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DIÁRIO DO ÚLTIMO DIA DO ANO

Quinta-feira, 31.12.15

Decidi que hoje me havia de levantar cedo. Ainda é noite escura mas é o último dia do ano. Revolvo-me e retorço-me na cama. Penso, imagino e sinto. Este será o último dia de mais um dos anos da minha vida. Muito lentamente adormeço. Por fim acordo e, espantada, olho o relógio. Que horror! São nove horas da manhã. Bem queria ter-me levantado mais cedo e aproveitar da melhor forma este último dia do ano. De propósito, ontem à noite, deixei levantada a persiana da janela do meu quarto. Agora entra-me um sol vivo, benfazejo e acariciador que me convida a deixar o leito. Atiro com o edredão e levanto-me de um salto. O meu corpo exala sobras do perfume do dia anterior. Lavo-me, penteio-me e renovo o perfume. Estou meio tonta ainda porque a reviver as emoções do dia anterior. O dia em que ele me veio visitar e… despedir-se. Melhor fora, pois que o dia de hoje não aparecesse com este sol, com esta claridade, com esta beleza mas que a natureza me surgisse neste último dia do ano com um aspeto mais sombrio e triste. Ele talvez nunca imaginou que, ao despedir-se, ao partir, deixasse um pesadelo e uma angústia tão grandes sobre mim.

Abro a janela. O dia está belo e maravilhoso O céu azul, o sol acolhedor, os montes serenos e discretos a ufanarem-se de um silêncio arrogante, as árvores pintadas de um verde amarelado, palpitando de alegria, os arbustos das sebes a agitarem-se, levemente, ao sopro de um vento plácido e suave, os prédios vetustos silenciosos e herméticos a contrastarem com os pequenos casebres afoitos e laboriosos. Mais ao longe vejo a torre duma igreja e ouço os sinos a badalarem num reboliço festivo. O céu, as árvores, os arbustos, as casas, o repicar os sinos, tudo me lembra o tempo em que sem cuidados nem remorsos eu brincava feliz nos pátios traseiros da casa onde nasci.

Passa tão veloz o tempo. São dez horas. Descuidei-me, postada à janela, a observar o meu mundo e esqueci-me do pequeno-almoço. Porque será que, por vezes, descuidamos tanto o nosso pequeno-almoço, que afinal é primeira refeição do dia, depois de dormirmos entre 7 e 10 horas, sem comermos nada. É fácil entender porque é que o pequeno-almoço deve ser uma refeição forte e suculenta, talvez a melhor do dia, uma vez que é aquela que nos proporcionará a energia suficiente para iniciarmos o dia de trabalho e sermos capazes de render física e intelectualmente. E isso para mim é muito importante. Sento-me à mesa rodeada de leite, cereais, queijo, sumos de fruta naturais e uma sanduíche de fiambre. Apesar de tudo comi pouco, muito pouco e não me sinto forte e capaz de iniciar com ânimo e alegria este último dia do ano.

Vou sair. Não sei para onde nem fazer o quê e, por isso, não tenho pressa. Sento-me, na sala, numa poltrona forrada de couro e olho as fotos dos meus antepassados. Alguns deles já de avançada idade, a morrerem quando o mundo lhe começava a ser pesado. Depois olho-me ao espelho. Vejo aí refletido o meu corpo belo, jovem, coberto de roupas simples e sem adereços. Nunca gostei nem de berliques, nem de adornos supérfluos ou de pinturas exageradas.

Desço as escadas e saio. São quase onze e as ruas estão repletas de pessoas e de carros. Espero os júbilos de um novo dia, como recompensa da mordaça de ontem. Luto para não me encontrar com quem quer que seja. Imagino que o vejo… Mas sei que não passa de uma fascinação, de uma brincadeira sem graça da minha imaginação, desejosa de o ver, desolada da sua ausência. Continuo a peregrinar pela rua sem saber para onde vou… Não sei exatamente para onde vou... Inadvertidamente, passo em frente ao infantário onde outrora trabalhei. Também ali o silêncio é impressionante e dominador. Ouço o respirar do sopro que ficou dele que por ali passava tantas vezes. Sem medo, continuo. Creio que as pessoas não me veem porque os cães não ladram à minha passagem. Vagueio como alguém que não sabe para onde vai.

Meio dia e meio... Regresso a casa, embora sem pressa. O pequeno-almoço foi tardio embora pouco suculento. Mas não tenho fome. Alegra-me, comove-me, alvoroça-me a ideia de que tenho sobras de ontem, embora saiba que isso me trará amargas recordações…

Uma hora da tarde. Sento-me à mesa. Em frente, a televisão traz-me notícias de um mundo triste, desolado. Enxurrada arrasta doze carros nos Açores. Dezenas de pessoas desalojadas pelas cheias. Mulher assassinada pelo companheiro deixa três filhos menores. Padrasto viola criança de três anos. Ladrões assaltam, violam e roubam idosa de 82 anos que vivia sozinha… Revoltada desligo a televisão. Foi este patê de camarão que ele mais adorou. Volto à madorna das tristes recordações. Creio até que adormeci um pouco. Tive um sonho. Caminhava de braço dado com ele, assistindo à sua coroação com meu rei e soberano. Mas ao redor as flores estavam murchas e os pássaros silenciosos. As árvores cobriam-se de negro e as janelas das casas tinham cortinados vermelhos. São as relíquias do tempo da fé pura e da paz do espírito. Sentada no meu quarto incendeio tudo o que me é útil. E dou comigo a escrever um poema na última folha de papel que me sobra…

Quando acordo já entardeceu... Tudo se aquietara ao meu redor. O vento continuava a soprar, agora mais forte, mais macio como que a enrolar-se no reboliço das folhas caídas. As nuvens haviam acordado e tapavam o sol, escurecendo o dia e antecipando a noite. E eu encostada ao parapeito da janela do meu quarto, à espera que o sino badale a meia-noite.  

Cinco e meia. A tarde desapareceu por completo. A ausência do sol escureceu tudo, por completo. A noite chegou e impôs a sua escuridão, sem que eu lhe pudesse por termo. A terra cobriu-se com um manto negro que nem a lua ajudou a desmistificar.

Dez… Onze… Onze e meia… Aproxima-se a meia-noite. No ar, um deslumbrante murmúrio, uma fervorosa reminiscência, um entontecedor silêncio. Uma chuva miudinha e adocicada cai em fios finos, suaves, deslumbrantes unindo o céu à terra. De repente, todas as luzes se apagam e todas as ilusões se desvanecem como se fossem fumo a sair das chaminés adormecidas...

Nem quis ouvir as badaladas da meia-noite, nem comer as doze passas ou beber uma taça de champanhe porque tinha a certeza que ele nunca mais voltaria…

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