e no vestir, das mulheres que viviam não apenas na freguesia da Fajã Grande mas também em todas as outras freguesias da ilha das Flores. Chamava-se Maria da Luz, vestia habitualmente calças, fumava, entrava no botequim da Chica ou na Loja da Senhora Dias e, no meio dos homens e acompanhada por eles, bebia um copo de vinho, de traçado ou de aguardente como qualquer homem, o que, obviamente, provocava grande escândalo entre o mulherio de então, proibido consuetudinariamente de entrar num botequim, de usar calças e de fumar. Uma verdadeira guerreira, uma mulher de armas esta mulher, de cabelo encarolada, cara enrugada, rosto moreno, estranha nos seus hábitos mas muito simpática, a dar-se e relacionar-se com todos, pese embora as mulheres tivessem, relativamente a ela, alguma reserva.

A Maria da Luz nascera na da Fazenda das Lajes das Flores, onde tinha residência mas desenvolvendo a sua atividade profissional de pescadora e vendedora de peixe na vila das Lajes, onde mais tarde também passou a residir. Apesar de analfabeta, sabendo apenas assinar o seu nome, a Maria da Luz revelava grande dinamismo, inteligência e capacidade de trabalho o que lhe permitiu atingir, com sucesso, os objetivos que a si própria impusera, impondo-se como trabalhadora incansável, dedicando-se desde muito jovem, não tanto aos trabalhos domésticos das mulheres, mas sobretudo aos trabalhos rurais dos homens e, muito concretamente, à pesca.

Segundo o historiador florense José Arlindo Armas Trigueiro, a Maria da Luz Para além de fumar desde jovem, vestia geralmente roupas de homens – numa altura em que eram poucas as mulheres açorianas que ousavam fazê-lo publicamente. Frequentava qualquer tipo de taberna, bebendo lado-a-lado com os homens, sobretudo depois de se separar do marido. No seu tempo as mulheres, para além de não fumarem, não tomavam bebidas alcoólicas, nem frequentavam cafés e muito menos tabernas.

Dela o escritor faialense, Manuel Graeves – que viveu temporariamente nas Flores – para evidenciar a sua força e teimosia, escreveu o seguinte no seu livro Aventuras de Baleeiros:

E certo é, também, que [o mar] não venceu arrancar de cima dum bico de rocha, numa tarde, as mãos fortes, pegadas a uns músculos rijos, de Maria da Luz, quando andava às lapas, na costa da Fazenda das Lajes das Flores. A corajosa mulher, agarrada ao rochedo, praguejava às vagas violentas que a cercavam:”

“ - Ó alma do diabo! Tu serás mais forte do que eu... mas, não és mais teimoso!...”

“E a Maria salvou-se.

 Sobre ela escreveu ainda José Arlindo Armas Trigueiro, seu conterrâneo:

Foi casada com o fazendense Francisco Rodrigues Azevedo. Do casal nasceram as filhas Jesuína (já falecida), Alzira e Judite, pelo que era ela que, com esmerado zelo e amor, cuidava da sua educação, ao mesmo tempo que se esforçava pela manutenção da vida económica do seu lar. As filhas, depois de casadas, viriam a emigrar para o Canadá, na companhia do pai, onde actualmente residem e onde também existem netos que ela adorava.

Durante a sua vida passou por diversas actividades. Com a ajuda do marido, lavrava os seus terrenos, semeava e tratava do milho e das demais culturas agrícolas, ordenhava vacas, transportava às costas lenha e alimentação para os animais, alternando essas trabalhos com a actividade da pesca. Recordo-me que foi ela quem me ensinou a lavrar, no Cerrado Grande, com arado de “aiveca”, numa altura em que, devido à minha juventude, meu pai não tinha paciência para me deixar “dar um reguinho” – orgulho de qualquer jovem rural do meu tempo.

Certamente para facilidade do trabalho que fazia começou a usar calças de homem desde jovem. Por esse motivo dava nas vistas, constando que, por essa razão, chegou a ser detida pela polícia na ilha Terceira, no tempo em que eram proibidos os “travestis” na via pública, valendo-lhe então o Chefe da PSP, António Gonçalves, também ele um florentino natural de Lajes das Flores que muito bem a conhecia.

Nunca a vimos usar saia, salvo no dia da festa religiosa por ela custeada, na freguesia da Fazenda, no cumprimento anual de uma promessa. Vestia-se assim para nesse dia ir à igreja assistir às cerimónias religiosas que nela se realizavam – fazendo-o com o respeito e a devoção que sempre tivera pela religião Católica.

Mais tarde viria a fixar residência na Vila de Baixo, em Lajes das Flores, mesmo junto do Porto, onda se dedicava quase exclusivamente à pesca e à venda de pescado. A lida da casa aborrecia-a, embora por vezes fosse forçada a fazê-la. Para poder ir legalmente para o mar, as autoridades marítimas chegaram a passar-lhe uma cédula pessoal, já que sua actividade piscatória era essencialmente feita por mar, com uma lancha que chegou a possuir.

Discutia com os companheiros de pesca e com quaisquer homens sobre os problemas e as notícias do dia-a-dia, já que era possuidora de um espírito curioso e contraditório, dedicado a todo o género de actualidades.

Geralmente não tinha interesse pelas conversas das mulheres, situação que fazia com que estas lhe respondessem de igual forma. Animava-se com as discussões que mantinha, parecendo provocá-las para aprender e saber mais.

Odiada por uns e tolerada por outros, tinha especial vocação para se envolver em questões judiciais e polémicas. Era também uma grande frequentadora, como assistente, dos julgamentos realizados no Tribunal das Flores. Certamente por esse motivo livrava-se bem das questões judiciais, que gostosamente provocava, defendendo-se nelas com astúcia. 

Apesar de ser temida por alguns, pela sua falta de rigor e pelo seu feitio polémico, em certas ocasiões, era, contudo, muito caridosa e prestável para servir os amigos e todos os que dela necessitassem.

Por ser uma figura atípica, com uma vida cheia de peripécias, foi das poucas açorianas e açorianos que teve o privilégio de ter estado em Lisboa no célebre programa da televisão “Carlos Cruz-Quarta feira” onde foi falar sobre a sua forma de estar na vida.

Faleceu em 31 de Março de 1998, no Hospital das Flores, estando os seus restos mortais sepultados no cemitério de Lajes das Flores.

Uma verdadeira heroína esta Maria da Luz e uma percursora da mulher moderna.

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