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AVENTURA

Domingo, 20.12.15

Quando Álvaro Belchior terminou o curso, na escola do Magistério Primário da Horta, respirou de alívio. Para trás ficavam dificuldades, desânimos e, por vezes, uma vontade quase incontrolável de desistir. Agora havia superado tudo. Os anos seguintes, no entanto, apresentavam-se incertos e atordoados com a constante ameaça da tropa e, pior do que isso, com a guerra do Ultramar. Mas custasse o que custasse, havia de singrar numa carreira profissional digna e nobre, de que ele e, sobretudo, os seus progenitores se haviam de orgulhar.

Por vontade dos pais ter-se-ia ficado pela 4ª classe, que frequentara durante dois anos. No primeiro instalara-se uma enorme confusão na freguesia e, sobretudo, na escola. É que a acentuada diminuição da população originara a que a “Escola Mista” da Fajã Grande das Flores fosse, por decisão governamental, transformada em “Posto Escolar”, perdendo o direito a professora diplomada, sendo a mesma substituída por uma regente escolar – a Dona Rita. Mas a Dona Rita nunca granjeou as simpatias da população, nem da maioria dos alunos, sendo considerada, por todos, má e antipática, excedendo-se frequentemente em repreensões exageradas, castigos excessivos e reguadas sem dó nem piedade. Álvaro foi, desde o início, a maior vítima do mau génio da Dona Rita, não pela preguiça ou desmazelo nos estudos, nem sequer pelos erros ou má caligrafia, parâmetros de avaliação em que era exímio, chegando mesmo, nas lições de cor, a ser o melhor da classe. Onde, segundo a opinião da regente, prevaricava, contínua e permanentemente, o mais novo rebento dos Belchiores, era na limpeza e arranjo do Caderno Diário. Não eram os erros ortográficos nem sequer a caligrafia – era pura e simplesmente a sujidade. Todos, na classe, primavam por uma limpeza excessiva e por um requinte desmesurado nos seus cadernos o que acentuava mais e mais a imundície e o desmazelo do Caderno do filho do Joaquim Belchior, fruto das míseras e degradantes condições da casa em que viviam. Assim o caderno diário do garoto, normalmente, se transformava numa execrável, sórdida e hedionda bodeguice, com a qual a Dona Rita nunca se compadecia e implicava continuamente, tomando-o de parte e acertando-lhe vezes sem conta, uma série de reguadas que lhe deixavam marcas nas mãos e faziam aumentar o ódio pela mestra. Além disso, a despromoção que a vinda da Dona Rita trouxe à freguesia provocou no povo uma sistemática e contínua onda de protestos e manifestações que aumentaram o ódio acentuado contra a regente. O ano escolar foi uma catástrofe! Faltas, tareias, participações, queixas, deslocações às Lajes, ao Delegado Escolar... Uma miséria!... Conclusão: no final do ano, dos quatro inscritos na quarta classe, apenas uma aluna fez o exame. Os restantes, entre os quais Álvaro, por incitamento dos pais, recusaram-se a fazê-lo, como forma de protesto e, consequentemente reprovaram, sendo forçados a repetir a 4ª classe.

Para apaziguar os ânimos e acalmar as revoltas, foi prometido ao povo que tudo regressaria ao normal e que no ano seguinte, viria novamente uma professora diplomada para a freguesia. Álvaro ansiava a sua chegada, dada a enorme vontade que tinha de completar a quarta classe. E a nova professora chegou no Carvalho de setembro. Vinha do Faial, de Castelo Branco e chamava-se Madalena. Hospedou-se em casa das Garcias, na Assomada, mesmo ali, pertinho da casa dos Belchiores. Tal vizinhança e a enorme vontade do Álvaro em completar a 4ª classe provocaram no garoto um carinho e uma amizade excessiva pela professora. Álvaro adorava-a e ela gostava imenso dele. Como morava ali perto, fora da escola, era ele que lhe fazia os recados e as compras. Para além disso, vezes sem conta, ia levar-lhe meio litro de leite ou um quarto de bolo de milho, quentinho e a fumegar, acabadinho de sair do tijolo, que a mãe lhe mandava. Ela, com ternura e carinho, solicitava-lhe, então, que entrasse e ficasse um bocadinho. Ele, embora tímido e envergonhado, aceitava o seu convite. Umas vezes ficava horas a conversar com ela, outras lendo histórias maravilhosas de livros que ela lhe aconselhava e emprestava. Mas era sobretudo na escola que o Álvaro mais a apreciava a professora. Acostumado às reguadas e ódios do ano anterior, habituara-se a uma preguiça sistemática e a um desinteresse efectivo. Agora, porém, considerava a escola um oásis de ternura e carinho a fazer-lhe esquecer as agruras e canseiras da vida. Alem disso, motivado pela doçura da D. Madalena, revelava uma vontade gigantesca de aprender tudo o que ela, de modos tão meigos e ternos, ensinava. Nunca levou uma reguada e nunca foi posto de castigo. É que a Dona Madalena aboliu a palmatória e, embora mantendo o caniço, usava-o apenas para bater levemente nas carteiras, chamando a atenção dos mais distraídos e acordando os dorminhocos. Os da quarta, nesse ano, eram oito, dado que aos três que se haviam recusado a fazer o exame da quarta no final do ano anterior se juntaram os cinco que passaram da terceira. Mas o fim do ano aproximou-se rapidamente e, com ele, finalmente o exame da quarta, nas Lajes.

Foi na viagem de regresso à Fajã, que a dona Madalena aproximando-se de Álvaro, lhe segredou:

- O Senhor Delegado Escolar deu-me os parabéns pelo brilhante exame que tu fizeste. E sabes o que ele me disse mais?

- Não sei, senhora professora, não sei.

- Pois ele disse-me o que eu já te disse tantas vezes. Uma cabecinha como a tua tem que continuar a estudar. Ouviste bem? Tem que continuar a estudar. Os teus pais já te disseram alguma coisa?

- Não senhora professora, não me disseram nada. Mas eu sei muito bem que eles não me podem pagar os estudos e precisam de mim para os ajudar nos campos.

- Vou falar com eles e vou convencê-los.

- Não adianta Dona Madalena, não adianta.

Mas a Dona Madalena não desistiu e no dia seguinte apareceu em casa dos Belchiores.

- É uma injustiça – argumentava ela – uma criança com as capacidades do Álvaro ficar-se pela quarta classe.

O Joaquim Belchior bem ripostava. Estudar é para os malandros e vadios. Vida digna é a do trabalho, ficar por aqui, na ilha, vergado ao peso da enxada ou agarrado à rabiça do arado, acartando molhos de lenha e cestos de inhames, galgando as encostas da Rocha ou transpondo as veredas dos Matos. Isto é que é vida…

Foi difícil a libertação dos entraves paternos e da oposição dos irmãos, atormentados pelas lides árduas dos campos. Mas a D. Madalena, não cessava de proclamar aos quatro ventos a inteligência do garoto. E a muito custo, com a intervenção de uma tia da América, que assumia colaborar nas despesas, foi-se demovendo o persistente carracismo do velho Belchior. Eram os irmãos de enxada às costas e foice na mão a caminho da Eira-da-Quada e dos Lavadouros e Álvaro a tomar a camioneta para Externato de Santa Cruz, que Liceu nas Flores não havia,

Terminado o 5º ano, seguiu para o Faial, com destino à Escola do Magistério, enquanto os outros, por entre protestos execráveis e reclamações improfícuas, mais se excruciavam a cavar as belgas do Mimóio ou a sachar as courelas do Areal e viam o leite mingar na tijela das sopas. Tirar o Magistério e seguir as pegadas da dona Madalena foi a escolha inequívoca de Álvaro.

Os dois anos que passou na Horta não foram fáceis. Dinheiro apenas para a pensão. Livros emprestados. Gastos supérfluos, nem pensar. Além disso, o Carvalho que chegava mensalmente das Flores e atracava à doca da Horta, trazia, juntamente com o correio e uma caixita de vitualhas diversas, uma enxurrada de ameaças:

- Olha lá se me reprovas! Acaba-se tudo!... Teu pai diz que há muitos fetos e cana roca para ceifar no Pocestinho e o cerrado das Furnas está à espera do arado e da enxada.

Nas férias matava-se a trabalhar. Os irmãos atiravam-lhe para o lombo os molhos mais pesados e os cestos maiores. O pimpolho havia de trabalhar no verão, para compensar a boa vidinha que levava durante o inverno.

Mas chegou o fim do Magistério e o concurso para professor. Como lhe segredassem que as vagas nos Açores eram poucas e, porque há muito sonhara abandonar o arquipélago, decidiu concorrer para o Continente. A Graça, a colega de curso que por ele se havia perdido de amores desde há algum tempo, bem o tentava demover, assustando-o com Trás-os-Montes e com o Alentejo, locais onde, na opinião da apaixonada, proliferavam aldeias mais pobres e mais isoladas do que o Corvo ou as Fajãs de S. Jorge.

A decisão, porém, estava tomada e nada ou nenhum argumento o demoveu.

Seguiram-se dias de ansiedade. Finalmente chegou a colocação – Terronhas.

Foi o Dr San-Bento que esclareceu. Terronhas era um lugar da freguesia de Recarei, no Concelho de Paredes. Tivera muita sorte. Uma excelente colocação. Terronhas, apesar de ser um pequeno lugar situava-se num grande e próspero concelho. Além disso ficava perto do Porto, sendo também apeadeiro da linha do Douro, entre Paredes e o Porto. Se assim quisesse até se poderia hospedar no Porto

Ao pedido do Dr. San-Bento, o Rodrigo, filho do amigo Dr Reboredo que morava no Porto, veio receber Álvaro a Campanhã, levando-o à Rua do Bonfim, onde já lhe havia garantido alojamento.

Mas só depois de se despedir do Rodrigo, quando ficou só, no pequeno quarto da Sá e Sá é que o Belarmino teve consciência que começava ali o princípio duma nova aventura no norte do país.

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