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DESCIDA AO PROMONTÓRIO DOS COXOS (EM SÃO CAETANO DO PICO)

Quinta-feira, 11.08.16

Na tarde de um dos últimos domingos solarengos de julho, desci ao mais enigmático e histórico promontório de São Caetano, quiçá do Pico, os Coxos! Há bastante tempo que não o fazia e cuidei que nunca mais voltasse a fazê-lo. Desci na companhia de alguns familiares, sob a astuta e audaz orientação do Senhor José Rodrigues, hábil pescador, exímio apanhador de lapas e que conhece aqueles e outros andurriais da rochosa e abrupta costa de São Caetano, melhor do que ninguém. A descida é íngreme, penosa, dolente, audaciosa, perturbadora e, sobretudo perigosa. Parecia que me atirava abruptamente para o abismo.

Ainda cá em cima, comecei por emergir de entre uma floresta jovem, repleta de faias, incensos, urzes, sanguinhos e paus-brancos, entrelaçados com figueiras raquíticas e abandonadas. Logo me surge, à frente, um miradouro rústico, intratado mas belo e sublime. Encontro o mar, num vai e vem contínuo e caricioso, de ondas suaves e maviosas, a baterem nos baixios, a emaranharem-se nos escolhos que do alto do miradouro avisto. O espetáculo, encafuado numa paisagem delirante, é belo, doce e transcendente. Ao redor o silêncio dos rochedos negros e o odor das figueiras a definharem, amordaçadas e perdidas entre silvados arrogantes. Apenas o mar domina o mundo, ligando-o ao universo do silêncio, quebrado pelo esvoaçar erótico das gaivotas em cio.

Muito a custo, roçando o “sim-senhor” no pontiagudo dos calhaus, agarrando-me às pontas mais ásperas e escarpadas das pedras, desço e chego ao promontório. Alcanço o mar, azul, límpido, claro e acariciador. Este mar não pode ser feito só de espuma amordaçada, nem de ondas entontecidas, nem de reflexos de raios de sol perdidos no horizonte. Neste mar há uma rigidez tremenda, uma força telúrica, jatos de lava adormecida, rochedos que as gaivotas escolheram como habitat. O mais mítico e emblemático de todos é este, metamorfoseado em promontório, a que deram nome dos Coxos, a emergir do seio da ilha, como se fosse um falo, na sua exuberância pubescente.

Já o descera e o contemplara inúmeras vezes quer como ubérrimo e fertilíssimo recanto de pesca, quer como inexaurível e indelével marco de um roteiro, sob a forma de trilho tortuoso e íngreme, mas inebriante e sonhador. Nessa altura ainda não se sentia a desertificação dos vinhedos primitivos, originais e puros. Agora tudo parece florescente, cativante e atrativo mas sem utilidade ou proveito. Emoção forte e vibrante, conjugada com a serenidade do oceano.

As lembranças envolvem-me como sonhos suaves duma história apenas contada mas que não deixa de ser verdadeira, somente por não ser escrita. Os rumores do passado reclamam ali, outrora, um cais natural, desenhado no recorte das falésias, patrocinado pela rigidez milimétrica das formas, estampado nos posicionamentos da lava basáltica. E assim, na inebriante penumbra das escarpas enegrecidas, vejo, como se existissem, vultos de homens de albarcas, calças de cotim e chapéus de palha, a subir e a descer, a carregar pipas de vinho, molhos de lenha, sacos de trigo, rolos de couro, o que a terra ressequida mas trabalhada produzia. Lá em baixo, batelões vazios, à espera de serem carregados com todo aquele entulho lávico e que depois partem na direção ao Faial: pão, vinho, bolo do forno, peixe salgado, fruta, e uma ou outra garrafa de bagaço. Tudo rasteja e se esgana por entre as pedras negras, tingidas com excrementos de gaivotas.

Nunca me sentei sobre o rochedo dos Coxos, saboreando o prazer da sua essência, ou circulando os rebordos das suas extravagâncias, mas postei-me ali, tantas e tantas vezes, sonhando como se tivesse partido para terras distantes. Para lá do oceano, há uma América imensa e sempre sonhada pelos açorianos. Há os que, prisioneiros do sonho partiram na luta por uma vida melhor. Apenas sorvem, nos momentos em que filtram o barulho das festas e o tédio do trabalho, a saudade, imensa, infinita e perene da sua ilha, o Pico.

Voltando ao promontório, onde agora me sento de caniço em riste, à espera de que uma veja se atire à moira, observo-o, na sua magnífica e vivencial exuberância. Dali terão partido baleeiras americanas, a abarrotar de fugitivos, calejados com a rudez da lava, abalroados pelo cheiro do enxofre, sufragando uma insustentável coragem de enfrentar a aventura do sonho, onde tudo é tido e possuído. Mas hoje definharam todos os sonhos nos abismos deste rochedo/promontório, onde há a magia necessária para tentar construir um futuro sustentável. A proposta, apresentada à edilidade madalenense, de ali se construir um marco turístico e histórico já foi engavetada. Cuidei que era o dono deste rochedo, que o envolvia num cometimento ousado e perturbador, que o purificava do abandono e o edificava como baluarte eterno e infinito dos meus sonhos de deficitário pescador ou caminhante perdido. Sou descendente de sonhos naufragados, destruídos pela lava dos vulcões. Sou herdeiro dos que tentam preservar as memórias não escritas, dos que decalcam a tradição, dos que despejam, em vasos de terra adubada, as lendas que se perderam ao desbarato.

Não sei se no promontório dos Coxos, existem vestígios de tesouros, colónias de recifes multicolores, restolhos de navios naufragados ou magia de destinos perdidos. Mas nas forças lávicas dos seus laredos existem lendas e memórias vivas de um passado escrito com lágrimas, embalsamado com sofrimento, galvanizado de honra e dignidade.

E se de nome ouve assim, talvez a sua génese esteja gravada na gesta dos que ali, sob o olhar e proteção de Santa Catarina que ainda hoje o espreita pela janela da sua capelinha, na vila das Lajes, subiam e desciam, vergados às estravagâncias da lava vulcânica, a coxear, não porque fossem “coxos” mas apenas e tão só, porque pareciam “coxos”, devido aos pesados carregamentos que transportavam e às íngremes agruras do trilho. Nem sempre o que parece é

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