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ADOREMOS COM AFETOS D’ALMA

Domingo, 08.05.16

A sala era pequena, mas muito branca e iluminada. Num dos cantos o altar sobre o qual fora colocada a coroa de prata com o cetro. Ao lado, encostadas à parede e semi desfraldadas as bandeiras vermelhas debruadas a amarelo e branco com desenhos representando os símbolos do Paráclito. Coberto com toalhas branquíssimas, enfeitado com rosas, lírios e sécias, iluminado com velas acesas, o altar resplandecia em brilho, simplicidade e fé. A sala estava repleta e comunicava com o pátio por uma porta amplamente escancarada. Cá fora o povo apinhava-se, cochichando as últimas do dia. Lá dentro o silêncio entrecortava-se com o lampejar titubeante das velas e com o adocicado cheiro das flores.

Às nove em ponto Tia Laura, acolitada pela Deolinda do Chibante e pela Amélia, a filha do mordomo. iniciou a cantoria do terço em louvor do Divino, depois do foguete estalejar nos ares pelas mãos do Silvano. Todos se benzeram e persignaram. Até os homens que enchiam o pátio, a cozinha e o corredor.

- Adoremos com afeto de alma, o Espírito Santo Divino! – Cantavam as três mulheres.

Logo um coro de vozes abruptas e pouco sincronizadas redarguiam:

- Que dos céus descendeu sobre nós, ó incêndios de amor divino.

As três mulheres insistiam e o coro voltava a retorquir. Dez vezes com a mesma música e a mesmas invocações. Outras tantas vezes quantas as Ave Marias de cada mistério do Rosário da Virgem Maria. Ao chegar à décima, Tia Laura que ia contando as invocações pelas camândulas de um terço acastanhado, dava sinal de mudança, levantando o braço bem alto para que todos vissem. As mulheres, sobretudo as mais atentas, alteravam, de imediato, a cantoria:

- Glória ao Pai que nos criou, glória ao Filho que nos remiu!

Os homens não se faziam esperar:

- Glória ao Spirito San, que em suas graças nos concebiu! 

Depois, unindo todas as vozes, as da sala, do corredor, da cozinha e dos pátios:

- Fazei ó Santo Espírito, a Deus Pai, Filho, amar. A um só Deus em três pessoas, no Céu pra sempre adorar. E logo continuavam, agora alterando a ordem das invocações.

No fim do terço, todos juntos iniciavam e cantavam a Salve Rainha. Depois, com profunda intensidade e comoção de voz, cantavam, três vezes: Senhor Deus de Misericórdia/Virgem Mãe de Deus, rogai por nós. A Florinda voltava a assumir a presidência, oferecendo Pai-Nossos sucessivos, que eram rezados por todos: pelos irmãos falecidos e pelas intenções do mordomo. O Terço terminava com o “Oferecimento ao Divino Espírito Santo”, durante o qual cantavam: Ó Senhor Espírito Santo/Nós roguemos com clamor/Mandai oprimir à terra,/Que não haja mais tremores. Sois pai de misericórdia/Livrai-nos de todo o mal/Não castigueis com tremores/Esta ilha de ofendal. Não desprezeis a fé grande/Com que nós recomendamos/Fazei como Pai Divino/Naja que nós o merecemos. Barca onde embarcou Cristo/Na galera tão real/Feita em tão bela hora/Para aquele general. À popa leva sentado/Santo António com seu véu/Que rica viagem de anjos/Leva Jesus para o Céu. Senhor que lá estais em cima/Nesses Céus de alegria/Vos peço que nos chamais/Para a Vossa companhia. Andavas tão vigiado/Sem saberes da partida/Morte de uma ocasião/Vida nova vida. Chega-te à confissão,/Se te queres confessar/ Morte da ocasião/ É o laço do pecado. Mil vezes cada dia/ Tua alma com diligência/ Toma paz e alegria/Que é da boa consciência. Quando Deus formou a terra/Bons e maus Deus os criou/Quando nos Céus se encerram/Só os bons Deus os guardou. Ó Senhor eu vos ofereço/Esta nossa devoção/Seja honra e glória Vossa/Para nossa devoção.”

Terminado todas estas orações o Manuel Luís, o dono da casa e mordomo nesse ano, retirando o cetro do interior da coroa, distribuía-o pelos presentes que o passavam de mão em mão. Enquanto se cantava o hino “Alva Pomba”, o cetro passava pelas mãos de todos, que o osculavam com o maior respeito, dignidade e devoção.

Era o terço cantado durante a novena de preparação para a Terça-Feira, o dia da festa do Espírito Santo, em São Caetano do Pico.

O Terço do Espírito Santo, ainda hoje cantado em São Caetano, como se cantava há quarenta e há cem anos, é, incontestavelmente, uma celebração de caris profundamente religioso e que, a julgar pelo

próprio texto, transmitido por tradição oral, remonta, muito provavelmente, aos primórdios do povoamento da ilha e aos tempos em que a mesma era abalroada por crises sísmicas frequentes e por outras calamidades, como se pode depreender de alguns dos textos cantados. O terço é constituído por cinco partes, nas quais se repete uma invocação dez vezes seguidas, sendo que a orientadora canta a primeira parte e o povo a segunda, situação que se alterna nas dez invocações seguintes. É este o texto, cantado cinquenta vezes, repartido por cinco blocos de dez invocações cada, que se diferencia do cantado noutros lugares, dali bem próximos.

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