Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



AS DESLOCAÇÕES A PONTA DELGADA

Segunda-feira, 13.02.17

Situada a oeste das Flores, encafuada entre o mar e a Rocha, a Fajã Grande, até à década de cinquenta era, sem sombra de dúvida a freguesia mais isolada da ilha. As vilas e a maioria das outras freguesias ficavam distantes e as comunicações eram muito limitadas, difíceis, sinuosas e quase inexistentes. Cortada por um inúmero caudal de grotas e ribeiras, sulcada por vales, dilacerada por grotões, os matos da ilha que separavam as várias freguesias eram muito difíceis de percorrer e, por vezes, até perigosos. Talvez por isso se recorresse muitas vezes à deslocação de uma freguesia para outra de barco. Mas as embarcações existentes, nesses tempos, na Fajã Grande eram poucas e muito frágeis. Além disso algumas freguesias nem tinham porto ou local onde pudessem acostar embarcações, por mais pequenas que fossem. Era pois muito difícil sair da Fajã Grande, mesmo que fosse numa pequena deslocação às freguesias vizinhas: a sul e mais próxima, a Fajãzinha e a norte Ponta Delgada

A Fajãzinha ficava perto da Fajã. A viagem demorava menos de uma hora. Além disso, o caminho por onde se circulava – o antigo Caminho da Missa – era relativamente bom e nele até podia circular, à vontade, um carro de bois, mas, apesar de tudo, as deslocações aquela localidade muitas vezes, sobretudo no inverno e em dias de muita chuva, eram muito difíceis e até totalmente impedidas, devido ao enorme caudal da Ribeira Grande, cujas frágeis pontes iam sendo sucessivamente destruídas. Aliás estes obstáculos impediam a deslocação quer às Lajes quer a outras freguesias ou localidades mais próximas: a Caldeira, o Mosteiro, o Lajedo, o Campanário e a Costa. Eram por ali que circulavam os carros de bois com as parcas mercadorias para a freguesia, a maleira, os mulos que levavam a nata ou a manteiga, assim como as pessoas que saiam ou chegavam da ilha, vindas sobretudo da América As deslocações a Santa Cruz e aos Cedros eram feitas atravessando os matos, depois de subir a Rocha.

Pior, porém, eram as idas e vindas a Ponta Delgada, a freguesia mais próxima da Fajã, no que ao norte dizia respeito.

Até à Ponta o caminho era bom. Atravessava-se a Tronqueira, descia-se o Calhau Miúdo e percorria-se a Ribeira das Casas e as Covas até à Ribeira do Cão. Chegava-se assim às primeiras casas da Ponta e, atravessando a rua principal, tinha-se acesso fácil até à Rocha, já para lá da igreja da Senhora do Carmo. Aí começavam as dificuldades. Primeiro era necessário subir uma estreita e sinuosa vereda, desenhada em ziguezague nos contrafortes da rocha, sobre o mar. Sítios existia em que a vereda se situava mesmo sobre o mar, em terríveis e temíveis precipícios, constituindo, o percurso, um perigo permanente e iminente. Para além de muito estreita e íngreme o pavimento era bastante irregular, ora encravado em frágeis degraus de pedra solta, ora esculpido em socalcos de terra maleável e, de vez em quando, atravessado por pequenos veios de água e de charcos ou lameiros. O perigo de cair ao mar era eminente. O risco de ser tolhido por quedas de pedras ou de enxurradas era permanente. Talvez por tudo isso o povo atribuiu aquele alcantil o nome de Rocha do Risco ou Lugar do Risco.

Ao chegar ao cimo da Rocha, ou seja ao Risco, entrava-se no mato. Não havia veredas. Existiam simplesmente alguns carreiros que os pés dos transeuntes haviam desenhado na fresca alfombra e que atravessavam as pastagens. Além disso como estas eram vedadas, ou por bardos densos de hortênsias ou por grotões cheios de pedregulhos, sendo difícil transpor uns e atravessar outros. Durante a noite ou em dias de nevoeiro, o perigo dos transeuntes se perderem era muito provável. Além disso ainda havia que atravessar os caudais de algumas ribeiras onde não existiam pontes. Eram os casos das ribeiras da Francela, que corria na direção dos Fanais, a de Monte Gordo, a da Bargada, a do Mouco e, já próximo de Ponta Delgada, a Ribeira dos Moinhos. Não havia pontes e no inverno tinham volumosos caudais.

E acrescente-se que muitos habitantes da Fajã Grande, para além de terem que se deslocar a Ponta Delgada com alguma frequência, se o desejassem fazer para o Corvo teriam que seguir por este abrupto acesso, a fim de tomar um barco na freguesia mais a norte da ilha e, consequentemente, mais próxima da ilha vizinha.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Fevereiro 2017

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728

GEOCLOCK


contadores de visitas

GEOWEATHER


contador de visitas blog

GEOCOUNTER


contador de visitas

GEOUSER


contador de visitas

GEOCHAT


contador de visitas