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A MATANÇA

Domingo, 06.12.15

O dia que Júlia mais adorava era o da matança do porco. Nesse dia nem ia à escola. A mãe preparava tudo com muita antecedência. A enorme salgadeira, os alguidares, os caldeirões, as selhas e as panelas, tudo era muito bem limpo e lavado. Na véspera, Júlia ajudava a mãe a descascar uma enorme quantidade de alhos, a picar as cebolas de rama, destinadas às morcelas e a salsa, a arranjar os temperos e a preparar as toalhas branquinhas, enquanto o pai aprontava a palha e o mato para a chamusca, serrava e fendia a lenha, secava a cerca e amolava as facas e o serrote. Mas era sobretudo durante a tarde, a prolongar-se até altas horas da noite que a mãe, com a ajuda da tia Augusta, se estafava a cozer o bolo e os inhames, a assar as batatas-doces e a preparar o peixe, a carne de ovelha, o feijão para assar no forno, as lulas e outras iguarias. À tardinha Júlia nunca se esquivava de ir com o pai à adega buscar dois ou três garrafões de vinho.

No dia da matança, logo de manhã, ao lusco-fusco, a casa enchia-se de gente. Vinham os tios, os primos, os avós dos Cabeços, alguns vizinhos e até um amigo do pai que morava na Madalena. Todos desejavam ajudar e eram recebidos com muita alegria. Os homens, mesmo sendo madrugada e estando em jejum, não se furtavam um traguinho de aguardente ou de traçado. As crianças ficavam-se pelos figos passados e as mulheres embrenhavam-se, de imediato, a colaborar nas lides da cozinha, amassando as cebolas e preparando as refeições. Pouco depois, ainda antes de clarear por completo, os homens aproximavam-se do curral, apreciando o suíno, avaliando o seu peso e qualidade, ao mesmo tempo que enrolavam uma ou duas pitadas de tabaco numa folha de casca de milho, transformando-as em cigarro que iam acendendo, sucessivamente, uns nos outros. Pouco depois chegava o Senhor Joaquim, o matador que o pai contratava todos os anos e que trazia umas facas enormes. Juntamente com o pai e os outros homens saltavam para o curral, agarravam o cevado, amarravam-lhe as pernas e punham-no em cima duma tábua apoiada sobre dois enormes cepos de madeira, simulando uma mesa. Júlia, de longe, apreensiva e cheia de medo, tapava os ouvidos com ambas as mãos para não ouvir os gritos de aflição que o porco emitia ao ser apanhado e, sobretudo, quando lhe espetavam a faca. A mãe, de avental novo ao peito, aproximava um alguidar do pescoço do porco e enchia-o com o sangue que se esvaía a jorros do buraco que lhe havia feito a faca certeira do senhor Joaquim. De seguida juntava-lhe umas gotas de vinagre e misturava as cebolas picadas, a sala, os alhos e os outros temperos. Mais atarde havia juntar uns bocadinhos de gordura da barriga. Era com este preparado que se haviam de encher as morcelas.

Os homens, depois de tomar mais um traguinho, iniciavam os trabalhos. Primeiro chamuscavam com as vassouras de palha e mato todo o pelo do porco que, de seguida era muito bem lavado e rapado. Com baldes de água e sabão azul o suíno era lavado e depois esfregado com pedras e escovas até ficar totalmente branquinho e limpo que era um regalo. Era ao senhor Joaquim que, com um enorme facalhão, abria o porco traçando-lhe um enorme corte desde o focinho até ao rabo. Todo encharcado em sangue, retirava-lhe o fígado, os bofes, o coração, as tripas e a bexiga. As tripas eram embrulhadas em panos, de maneira a não secarem, a fim de que mais tarde fossem muito bem lavadas. O fígado era cortado em bifes muito bem temperados e a bexiga era a alegria dos primos que a enchiam de ar, jogando com ela como se fosse uma bola de futebol. Chefiadas pela tia Augusta um grupo de mulheres atiravam-se às tripas, descosendo-as da gordura com muito cuidado para que não rompessem, separando-as, a fim de se proceder à sua rígida, cuidadosa e exigente lavagem, com água, sal, farinha de milho e limas azedas. Júlia, embora temerosa e apreensiva, ajudava em todas estas operações. As tripas grossas, assim como o bucho, eram cheias com o preparado das morcelas. As outras guardadas para as linguiças. Os bofes, o coração e uns pedacinhos de carne da barriga eram guisados com batata branca, e, juntamente com as sobras do almoço, constituíam a ceia. De tarde, os homens, enquanto esperavam que o porco arrefecesse, jogavam ao truque e à sueca. Mas a mesa não se levantava e, já pela noite dentro, entre jogos de cartas e copos de vinho, provava-se a morcela. Entre folguedos e cantigas todos eram brindados com vinho e comida, onde não faltava a saborosa morcela. Por fim e antes de partir, quase todos voltavam a tomar mais um traguinho.

- Este é p’ra a viagem. – Dizia o pai de Júlia, batendo palmadinhas nas costas dos que apresentavam sinais de terem bebido um pouco mais.

De tarde, o pai, com a ajuda de outros homens, havia pendurado o porco, pelo focinho, a um tirante na loja, tendo-o aberto nas costas, de cima para baixo e espetado umas canas atravessadas que mantinham o interior do animal aberto, a fim de o enxugar. Por baixo fora à Júlia, sempre disposta a ajudar, que o pai pedira para colocar, por baixo, a selha pequenina, a fim de aparar os restos de sangue e água que escorriam do interior do animal. Quando anoiteceu por completo, o pai trancou muito bem a porta, não fossem os gatos entrarem e atirarem-se ao porco, na calada da noite.

No dia seguinte, voltaram apenas os parentes mais íntimos. A mãe quase nem se deitara. Passara toda a noite a lavar, a varrer, a limpar, a arrumar e a preparar o dia seguinte. Ainda muito ensonada, Júlia via desmanchar o porco, parti-lo aos pedaços, separando, carne, ossos, lombos e toucinho. Algumas postas foram destinadas a presentes e uma grande talhada de toucinho foi salgada e guardada para ser arrematada no adro da igreja, no domingo seguinte. A mãe fez do lombo, os primeiros bifes para o jantar. Depois vestiu-lhe uma saia de chita, uma blusa de malha, prendeu-lhe uns lacinhos no cabelo e lá foi ela, toda contente e vaidosa, de cestinha em riste, levar um presente a casa do senhor padre, do senhor professor, a casa de quantos o pai devia favores. Separada a cabeça a mãe limpou-a muito bem e preparou-a para com ela fazer sopas, que exalavam um cheirinho a noz-moscada e a cominhos que enchia a casa e, juntamente com o fumo, saía pelo telhado e se propagava pela vizinhança. Era o manjar mais apreciado nesse dia. O toucinho foi derretido, quase na totalidade e, depois de lhe retirar a banha, transformou-se em pequenos mas deliciosos torresmos de graxa. Júlia adorava trinca-los. Uma parte da carne e os ossos foram salgados e guardados nas salgadeiras, enquanto outra foi finamente picada para as linguiças, que se haviam de encher alguns dias depois, a fim de ir garantindo, juntamente com a carne, os torresmos e o toucinho, o sustento do pai, da mãe, da irmã e dela própria, ao longo do ano.

Júlia, com alegria, ajudava a mãe em todas estas tarefas.

 

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