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A MOIRATA

Sábado, 17.09.16

A Moirata era a vaca mais estimada, mais lisonjeada e mais bem tratada da freguesia. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e limpo, com um caminhar elegante e um ar terno e manso. Boa de leite e de canga, sempre pronta a encher uma lata de catorze litros, mesmo nos dias em que cansada de puxar o arado ou o corção. Campainha de sino ao pescoço, ponteiras de metal brilhante nas pontas dos chifres, encaracolados e bojudos, a Moirata assemelhava-se a uma princesa. Um maravilhoso prodígio da natureza!

A Moirata nascera e fora criada no palheiro do Ti’António Balaio. Mal viera ao mundo, o velho logo se apercebeu de que da bezerra, se havia fazer uma bonita gueixa e da gueixa, uma boa vaca leiteira, de que muito se havia de ufanar. Não se enganou, o velhote. Ainda muito nova, a Moirata pariu a primeira cria - um lindo bezerro - e o leite a transbordar duma lata de dez litros. Na segunda catorze, na terceira dezasseis. Um luxo!

Mas a Moirata também cedo se habituou à canga e ao trabalho. Nunca virara a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao acarretar da lenha, dos fetos, incensos, cana roca ou estrume para os campos. Ainda Abril não ia a meio e já ela calcorreava o cerrado do Areal, de ponta a ponta, puxando o arado ou a grade, uma duas, três vezes. A primeira lavra era a mais árdua e desgastante. Exigia o arado de fero e, muitas vezes, a Moirata o puxou de canguinha. A terra coberta duma camada de estrume que ela havia carreado dias-a-fio, tornava-se muito rija e dura com os rigores climatéricos do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes, que perfuravam a terra em grandes sulcos, virando grandes leivas e torrões. Ela porém lá ia, pacientemente, sozinha, umas vezes sob as vergastas do dono, outras com as palavras de incentivo, lutando contra a força opositora da terra rija, rasgando-a em regos sulcados pelo arado. Eram horas e horas de trabalho, de cansaço e de sofrimento. No fim ficava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caí em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. Ti António Balaio, apercebendo-se do estado de fadiga da pobrezinha, para a aliviar e reconfortar, passava-lhe a mão pelo lombo, anafava-lhe os pelos, fazia-lhe festas e carinhos e dava-lhe umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste. Depois do merecido descanso, seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões. Ti António Balaio encangava-a à grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Moirata, coitada, ela e sempre ela, voltava ao cerrado. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve do que o de ferro e que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. O dono voltava a atrelá-la ao arado e ela traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do cerrado. A Clotilde, a mulher do Ti Antóno Balaio, ia atrás e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros, como se fossem soldadinhos numa parada militar. Cada rego fechava-se com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho, pois esperava-a de novo a grade, porque a terra devia ser alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

Passadas umas semanas, porém, a Moirata consolava-se com as sobras do desbaste do milho já crescidote e, mais tarde, com as espigas e no Inverno com a rama seca, misturada com a erva fresquinha que lhe Ti António Balaio lhe ia buscar, todos os dias, de madrugada à lagoa das Covas, ou com os incensos que acarretava da Cabaceira ou com couves e rama de batata-doce que lhe trazia das Furnas.

Um dia a Moirata envelheceu… Abalroado por uma enorme tristeza, Ti António Balaio foi obrigado a tomar uma das mais dolorosas decisões da sua vida – vender a sua Moirata, a fim de ser embarcada para Lisboa! Afeiçoara-se muito a ela, e custou-lhe muito, tomar aquela decisão. Só Deus soube a dor que sentiu, quando em cima do cais de Santa Cruz, se despediu dela. Agarrou-a pelo pescoço e chorou que nem uma criança.

Foi a Formosa, filha da própria Moirata, já feita gueixa que a substituiu, no palheiro de Ti António Balaio. É verdade que também era boa de leite, forte de canga, é verdade que também era dedicada e mansa, bela e elegante, mas a verdade é que o Ti António Balaio nunca se esqueceu da sua Moirata.

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