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CASA COM VISTA PARA O RIO

Sexta-feira, 18.11.16

O Doutor Rafael Fernandes, um dos mais conceituados juízes dos tribunais de Lisboa, a pedido seu, foi colocado na comarca de São Romão, Reguengos de Alvaraz. Para além de possuir uma casa que herdara dos avós paternos, a uns bons trinta quilómetros da Vila de São Romão, cuidava o ilustre magistrado que ali, sozinho, numa pequena vila de um interior cada vez mais desertificado, poderia, com maior facilidade, carpir a enorme mágoa que o atingira nos últimos tempos e da qual antevia não mais se libertar.

Na verdade e desde o falecimento da esposa, inesperadamente vítima de um cancro que a atingira fulminantemente, que Rafael Fernandes fenecia como se fosse a mais frágil vergôntea de uma árvore da qual haviam retirado toda a seiva e cortado as raízes mais profundas. Amara muito a Joana, dedicara-lhe um carinho inexaurível e com ela vivera um deslumbrante e deleitoso idílio a que apenas a morte, abruta e irrevogável, pusera termo. Agora permanecia numa pasmaceira inédita, isolado de tudo e de todos, numa inextinguível e diária clausura a que apenas as horas a que era obrigado a passar no tribunal punham termo. O tribunal de São Romão e a casa de São Leonardo decerto nunca lhe haviam de mudar o destino e nunca o curariam da mágoa e da dor que o atormentavam mas talvez lhe dessem uma mais adequada e suportável oportunidade de prantear aos quatro ventos quanto sofrimento e tristeza lhe trespassavam a alma. Ali podia isolar-se, fechar-se, retirar-se, esconder-se do mundo, mais facilmente. Sabia que em Reguengos de Alvaraz ninguém o conhecia e ele próprio cuidava que nunca havia estar com disposição para conhecer quem quer que fosse.

Nos primeiros meses de vida judicial em São Romão, o novo magistrado aboletou-se numa pequena pensão, a única existente na vila. O ambiente, porém, era péssimo e a comida muito má. As horas que passava no velho quarto de que disfrutava pareciam-lhe anos. Os jornais eram raros, as revistas quase não existiam e os programas de televisão, para além dos telejornais, pouco lhe interessavam. Passava as horas que lhe sobravam e os fins-de-semana fechado no quarto, a ler. Mas os livros de que dispunha e que lhe interessavam depressa se haviam esgotado.

Finalmente, num sábado de sol e de bom tempo, farto de estar fechado no quarto, decidiu deslocar-se a São Leonardo, à casa que, por herança, ali possuía. Embora sendo uma residência de veraneio, construída pelos avós maternos, para além de possuir ótimas condições de habitabilidade desfruía de uma belíssima vista para o rio. Era uma magnífica vivenda, em muito bom estado de conservação, de dois andares, com quartos grandes e arejados, com uma enorme sala, a servir simultaneamente de cozinha, com um quarto e garagem no rés-do-chão. Mas o que de mais precioso tinha e que mais cativou o juiz de São Romão foi a admirável vista que dali se desfrutava. Isolada de outras habitações, com janelas e portadas voltadas a sul e com um belo alpendre no piso superior, alva de neve, a casa era uma verdadeira e admirável mansão. Ali, no remanso daquele cenário quase deserto mas de uma beleza rara, poderia dar aso à sua solidão, quiçá sublimando-a um pouco.

Um único problema, no entanto, obstaculizava que Rafael, de imediato, trocasse as acritudes e dissabores do quarto da Dona Pureza, em São Romão, pela casa de São Leonardo. Desabitada deste há muito, a mansão que os avós lhe haviam deixado precisava de uma profunda e eficaz barrela, a que se sentia incapaz de se aventurar. Além disso muitos móveis e cortinados necessitavam de ser substituídos e era necessário adquirir roupas de cama, algumas loiças e um ou outro utensílio de cozinha. Coisa de pouca monta, mas que exigia requinte e bom gosto. Regressou a São Romão a pensar em São Leonardo e de como havia de sair daquele imbróglio.

Alguns dias depois, apareceu-lhe no tribunal um homem que preencheu um documento onde constava ter residência precisamente em São Leonardo. Um pouco receoso, até porque nunca confundia os interesses pessoais com a atividade profissional, o doutor Rafael Fernandes pediu para lhe falar quando ele terminasse de tratar o assunto que ali o trouxera. O homem anuiu de bom grado. Que o senhor doutor dispusesse à vontade. Pretendia o meritíssimo juiz de São Romão saber se o senhor Gonçalves conhecia alguma mulher em São Leonardo que desse dias para fora, isto é, que fizesse limpeza em casas, que ele estava necessitado desse serviço e havia de pagar bem.

Bem sabia José Gonçalves que o senhor doutor juiz possuía uma casa em São Leonardo, no Caminho do Engenho, que havia pertencido aos seus avós, de quem vagamente se lembrava. Quanto a encontrar mulher que fizesse limpeza o senhor doutor não poderia ter batido a melhor porta. A sua esposa já trabalhara muitos anos como empregada doméstica na vila de Macieira e umas horas que fosse, agora que estava desempregada, seriam muito bem-vindas.

Acertou-se que no dia seguinte, após terminar o trabalho, o juiz de São Romão se deslocaria a São Leonardo, a fim de conhecer a dona Irene e de com ela acertar todos os detalhes.

- Não tem que enganar, senhor doutor. – Explicava o Gonçalves. – Ao chegar a São Leonardo, vira na primeira saída à direita, como se fosse para a sua casa. Anda uns metros e depois de passar um pequeno cruzamento, encontra, um pouco mais afastada do caminho, uma casa amarela. É a única casa amarela que existe na rua, por isso não há que enganar. Eu vou avisar a minha mulher a fim de que esteja por casa, por volta das sete horas.

- Combinado, - rematou o doutor Rafael Fernandes, agradecendo a simpatia e disponibilidade do senhor Gonçalves

 

O ford azul estacionou em frente ao portão de José Gonçalves. O juiz saiu e olhou a casa a certificar-se que possuía as características que lhe tinham sido referenciadas pelo proprietário. Um pouco a medo, andou mais uns passos, olhou ao redor e descobrindo, junto à porta da cozinha, um corsa metalizado, seguiu na sua direção, batendo levemente na porta que de imediato se abriu. Emergindo de entre a penumbra da cozinha, surgiu uma jovem de uma beleza rara e invulgar. Um rosto branco, salpicado de ternura, madeixas escurecidas sob a tez acetinada, os olhos de um castanho esverdeado a contagiarem quem os contemplasse e um sorriso, aberto, franco, terno e acolhedor. Rafael estremeceu. Aparentemente embaraçados, fixaram um no outro os olhares transparentes, aureolando-os num sorriso tímido mas recíproco. Permaneceram assim, durante alguns segundos, num balbuciar mudo e eloquente.

Por fim Rafael, tentando refazer-se do acanhamento inicial, adiantou:

- Desculpe menina, mas pelas indicações que tenho cuidei que fosse esta a casa do senhor José Gonçalves e da sua esposa, a dona Irene.

- Sim, sim. É esta – retorquiu a rapariga deixando transparecer uma leve excitação no rosto. – Vou chamar a minha mãe!

Pouco depois, subindo os degraus que davam para as traseiras da casa, surgiu uma mulher, baixa, forte, de meia-idade, cabelos já a esbranquiçarem:

- Boa tarde! Deve ser o senhor doutor, juiz de S. Romão. – Depois desculpando-se – Devia tê-lo esperado na sala. Que vergonha! Receber o senhor doutor à porta da cozinha. Lúcia vai abrir a porta da sala para receber o senhor doutor…

- Que não, que não pensasse em tal coisa. Estavam muito bem ali, que não ia demorar. Apenas o tempo necessário para combinar o que dela necessitava… - Desculpava-se Rafael, enquanto tentava fixar o nome: - Lúcia!

E ficou combinado que a dona Irene começaria as limpezas no dia seguinte. Demorasse o tempo que fosse necessário. Uma casa há tanto tempo abandonada e fechada tem muito que limpar…

Sem que fosse esperado, Rafael voltou a casa dos Gonçalves no dia seguinte. Vinha apenas lamentar-se por se ter esquecido de, na véspera, deixar algum dinheiro à dona Irene, a fim de que ela comprasse vassouras, panos, esfregões e detergentes… Lúcia não estava… Por certo que não contava com ele…

Foi a dona Irene que o recebeu:

- Não se devia ter incomodado. Não era preciso deixar nenhum dinheiro. Nem deveria ter feito uma viagem tão grande… Quando precisar alguma coisa ou necessitar de mandar um recado o senhor doutor pode fazê-lo pela minha filha, Lúcia, que trabalhava em São Romão…

- Trabalha em São Romão?! – Exclamou Rafael despedindo-se.

- Chama-se Lúcia e trabalha em São Romão… Interessante, muito interessante… - Murmurava o meritíssimo juiz no regresso à pensão da dona Pureza.

E no dia seguinte, estranhamente, decidiu voltar a São Leonardo e à casa dos Gonçalves. Lúcia tinha sido informada pela sua progenitora da visita que o juiz lhes fizera na véspera e, por isso, embora assolada por uma enorme dúvida, esperava-o ansiosamente.

 

Não sonhou em vão!... À tardinha, Rafael Fernandes regressou a São Leonardo e, novamente, bateu à porta dos Gonçalves, alegando desejar saber se a barrela iniciada pela dona Irene dois dias antes, já estaria pronta e se a casa do Caminho do Engenho já teria condições de habitabilidade. Estava farto da pensão onde vivia pelo que desejava ardentemente mudar-se para São Leonardo. Foi Lúcia que o recebeu e, disfarçando sem sucesso a sua excitação, ouvia-o silenciosa. No seu íntimo desejava que se fixasse em São Leonardo mais depressa possível. Na véspera incentivara a mãe a despachar-se com as limpezas… Mas foi a dona Irene que se apressou a intervir, esclarecendo:

- Limpinha, limpinha já está, senhor doutor… Mas as roupas de cama…as loiças… alguns móveis… não estão lá em muito boas condições.

- Amanhã é sábado! Era um ótimo dia para comprar, pelo menos o essencial. – Retorqui Rafael. - Mas não sei onde, não conheço nada em Reguengos de Alvaraz, a não ser o tribunal de São Romão, a pensão da Dona Pureza, a minha casa e, claro, a casa da família Gonçalves.

Riram. De seguida dona Irene esclareceu:

- Olhe, senhor doutor, em Macieira a Casa Viriato, mesmo no centro da vila, vende todo o tipo de roupas de cama e toalhas. E à entrada da vila há uma loja de móveis. Quanto às loiças, utensílios de cozinha e eletrodomésticos pode comprar tudo no Supermercado Terra Mar, também em Macieira. Infelizmente eu não o posso acompanhar amanhã. Mas a Lúcia tem muito bom gosto e, claro, conhece, tudo em Macieira, talvez ela não se importe de acompanhar e de ajudar o senhor doutor a comprar tudo o que necessita…

Lúcia enrubesceu o rosto. Rafael olhando-a com ternura, indagou:

- Não se importaria Lúcia de me ajudar nesta tarefa tão difícil? Ficar-lhe-ia muito grato…

Lúcia acenando afirmativamente esboçou um sorriso do tamanho do mundo, ao mesmo tempo que no seu íntimo sentia uma ânsia inexaurível misturada com uma felicidade sublime.

 

À hora combinada Rafael estacionou, mais uma vez, em frente ao portão do Gonçalves. Já o havia feito várias vezes e isso provocou um indelével mexerico na vizinhança.

- Queredo mulher! Nunca se viu tamanha pouca vergonha nesta freguesia! Há mais de oito dias que aquele homem vem a casa do Gonçalves. Não deve de ser coisa boa!...

- Olha e até já leva a tresloucada da rapariga a passear. E olha como ela vai toda apinocada! – Comentavam.

Alheio a mexericos o juiz conduzindo o ford azul olhava de soslaio Lúcia sentada a seu lado e que se havia apresentado exageradamente bela, exalando um perfume suave e doce. A viagem até Macieira, apesar de curta, foi longa e silente. Por vezes entreolhavam-se e sorriam levemente. Outras o silêncio era tal que quase se ouvia o arfar ansioso de seus corações.

Em Macieira escolheu-se a mobília mais adequada. Lúcia, numa tarde, acompanhara a mãe nas limpezas e conhecia muito bem os recantos da casa onde Rafael iria viver… Por isso prontificou-se a ajudar:

- Ali este um sofá que servirá muito bem na sala… Mais além uma poltrona… Esta cama para o quarto dos fundos… Seguiram-se as roupas de cama, alguns utensílios de cozinha e loiças… Tudo muito simples, moderno e funcional. Tudo o que o senhor doutor necessitava para recomeçar a sua vida em São Leonardo.

- Senhor doutor, não. Rafael, por favor. Aliás, se não te importas, Lúcia, podemos começar a tratarmo-nos por tu…

Lúcia enrubesceu novamente e um pouco a medo, mas num gesto de indelével simplicidade, fez um sinal afirmativo com a cabeça e, pela primeira vez, na presença dele, balbuciou:

- Rafael!

No último fim-de-semana de Abrl a casa do Caminho do Engenho estava recheada com tudo o que era minimamente necessário para ser habitada, pelo que no domingo o meritíssimo juiz de São Romão fixou-se definitivamente em São Leonardo. À noitinha recebeu a visita da família Gonçalves. Vinham dar as boas vindas ao senhor doutor trazer umas batatas, umas cebolas, meia dúzia de ovos e, sobretudo, oferecer os seus préstimos…

Ao despedirem-se José Gonçalves, em jeito de graçola, sugeriu:

- Como ambos trabalham em São Romão, podiam fazer uma vaquinha. Numa semana um levava o caro um, na semana seguinte o outro.

- Ótima ideia senhor Gonçalves, ótima ideia – Atalhou o juiz. – Se a Lúcia não se importar amanhã levo eu o meu. Depois veremos…

Lúcia, na verdade, não se importava nada.

- Será um prazer viajar na companhia do senhor doutor… do Rafael, quero dizer… - Emendou a medo.

A senhora Irene, sem que o marido notasse suspirou, disfarçando:

- Para além do mais… ela sempre poupa um dinheirinho…

 

No sábado seguinte, depois do almoço, por vontade explícita dos pais, Lúcia foi a casa de Rafael convidá-lo para vir jantar à sua casa. Não podia recusar.

Lúcia entrou. Recordava ainda a viagem no regresso de São Romão, no dia anterior. Rafael, sem que ela esperasse, estacionara o carro na berma da estrada. Alegara o esquecimento de uns papéis que lhe faziam muita falta. Talvez tivessem que regressar ao tribunal. Lúcia não se importava nada. Disfarçadamente procurou-os, debruçando-se sobre o tablier, do lado contrário ao seu. Na tentativa enganosa de o fazer, aproximou demasiadamente o seu rosto do de Lúcia e, embora a medo, beijaram-se pela primeira vez, pela segunda, pela terceira e por muitas outras.

 

A tarde foi de esclarecimentos, de desabafos, de enlevos, de juras mútuas, de projetos, de troca de afetos e de beijos. Amaram-se por entre nuvens de sublimidade em ritmos de excelência, ternura e encanto.

E quando à noitinha se sentaram à mesa em casa dos Gonçalves, sem que nada tivessem combinado entre si, exclamaram em uníssono:

- Antes de jantar temos uma coisa a comunicar-vos.

- Nada que me surpreenda – comentou dona Irene em voz baixa.

 

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