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A NINHADA

Segunda-feira, 25.01.16

O galo Delfim andava numa aflição desmesurada, num tormento incontrolável. Desde há algum tempo que vivia os mais tristes e amargos dias da sua vida. A galinha Codorniz, a sua amada e predileta entre todas as galinhas da cerca da Senhora Mariana, havia desaparecido.

Ao princípio ainda cuidou que fosse uma aventura amorosa, uma loucura momentânea, um salto esporádico à capoeira da vizinha para um encontro desavergonhado com aquele maricas que era o galo do galinheiro ali ao lado – um badameco que nem cantarolar sabia - como fazia, vezes sem conta, a atrevida e doida da Cor-de-Pomba. Uma desavergonhada que o traía com frequência e o atraiçoava sem escrúpulos! Mas a Codorniz, não. Para além de amiga, fora-lhe sempre fiel.

Séria, trabalhadora e ajuizada, aquilo fora amor à primeira vista. Desde o dia em que a senhora Mariana o comprara à Mariquinhas do Engenho e o atirara abruptamente para a cerca, que simpatizara com ela. A simpatia foi crescendo, crescendo e de recíproca que era, depressa se transformou em amor e este em paixão. Eram os dois enlaçados dia e noite em acervos amorosos e as outras, coitadas, à espera de oportunidades que, devido à pertinácia da Codorniz, rareavam.

Agora estava ali, mais do que triste, preocupado e sem saber o que fazer. Mas tão longa ausência não era, por certo, um simples salto ao galinheiro da vizinha. Ali, havia marosca e da grande. Oh! Se havia… Andando para trás e para diante como um tolo, saltitando para aqui, pulando para acolá como um labrego, barbela murcha que nem úbere de vaca seca, abanando as asas e esticando a perna esquerda aqui, a direita acolá, como se estivesse derreado, o galo Delfim definhava, dia após dia. Não comia, nem dormia. Levantava-se do linheiro, alta madrugada mas já nem conseguia encher os pulmões e atirar, por entre as brumas matinais, a sonoridade inconfundível do seu belo canto.

E o galo Delfim definhou por completo, quando, açulado pelo passar inequívoco dos dias, concluiu que aquilo só podia ter sido faca e alguidar. E, nada mais fez do que chorar e entrar num nojo assumido. A galinha Codorniz, por certo e seguro, havia ido parar ao caldeirão da sanguinária senhora Mariana. Perdera para sempre a sua bem-amada. As outras galinhas, manifestando disfarçadamente alguns laivos de contentamento, bem o tentavam demover da sua consumição, com festanças, cacarejos e provocações. Mas ele nada. Piorava de dia para dia.

Longe dali, na sua loja, a senhora Mariana havia colocado resmas e resmas de palha dentro de um cesto velho, anafara a última camada de forma a fazer uma espécie de linheiro muito fofinho e confortável, colocara-lhe dentro meia-dúzia de ovos, dos melhores que tinha e espetara-lhes, em cima, a galinha Codorniz, completamente choca, a arder em febre. Ao princípio a desnaturada ainda esvoaçou, estrebuchou, cacarejou e bateu as asas como que a querer sair dali, lembrando-se da ternura, do carinho e do amor do galo Delfim, que não via há dois dias. Mas mal sentiu a suavidade suplicante dos ovos, a pedirem-lhe que os aquecesse, acomodou-se com jeito sobre eles e encheu-se de ternura, com modos de galinha genitora.

E, passados, vinte e um dias, para gaudio da senhora Mariana e felicidade da galinha Codorniz, os ovos começaram a estalar a casca e deles saíam belos e fofinhos pintos, amarelos, alaranjados e cinzentos. Uma bela ninhada! E a mãe toda vaidosa a aquecê-los, a aquentá-los, a envolvê-los debaixo das suas asas, a dar-lhes as primeiras nicas de alimento. Depressa os pintainhos cresceram, transformando em penas a penugem que, inicialmente, lhes cobria os corpitos.

Entendeu então, a senhora Mariana que era altura de os misturar com a restante capoeira. Pegou-lhes um a um e lá os foi deitando na cerca, juntamente com a mãe que, preocupada em os defender das nicadas das invejosas das outras galinhas, nem se apercebeu da alegria e do contentamento do seu galo Delfim que, ressuscitando por completo do marasmo em que jazia, corria, como doido, de um lado para o outro, sem acreditar no que via. Parecia-lhe um sonho. Só mais tarde, quando já mais calmo e crente, se aproximou da mãe que, orgulhosa, lhe foi apresentando os filhotes, um a um, acreditou que, afinal, não estava a sonhar.

E na madrugada seguinte, todo contente, o galo Delfim, levantou-se cedo para a cantoria habitual, que, desde há muito, havia cessado. Não o fez sozinho. Ao seu lado estava um franganote, altivo e elegante, de cor de codorniz, que embora com uma voz ainda frouxa e trémula, lá ia imitando o cantar do seu progenitor.

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