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AS POMBAS E O MUNDO

Sexta-feira, 11.12.15

Quando eu era criança estava condenado a ver o mundo, exclusivamente, da janela da sala da minha casa que ficava voltada a oeste. Minha mãe havia falecido há pouco e eu, apesar dos meus sete anos, era obrigado a permanecer em casa e a associar-me aos adultos a fim de, juntamente com eles, guardar o devido luto, como se isso a trouxesse de volta.

O mundo que eu observava dali era pequeno, simples e diminuto mas belo, sublime, deslumbrante e, sobretudo, repleto de pombas. À minha frente, separada das dos meus vizinhos por bardos de faias do norte e muros de basalto negro, a pequena courela onde meu pai trabalhava, semeando milho e batatas, plantando couves e cebolinho - por vezes quase tudo era devastado e destruído pelas pombas - e onde construíra o estaleiro, o cepo da lenha, o largo do estrume, o estendal de corar a roupa e os currais do porco e das galinhas. E até no estaleiro as pombas se metiam. Um pouco mais além a canada do Pico, com casas de arrumos, palheiros de gado e algumas moradias, onde viviam os vizinhos de meus pais e alguns dos meus amigos. Mais atrás a pequena montanha, raiada de verde e de silêncio, povoada de faias, canaviais e belgas de batata-doce, encastoada numa claridade azulada e maviosa, que se iniciava nas Courelas e que ia subindo muito lentamente até se perder nos contrafortes do Pico da Vigia. Sobrevoavam-na bandos e bandos de pombas, à mistura com melros, lavandeiras e tentilhões. Eram, incontestavelmente, as pombas que viviam em maioria neste meu pequeno e limitado mundo e que, consequentemente, mais prendiam a minha atenção. Ao lado da minha, a casa do meu vizinho faroleiro e, mais além, os telhados duma pequena parte do casario das Courelas, lá para os lados do Areal e que, de tão baixo que era me deixava visionar uma pequena parte do oceano, sulcado, umas vezes por enormes navios, lá longe, a delinear melhor a linha do horizonte, outras por pequenas embarcações costeiras, na safra da pesca. Mesmo em frente à porta da cozinha da minha casa, um pátio de cimento, cuja parte inferior era constituída pelos chiqueiros do porco e das galinhas. Era neste pátio que a minha irmã secava o milho novo quando o velho se acabava no estaleiro. Nos dias de sol quente, logo de manhã, varria muito bem todo o pátio sobre o qual espalhava cuidadosamente o milho que recolhia à noitinha. E eu escalonado, de vara em riste, para ali ficar, durante todo o dia a espantar e afastar as malditas pombas que, loucamente, se atiravam ao milho. No fim do dia, por mais que varrêssemos e por mais cuidado que tivéssemos ficava sempre um ou outro grãozito escondido num canto, aqui e além. Eram esses que as pombas, esvoaçando dos esconderijos da encosta do Pico, com uma avidez desmesurada e com uma incúria premente, procuravam, muitas vezes, em vão.

Ora certo dia, em que a minha irmã decidira não secar milho, assolou-me a ideia de que deveria apanhar uma daquelas pombas que atafulhavam o meu mundo. À mão, seria impossível. Eram pombas bravas, traumatizadas pelas minhas persistentes enxotadelas. Mal sentissem abrir a porta haviam de esvoaçar todas pelos ares numa correria louca. Mas decidi que havia de me vingar.

Fui à loja de arrumos que ficava por baixo da cozinha e trouxe um cesto e duas folhas de espadana. Desfiei-as muito finas e, atando os fios uns aos outros, fiz um enorme cordão. Prendi uma das extremidades à janela da sala e na outra amarrei, pelo meio, um pedaço de pau, devidamente cortado, com uma altura aproximada de três dos meus palmos. Voltei ao pátio e virei o cesto de fundo para o ar, colocando-lhe em cima uma pedra. Depois, com muito cuidado levantei-lhe, levemente a borda, do lado voltado para a janela, até uma altura igual à do pau que amarra na ponta do fio. De seguida ajeitei o cesto sobre o pau erguido ao alto, como se estivesse a calçá-lo, mantendo-o, assim, levemente levantado. Fui buscar meia-dúzia de grãos de milho que espalhei no pátio, colocando três, de forma visível debaixo do cesto. Espalhei os restantes fora, mas perto do cesto e vim esconder-me à janela agarrando o fio com ambas as mãos.

Não demorou muito. Duas pombas, acicatadas pelo milho, vieram pousar no pátio. A medo, talvez desconfiadas de tão grande esmola, foram-se aproximando do milho e do cesto. Enquanto a primeira se ocupava a comer o milho que estava fora, a segunda não hesitou. Muito lesta entrou para debaixo do cesto na mira do milho que lava estava. Com firmeza puxei o cordão, descalçando o cesto que de imediato e com o peso da pedra que tinha sobre o fundo, caiu ao chão, impedindo a pomba de sair. A outra, muito espantada fugiu. Mas a armadilha resultara em cheio.

Na minha ingenuidade de criança, cuidei que a partir de agora tudo seria fácil. Dirigi-me, novamente, ao pátio e, com muito cuidado, levantei um pouquinho a borda do cesto, de maneira que pudesse caçar a pomba sem ela fugir. Eu tentava e ela esvoaçava e esquivava-se. Nesta luta permanecemos algum tempo. De repente e sem me aperceber levantei mais um pouco a borda do cesto e a maldita: zás! Pirou-se. Saindo da prisão muito veloz, em voo picado foi pousar lá longe, juntando-se às suas congéneres, pousadas nos beirais da casa da vizinha Maria do Rosário, nos contrafortes da pequena montanha do Pico, onde tinham os seus esconderijos.

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