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MALDITA CANA ROCA

Segunda-feira, 18.01.16

A cana roca, na década de cinquenta, na Fajã Grande era uma espécie de planta maldita ou, pelo menos mal a amada. Uma monda ou uma praga que urgia devastar a fim de que não alastrasse e se sobrepusesse às outras plantas e às árvores que cresciam ao redor e que eram de grande utilidade. Assim, uma das tarefas de cada agricultor era cortá-la e por vezes até lhe arrancar as potentes e grossas raízes nos terrenos onde florescia desalmadamente. O seu aproveitamento era muito reduzido, servindo apenas, uma vez picada, para secar as cercas ou currais dos porcos e, quando verde, as suas folhas de melhor qualidade eram selecionadas e utilizadas para colocar debaixo do pão de milho quando saído do forno, ainda quente, assim como debaixo da carne fresca, por alturas de jantares e festas do Espírito Santo ou em matanças de porco. As crianças, assim como as abelhas famintas aproveitavam o suco adocicado das suas flores para se deliciar, uma vez que nesses tempos o açúcar e os doces rareavam.

No entanto a cana roca, uma planta invasora muito comum nas ilhas dos Açores, florescia em catadupa nas terras de mato da Fajã Grande, nomeadamente no Delgado, Cabaceira, Cuada, Espigão, Cancelinha, Lombega, Moledo Grosso, Pocestinho Pico Agudo, Lavadouros, Vale Fundo, Curralinos e de muitos outros e até no sopé da Rocha e em muitas relvas sobretudo nas mais próximas das terras de mato. Nesses tempos recuados e de grandes trabalhos e canseiras, os donos das terras, de foice em riste, haviam de se livrar de toda ela, ceifando-a e cortando-a durante horas e dias, por vezes até arrancando as suas carnudas raízes, simplesmente para deitar fora, pois não servia para nada.

A cana roca, considerada também como planta ornamental, dada a beleza das suas flores é originária do Himalaia. Tem um caule herbáceo e as suas folhas são de um verde brilhante e as flores amarelas e alaranjadas, de rara beleza e adocicado aroma, crescendo em botões em forma de espigas. Pode atingir os dois metros de altura. As raízes são carnudas, assemelham-se a tubérculos e são muito parecidas, no aspeto e no sabor, às do gengibre, uma das plantas medicinais mais antigas e populares do mundo, de cuja família a cana roca açoriana é uma espécie.

O seu nome científico é Hedychium Gardnerianum Sheppard ex Ker Gawl, sendo conhecida popularmente pelos nomes comuns de conteira, jarroca, roca, cana roca e gengibre-selvagem e, em muitas regiões assim como nas ilhas açorianas, é considerada espécie invasora. Nos Açores, na verdade, tem vindo a tornar-se um problema crescente para as espécies nativas. Recorde-se que são consideradas plantas invasoras as espécies que, a nível geral, apresentam alta capacidade reprodutiva, alta capacidade de dispersão, alta resistência e versatilidade adaptativa face a mudanças ambientais, ausência de competição importante por parte de espécies nativas, e escassez ou ausência de inimigos naturais no novo ambiente. A cana roca que para se desenvolver melhor prefere um clima quente e regiões temperadas está incluída na lista das 100 espécies exóticas invasoras mais perigosas do mundo publicada pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

Ultimamente, porém, surgiram algumas boas notícias sobre um possível aproveitamento económico da cana roca, já usada na ilha das Flores para o fabrico de mel. Uma delas foi o chamado Projeto “Conteira amiga” que tem como objetivo fundamental o fabrico de plástico a partir das folhas desta planta numa consistência suficientemente rígida que pode ser um boa alternativa aos plásticos, esferovites e espumas de polipropileno, pretendendo-se assim combater o consumo em massa de plásticos em todo o Mundo. Esta transformação após o revestimento e proteção com resina biodegradável, a conseguir-se pode revolucionar o nosso dia-a-dia, pois produzirá vasos de flores, copos, pratos, embalagens diversas, bases, banheiras, paletes para ovos, ninhos de aves, cestos de lixo para escritórios, etc. O projeto pretende substituir por razões de natureza ambiental, os plásticos e afins, mediante matéria-prima proposta quase inesgotável e biodegradável e terá a vantagem concorrencial de se sustentar no aproveitamento duma planta infestante e sem benefícios ou lucros. O aproveitamento e utilização de uma espécie biodegradável, os reduzidos custos de produção, associados à crescente procura e consumo nos artigos que se propõe transformar, são fatores de sucesso deste projeto e trarão grande riqueza às ilhas.

Mais recentemente surgiu um segundo Projeto “Achas bem” cujo objetivo é produzir, da cana roca seca, gravetos e troncos para uso como combustível alternativo à madeira em fogões de aquecimento e lareiras em casas. Este projeto “Achas pretende, entre muitos outros, reduzir ao mínimo a utilização de matéria combustível e derivados do petróleo e madeira, consumidos desmesuradamente no aquecimento de moradias.  

Um terceiro projeto, denominado Fibemanics Azores visa transformar as fibras da cana roca em produtos de alto valor acrescentado, ou seja materiais fibrosos como alternativa ao aço, à madeira e plástico e que podem ser utilizados na construção de barcos, asas ou produtos para a saúde, evitando também poluição e contribuindo para a saúde do ambiente e da natureza.

Acrescente-se ainda que segundo um outro estudo realizado pelo Departamento de Ciências Tecnológicas e Desenvolvimento da Universidade dos Açores, um outro aproveitamento da outrora maldita cana roca, está no fabrico de um óleo que revela ter potencial para poder ser usado no tratamento da doença de Alzheimer e que aparenta ainda ter um elevado poder antioxidante, igual ou superior ao de muitos antioxidantes utilizados como aditivos alimentares e que ajudam a combater diversos cancros e muitas doenças degenerativas associadas à idade. Uma outra aplicação do óleo da cana roca poderá ser a de ser utilizado como inseticida biológico, já que se verifica que raramente a planta apresenta sinais de predação por insetos ou caracóis.

Sem dúvida que a concretizarem-se estes projetos, atualmente ainda em estudo nas Universidades dos Açores e do Minho poderão aproveitar economicamente os recursos endémicos das ilhas e valorizar o tecido empresarial das mesmas, criando mais postos de trabalho e valorizando o trabalho das populações rurais açorianas.

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