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BANDARRA E O ALMOCREVE

Segunda-feira, 08.05.17

Uma das mais fascinantes estórias que a minha avó contava eram as do Sapateiro Bandara, cujas célebres profecias, escritas manualmente e guardadas religiosamente por ela numa das gavetas da cómoda da sala sabia de cor.
Contava ela que Gonçalo Anes de Bandarra nascera em Trancoso. Era um homem simples e pobre, sapateiro de profissão, mas também um profeta e autor de trovas que deram tal brado na sua época que a própria Inquisição o chamou à barra do seu tribunal, dito santo. Esteve preso e prestes a ser queimado.
Uma dessas estórias rezava assim:
Certa vez deu-se o caso ter parado em Trancoso um almocreve, (creio que ela não sabia o que era um almocreve, mas isso também não era importante) o qual vinha de uma longa jornada por terras de além no cumprimento de fretes e serviços. Exausto e cansado o homem entrou para pernoitar na muito nobre vila de Trancoso. De tanto caminhar trazia os pés numa lástima. Um par de botas desfeitas a necessitar de conserto e meia dúzia de grossas bolhas nos pés.
Sabendo da existência, na vila, de um competente sapateiro-Remendão, depressa se colocou à porta da oficina do dito e lhe entregou o serviço. Feito este, prontificou-se o almocreve a pagar o justo valor pela prestação da obra acabada, de qualidade e asseada. Porém, Bandarra, em vez de lhe cobrar sequer um vintém, profetizou nos versos seguintes o saldo da dívida:
“Irás e virás,
Na praça me acharás
Meio dentro e meio fora
E então me pagarás.”
E não aceitou nenhum dinheiro ou outra forma de pagamento do forasteiro.
Foi-se o almocreve satisfeito por ter poupado alguns cobres e a julgar desaparafusado do juízo aquele trouxa que lhe passara recibo através de um verso mal alinhado. Sim, não havia mais ninguém no mundo que se deitasse a imaginar o que aquele sapateiro predizia com a estranha lengalenga. Não era de crer, para quem tivesse o juízo perfeito, que ele voltasse a Trancoso e encontrasse de novo o sapateiro, na praça, meio dentro e meio fora. Que coisa mais esquisita!
Por isso mesmo, depois de ter ficado varado de pasmo, nunca mais o arrieiro tornou a pensar no assunto.
Aconteceu, porém, certa incumbência de ofício fazer com que o almocreve, anos volvidos, tornasse a passar em Trancoso. Ouviu tocar os sinos a finados e tratou de perguntar sobre quem tinha morrido na terra, pois sentia, pelo pesar de quem via, ser pessoa muito querida no lugar. Logo lhe disseram que se tinha finado o sapateiro, um tal Bandarra, honrado homem de saber, poeta e profeta.
Um baque no peito trouxe à memória do homem aqueles versos aquando do conserto das botas. Desatou então a correr até à praça, onde havia uma igreja. Ao assomar à porta do templo – que lhe disseram ser de São Pedro – encontrava-se o esquife onde estava depositado o corpo inerte e frio do sapateiro. Metade dentro da igreja e metade fora dela.
O almocreve prostrou-se de joelhos e fez o sinal da cruz. Tinha finalmente compreendido o vaticínio do Bandarra.

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