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FASCÍNIO E MEDO NAS ÁGUAS

Sábado, 23.04.16

As Águas era um dos mais contraditórios lugares da Fajã Grande, porquanto provocava, simultaneamente, nos que para lá se deslocavam, fascínio e medo. Por isso e porque situado debaixo da Rocha, entre a Ribeira das Casas e o Caminho do Mato, o lugar das Águas era, ao mesmo tempo fascinante e aterrador.

Meu pai tinha quatro propriedades nas Águas. Um curral de erva mas de pouco valor, situado logo à entrada, onde terminavam as terras de cultivo da Ribeira, no qual nem cabia uma vaca. Apenas servia para guardar ovelhas e dar-lhes de pastar. Possuía também, mas já mais a norte e muito próximo da Rocha, duas relvas ou pastagens quase contíguas. A primeira, que nós apelidáramos de Águas de Cá, com erva de boa qualidade. A segunda, as Águas de Lá, mais além, já quase sobre o descampado da ribeira, terra de muito fraca qualidade. Finalmente e bem junto à Rocha, também sobre o descampado da Ribeira das Casas, e ainda mais pobre e menos fértil, uma outra propriedade que de nada servia a não ser para produzir feitos e juncos que ceifados serviam para cama do gado nos palheiros. Isto porque naquele local a Rocha não dispunha de uma plêiade quase infinita de grotas e veios de água como acontecia a uns escassos metros dali e que davam às relvas encostadas à Rocha o estatuto de lagoas, uma vez que encharcando o terreno faziam com que a erva crescesse, permitindo que fosse ceifada para alimento das vacas nos palheiros. Além disso ali se produziam bons inhames.

Mas o meu fascínio por aquele lugar começava logo à entrada, junto ao curral que pertencia a meu pai, onde havia um enorme calhau caído da rocha, sabia-se lá há quantos anos. Era um gigantesco e descomunal penedo, bastante áspero e excessivamente tosco. O seu peso estimativamente excessivo e a presumível velocidade que teria atingido ao despegar-se daquele desmedido aclive haviam-no encravado no chão de tal maneira que aparentava ter sido ali plantado pela natureza. O calhau ficava mesmo à beira da canada, servindo, naquele sítio, de divisória natural entre o caminho de servidão e a relva de Ti Manuel Rosa, situada à esquerda de quem se dirigia para a Rocha. Do lado que confinava com a via pública, na parte superior, o calhau tinha uma enorme aba e, na parte inferior desta, uma concavidade ou buraco, que com as chuvas se enchia de água. Só que, por caprichos da natureza, o buraco era uma espécie de poço, tão perfeito e tão bem elaborado que nem o cinzel de um pedreiro o talharia melhor. Além disso, na parte inferior, a aba do calhau possuía uma espécie de plataforma para que quem quisesse ou desejasse ali se sentasse a molhar distraidamente as mãos. Quando ia às Águas fascinava-me ficar a contemplar o pequeno lago, sobretudo quando cheio de água, quase a transbordar, com formas e recortes tão semelhantes aos do baixio, como se fosse um mar. Havia mesmo um enclave em tudo igual ao Boqueirão, outro parecido com o Caneiro do Porto e no meio, eu próprio lhe escarrapachava uma pedra a fazer de Monchique. Então nos dias em que meu pai por lá se demorava a ceifar feitos ou quando eu levava a minha ovelha a pastar no curral era um enlevo, pois enchia o lago de folhinhas de faia e de incenso a fazer de barcos. Depois sentava-me na plataforma e ficava ali horas e horas a brincar. Tocava com as mãos na água e esta agitava-se como se fossem ondas e o lago crescia, crescia até se transformar num enorme mar cheio de barcos, de gasolinas, de iates e de navios, uns ancorados fora do porto, outros partindo para a Europa, para a América, para outros mundos.

Mas não era só isto que me fascinava nas Águas. Lá no alto. Quase no cimo da Rocha, precisamente sobre uma das propriedades de meu progenitor existia uma furna. Era a furna do João da Macaca e da Maria Peguinha. Fascinava-me observar, ainda que de longe, a residência daquele estranho casal que ninguém sabia quem era. Dizia-se que todos os dias, de madrugada e à noitinha, eles se vinham sentar à entrada da furna, a disfrutar o magnífico panorama que dali se deveria visionar, Ao mesmo tempo, porém também sentia medo porque era voz corrente, por parte dos adultos, que o João da Macaca e a sua consorte viam, observavam e registavam todas as asneiras, disparates, desobediências e má-criações que os meninos faziam para depois lhes aplicar o devido castigo, caso voltassem a repetir o que de mal haviam feito. Além disso, no verão, enquanto ajudava meu pai a ceifar os feitos, nos andurriais da Rocha, fascinava-me ver, lá ao longe, no mar, os botes baleeiros a partirem para a safra assim como os navios que lá no horizonte apareciam e desapareciam quase miraculosamente. Tudo fascinante! Mas o pior era que a tudo isto se juntava um enorme medo, o medo de rolarem pela Rocha pedregulhos e ribanceiras, como acontecera outrora e cujos vestígios eram bem visíveis para qualquer lado que se olhasse.

 

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