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DOM CAIO

Sábado, 06.02.16

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, a ganapada mais astuta e que se considerava mais dominadora, sobretudo a que andava na escola primária, aproveitava tudo o que aparecesse mais à mão, para por um apelido a este ou aquele, sobretudo aos mais desprotegidos. Eu não fugia à regra, como vítima, o que me deixava grandes amargos de boca.

Ora o nosso livro da quarta classe, entre muitas outras estórias, com as quais eu delirava e adorava ler, até porque não havia livros na minha casa a não ser os escolares, tinha uma intitulada Dom Caio, que rezava assim:

Era uma vez um alfaiate muito poltrão, que estava trabalhando à porta da sua casa. Como tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir de valente.

Certo dia viu muitas moscas juntas e de uma pancada matou sete. D'aqui em diante não fazia senão gabar-se:

— Eu cá mato sete de uma vez!

Ora o rei andava muito aparvalhado, porque lhe tinha morrido na guerra o seu general Dom Caio, que era o mais valente que havia, e as tropas do inimigo já vinham contra o seu reino, porque sabiam que não havia quem pudesse combate-las. Os que ouviram o alfaiate andar a dizer por toda a parte: «Eu cá mato sete de uma vez!» foram logo dizê-lo ao rei, que se lembrou de que quem era assim tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio. Veio o alfaiate á presença do rei, que lhe perguntou:

— É verdade que matas sete de uma vez?

— Saberá Vossa Majestade que sim.

— Então n'esse caso vais comandar as minhas tropas, e atacar os inimigos que já me estão cercando.

Mandou vir o fardamento de Dom Caio e vestiu-o no alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bicos enterrado até às orelhas. Depois disse que trouxessem o cavalo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavalo, mas ele já estava a tremer como varas verdes. Assim que o cavalo sentiu as esporas botou á desfilada, e o alfaiate a gritar:

— Eu caio, eu caio!

Todos os que o ouviam por onde ele passava, diziam:

— Ele agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.

O cavalo que andava costumado ás escaramuças, correu para o sitio em que andava a guerra, e o alfaiate com medo de cair ia agarrado ás clinas, a gritar como desesperado:

— Eu caio, eu caio!

O inimigo assim que viu vir o cavalo branco do general valente, e ouviu o grito: «Eu caio, eu caio!» conheceu o perigo em que estava. Disseram os soldados uns para os outros:

— Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio.

E começaram a fugir à debandada. Os soldados do rei foram-lhe no encalço, matando-os e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavalo e em gritar: «Eu caio.» O rei ficou muito contente com ele, e em paga da vitória deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucessor de Dom Caio pela sua coragem e bravura

Ora como eu adorava ler esta estória e o meu nome tinha uma sonância semelhante ao do principal protagonista da estória, foi-me imprimido o caráter indelével de um novo apelido: Dom Caio.

Nunca percebi, no entanto, qual o Dom Caio que predominava nas mentes danosas dos meus colegas de infância, se o valoroso general Dom Caio ou o tímido alfaiate numa ou outra das suas aparências: tímido e amedrontado ou consagrado como herói do reino. Mas verdade que a julgar pela galhofa dos que, permanentemente, me atribuíam o epíteto, de certeza que era o pobre e tímido alfaiate, entretido a matar moscas e a vangloriar-se disso. E bem me entristecia!

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