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A MINHA CASA

Quarta-feira, 15.06.16

Situada bem no coração da Assomada a casa onde nasci era uma das mais pobres e mais pequenas da Fajã Grande. Meu pai havia-a herdado dos seus pais que por sua vez a tinham herdado dos pais do meu avô que a haviam construído após o regresso do meu bisavô da América.

Paredes meias com a rua, no início da década de cinquenta esta pequena casa ainda tinha um pátio, destruído a quando da construção da estrada entre o Porto e a ladeira do Biscoito, junto á Ribeira Grande. Neste pátio, para além do Cepo da Lenha uma linda e bela jardineira que em cada primavera se cobria de flores vermelhas, aveludadas e fofas. A casa, embora possuísse um piso inferior ou loja, fora construída sobre um terreno desnivelado, pelo que vista de frente se assemelhava a uma casa térrea. Da parte de trás possuía dois pisos, sendo o inferior divido em duas lojas. Uma servia para arrumos e retrete e a outra, a maior, destinava-se a palheiro para guardar o gado.

No piso superior, situado à altura do caminho, o que, na verdade, lhe dava, vista pela frente o aspeto de casa térrea, existiam três divisões: A cozinha, a sala e o quarto de dormir, Este era um pequeno espaço, quase totalmente ocupado por duas grandes barras de madeira: a de meus pais e uma outra destinada às minhas irmãs. Entre ambas, apenas um exíguo e apertado espaço, onde, com dificuldade, balouçava um pequeno berço, atávico valhacouto dos nossos primeiros meses de vida e por onde eu e meus irmãos havíamos passado quando bebés. Tinha apenas uma janela voltada para a rua e a única mobília existente, para além das barras, era uma espécie de guarda fato feito de panos velhos e onde minha mãe arrumava a nossa roupa de domingo. Como o tabique que separava o quarto da sala era de madeira, este possuía alguns toros de madeira encastoados e pregados onde pendurávamos a nossa roupa de trazer. Ao lado do quarto a sala, simples mas muito clara, evidenciando-se uma enorme barra de madeira, onde eu e meus irmãos nos íamos acomodando e aconchegando, à medida que, sucessivamente, éramos desalojados do berço, por imperativos resultantes da vinda de novo rebento e que, conjuntamente com uma cómoda, duas caixas e seis cadeiras a desfazerem-se, constituía a mobília de luxo da casa. Numa das paredes e sobre uma pequena peanha havia um relógio, um belo exemplar da Ansónia Clok, muito possivelmente trazido de Nova York por meu bisavô ou por meu avô. Sobre a cómoda, em cujas gavetas se guardavam as roupas das minhas irmãs e de minha mãe, existia um oratório com pequenas imagens e um velho cruxifixo que se dizia ser colocado nas mãos moribundas de quantos antepassados meus haviam falecido naquela casa. As caixas para além de guardar roupa, tinham os caninhos onde eram colocadas linhas, agulhas, tesouras, dedais e outros apetrechos de costura e tudo o mais que não devesse estar ao nosso alcance. Para além de uma janela voltada a oeste a sala tinha uma porta voltada para a rua e que só se abria nos dias em que a coroa do Senhor Espírito Santo nos visitava ou em outras ocasiões mais solenes. Finalmente a cozinha, enorme, vetusta e esconsa, contrastando com a clareza da sala, onde o agregado família permanecia, não apenas para as refeições mas sempre que estava em casa e aos serões. À noite, era iluminada por uma candeia pendente duma trave negra de carvão e alimentada a enxúndia de galinha. Como não era forrada entrava muito vento pelas gretas do telhado o que fazia com que a chama da candeia flamejasse frouxa e titubeante, lançando no escuro uma luz ténue, baça e pouco clarificante, que até confundia pessoas e objetos. No lar onde se armazenavam panelas e caldeirões, ao lado do tijolo do bolo existiam duas grelhas sobre as quais se colocavam aos caldeirões quando o lume estava aceso Aí, habitualmente, evadiam-se brasas áscuas e rúbidas resultantes do arder dos garranchos de incensos e das achas de faia e sobre elas se coziam as batatas, se fazia a sopa, se fervia o leite e estufava o pão de milho. Para além disso uma mesa, uma cadeira onde meu pai se sentava e dois bancos para nós. Uns armários velhos constituíam o resto da mobília e era neles que se arrumavam pratos, tigelas e talheres. Debaixo do lar lenha picada, cestos de batatas e de inhames e sabugos para acender os lumes. Grande parte da cozinha era ocupada pelo forno, junto ao qual se arrumavam pás, varredouros, o balde do porco e a selha de lavar os pés.

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