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A MINHA TOUCADA

Sábado, 01.07.17

Meu pai tinha uma vaca chamada “Toucada” de que eu gostava muito. Tinha um andar elegante, um aspecto altivo e era muito mansa. Era malhada de branco e preto, mas um preto acastanhado e muito luzidio. A cabeça também era preta, com uma grande mancha branca na testa, a qual lhe valera o epíteto de “Toucada”.

Eu adorava-a e, por isso, fiquei muito triste quando o meu progenitor decidiu embarcá-la, para Lisboa, para “ ir ver os senhores de bengala”.

Mas a decisão estava tomada e a vaca entrou, de imediato, em fase de engorda. Erva fresquinha todos os dias, maçarocas de milho de vez em quando, não saía do palheiro, não se lhe tirava mais leite e, além disso, nunca mais puxou o arado ou o corção, tarefas, agora, atribuídas à Benfeita, não habituada à canga, pois era a vaca de estimação de meu pai.

O empenho na engorda da vaca, no entanto, intensificou-se excessivamente. Cuidava meu pai que, se a engordasse bem, ela valeria mais dinheiro.

Alguns dias antes da chegada do Carvalho, o Portela, de Santa Cruz, como de costume, veio à Fajã arrolar gado para o próximo embarque.

Meu pai, meus irmãos e eu abdicámos das tarefas do campo e, em ar de festa, esperamo-lo sentados à porta da sala. O homem, ao chegar, entrou no palheiro e observou minuciosamente a vaca. Apalpou-lhe as virilhas e a rabada, passou-lhe a mão sobre o dorso duas ou três vezes, abraçou-a pelo pescoço. Depois, com voz convicta perante a expectativa de meu progenitor, sentenciou: “Sim senhor! Bonito animal! Um conto."

Meu pai ficou um pouco perplexo e hesitante. Aproximou-se mais da vaca, anafou-lhe o pêlo com muito carinho, fez-lhe umas festas na cabeça e, argumentando que estava muito pesada, com o pelo  muito luzidio, pediu-lhe mais cem escudos.

Como o Portela teimasse em não dar nem mais um escudo, meu pai ainda arriscou: “Mil e cinquenta..." Mas o Portela persistia no seu carracismo e a Toucada foi vendida por mil escudos.

Na véspera do dia de vapor meu pai decidiu que seria eu a acompanhá-lo a Santa Cruz, para a embarcar. Partimos alta madrugada: eu à frente, aguentando a corda da Toucada, meu pai atrás, tangendo-a com uma aguilhada, para que ela não se atrasasse no longo caminho que teríamos de percorrer, até Santa Cruz. Ao chegar aos Terreiros, porém, a vaca já ostentava indícios de grande cansaço. Subíramos a rocha da Fajãzinha pela ladeira da Figueira, para encurtar caminho e parámos junto à  Casa do Estado. Meu pai tirou, de uma das mangas da froca que trazia ao ombro, meia dúzia de maçarocas de milho que a Toucada comeu frugalmente. Da outra manga tirou um pedaço de pão de milho e outro de queijo, repartiu-os comigo.
Terminado o bródio, reiniciámos a longa caminha até Santa Cruz. Só ao descer a Ventosa avistámos o Carvalho, ancorado na enorme baía da Ribeira da Cruz.

Quando chegámos a Santa Cruz já o Sol ia muito alto. A vila vivia um burburinho excitante e belicoso. Homens e mulheres, vindos de toda a ilha, dirigiam-se, instintivamente, para o Boqueirão. Era dia de “São Vapor”!
O Portela havia montado escritório em cima do cais, ao lado das dezenas de grades onde estavam empacotadas as latas com a manteiga que a ilha produzia e exportava. Tivemos que aguardar a nossa vez. Eu, agarrando a corda da Toucada, observava as primeiras barcaças que chegavam a transbordar com malas e passageiros. Antes da lancha atracar, de cima do cais, lenços brancos abanavam em direcção ao mar e eram correspondidos com acenar de mãos dos que vinha na embarcação. Depois, era a confusão geral: uns abraçavam-se, outros choravam e outros simplesmente cumprimentavam-se. O cais era um mar de gente, misturada com animais, caixas, caixotes e malas. Tudo o que o “Carvalho” descarregava e o que havia de carregar...

A nossa vez chegou. Meu pai aproximou-se do Portela e este puxou a corda da Toucada. Observou-a minuciosamente, como que a certificar-se de que era a vaca que, dias antes, observara. Depois, um dos seus ajudante pegou num ferro em brasa e cravou-o num dos quartos da vaca. A pobrezinha emitiu um forte rugido e começou aos coices, tentando uma fuga louca, sem que eu a pudesse aguentar. Meu pai agarrou-a e trouxe-a novamente para junto do Portela. Este depois de preencher uns papéis onde constava, entre outros elementos, a cor, o peso e o número com que a haviam marcado, soltou-a da corda que eu trazia de casa e amarrou-a com uma corda nova. Um empregado, aproximando-se, puxou-a abruptamente, enquanto ela, estranhando o novo dono e o ambiente que se vivia sobre o cais, teimava em movimentar-se. O homem puxou-a com mais força, deu-lhe uns fortes pontapés na barriga e a pobrezinha teve mesmo que andar. Começava ali o seu cruel cativeiro e a sua caminhada para a morte. Senti uma enorme dor e comecei a chorar agarrando-me ao seu pescoço. Ela também berrava, de dor e desespero, sentindo não só a violência com que era tratada mas como que entendendo a inevitável separação do seu dono e amigo. O homem aproximou-a da borda do cais, enlaçou-lhe uma lona por baixo da barriga e prendeu-a num guindaste, que de imediato a levantou, colocando-a dentro do barco onde já se encontravam muitos outros animais. Eu chorava desalmadamente...

Meu pai dirigiu-se para junto do Portela. Esperou algum tempo até que o homem lhe deu uma nota de mil escudos. Pedi-lhe para a ver. Era a primeira vez que eu via uma nota de mil escudos!...

Algum tempo depois, o barco que levava a Toucada, repleto de animais que se empurravam e atrapalhavam uns aos outros, partiu. Lá ia a minha Toucada comprimida entre dois enormes touros. O barco foi-se afastando e a mancha negra e branca da Toucada foi-se desvanecendo, até eu a perder de vista, enquanto lágrimas corriam de meus olhos, cada vez mais abundantes. Meu pai, compreendendo a minha dor e disse-me que voltaríamos pelos Lajes para comprar outra vaca.

Regressámos, pernoitamos na Lomba e viemos para as Lajes, onde meu pai comprou outra vaca. Era mansa, toda preta, com os chifres arredondados, boa de leite. Oitocentos escudos. Meu pai ficou feliz e eu triste porque a achava tão feia, comparada com a minha Toucada, que aquela hora, na abalizada opinião do meu progenitor já devia estar no Pico ou em S. Jorge.

Atravessámos novamente a ilha de lés-a-lés, com a vaca, que vezes sem conta, se recusava a andar. Chegámos a casa já de madrugada. Durante a viagem e nos dias seguintes lá me fui afeiçoando à Trigueira, (assim chamámos à nova aquisição)  mas a verdade é que nunca esqueci a minha Toucada.

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