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NO DIA EM QUE O CÉU LHE CAIU EM CIMA

Quinta-feira, 29.09.16

 

(POEMA DE ANÍBAL RAPOSO)

 

No dia em que o céu se escaqueirou e lhe caiu em cima

Estava estranhamente calmo.

 

Conta quem viu que até gracejou

Enquanto assinava, como um sonâmbulo,

A sentença que ordenava o seu desterro.

 

Meia hora mais tarde,

A um canto da ilha,

Desceu às profundezas da cratera.

 

Contam os pássaros, suas almas gémeas

E guardiães das memórias da Lagoa Verde,

Que nem nos tempos em que a montanha explodiu em terríveis cataclismos

Se ouviram, como nessa hora, na Baía do Silêncio

Gritos mais roucos, soluços mais telúricos.

E que não consta que tenham caído vez alguma

Na superfície daquelas quietas águas

Lágrimas com tal teor de sal.

 

 

Contam, também,

Que, ali mesmo, jurou

Que, enquanto vivo fosse,

Nenhuma ave, a quem tivesse ferido por descuido,

Deixaria, alguma vez, por culpa sua,

De ter o ensejo de experimentar o golpe de asa

E de voar, em azul e plena liberdade.

 

Aníbal Raposo, 2003-05-30

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