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O BOICEIRO

Segunda-feira, 07.03.16

Quando eu era miúdo, em casa, na catequese, na escola e até pelas ruas, em momentos de piáculo, por tudo e por nada, lá vinha a temível e famigerada ameaça do Boiceiro - um horrendo instrumento de tortura e punição, excessivamente doloroso mas correctório para as crianças que não obedeciam aos pais e aos outros legítimos superiores ou não cumpriam quer os mandamentos da Lei de Deus quer os preceitos da Santa Madre Igreja. Assim, perante qualquer pensamento mau, palavra obscena ou acto indigno, vinha como alternativa a sentença terrível e assustadora mas eficaz e profícua:

- Para a próxima, vais sentar-te no Boiceiro.

Sabia-se apenas que o excêntrico instrumento de tortura, à boa maneira da Inquisição Medieval, tinha a forma de uma cadeira, com uma diferença - e que diferença, meu Deus  - o assento. Este estava cravejado de pregos enormes e aguçados, de ponta virada para cima, com a denodada intenção de penetrar sanguínea e dolorosamente no rabiosque do infractor, penalizando-o dramática e excessivamente pelas faltas praticadas ou pelos delitos cometidos.

Mas o estranho é que o Boiceiro não se via e, consequentemente, o que mais atormentava os prevaricadores era a sua ameaça permanente. Sabia-se apenas que estava algures, na igreja, para além duma porta que existia atrás do altar-mor, sempre disponível para castigar os jovens e inexperientes pecadores.

Eu, como todos os outros da minha idade, pelava-me de medo com a contínua intimidação de tão pavoroso suplício. Admirava-me, no entanto, que a estroinice de que era acusado, nunca tivesse sido devidamente castigada naquele inferno terreno. O Greves, o Câncio, o Rodrigues e tantos outros não tinham currículo menos facinoroso do que o meu e juravam a pés juntos que nunca lá tinham ido parar. Por isso, assaltavam-me frequentemente dois sentimentos opostos. Por um lado começava a duvidar cepticamente da sua existência. Por outro mantinha-me convicto de que com as diabruras de que não me emendava, mais dia menos dia, o meu traseiro iria direitinho lá parar. Foi então que comecei a sentir, cada vez mais, uma enorme e denodada vontade de desvendar e conhecer o tão heteróclito e pouco dogmático mistério em que estava envolta tão abominável e execranda herança inquisitorial. 
Certa tarde, em que não havia escola para os da 1ª classe, as tias Graça e Luzia, muito zelosas pelas coisas celestes e tão colaboradoras no serviço divino, foram escalonadas para enfeitar a igreja, decidindo que eu as acompanharia em tão sacrossanta tarefa. Enchi-me de alegria, coragem e determinação. Era uma oportunidade única de, à sorrelfa, mais uma vez, subir a sineira e olhar de perto os bronzes gigantes cujos sons me fascinavam sobretudo nos repiques festivos, nas laudes dos defuntos e nas Trindades Dobradas, mesmo de lhes tocar e, batendo levemente com as mãos, apreciar os seus sons como se fosse em eco. Além disso, conviveria de perto com santos, anjos e arcanjos, aperfeiçoando notória e significativamente comportamentos e atitudes, evitando palavrões, talvez mesmo, sob o comando e orientação das tias, fazer pequenas orações e rezar algumas jaculatórias.

Ao chegar à igreja, porém, apercebi-me de que as tias iriam abrir a tal porta que estava atrás do altar-mor para ir buscar baldes, vassouras e outros apetrechos inerentes à limpeza do templo. De imediato, esquecendo os sinos, concentrei-me na forma de, sem elas darem conta, tentar explorar as traseiras da capela-mor, na tentativa de ver de perto, talvez mesmo tocar no tão famigerado Boiceiro, desvendando assim o enigmático mistério em que estava envolto.

Anulando radicalmente todos os procedimentos hieráticos a que tão sacrossanto lugar era propício, esperei pacientemente que as tias se ausentassem enquanto a pouco e pouco se me aguçava o desejo de ver a tão torturante e punitiva cadeira. Não tinha ainda acabado de substituir o pavio da lâmpada do Santíssimo e de a abastecer de azeite, quando as tias decidem sair para sacudir as carpetes da capela e apanhar mais algumas flores, deixando-me ali, sozinho, com a obrigação de não mexer ou tocar em coisa nenhuma e com o único objectivo de informar fosse quem fosse da sua necessária ausência. Transformado em verdadeiro guardião do templo, esperei um pouco e, de imediato, fui espreitar sorrateiramente por trás do altar-mor. A porta estava semiaberta.

Estarreci de emoção hesitante. Por um lado pesava sobre mim uma excessiva curiosidade, mas por outro assustava-me não apenas o espectro do enigmático grilhão mas também a entrada em tão desconhecido recinto e ainda a hipótese quase certa de ser apanhado com a boca na botija. Dizia-se que para além do altar-mor existia uma espécie de Sancta-Sanctorum, que só os eleitos podiam transpor.

Hesitei. As tias demoravam e isso trouxe-me um medo enorme mas aguçou-me a curiosidade. Era agora ou nunca.

Olhei timidamente para o Sacrário, diante do qual fiz uma simulada genuflexão. A presença de Jesus Sacramentado, bom e misericordioso, parecia incentivar-me. Senti mais força e coragem e, pé ante pé, ultrapassei o altar, penetrei no vão que o separava do retábulo doirado da capela-mor onde, por trás das imagens de São José, Santa Teresinha e da Senhora da Saúde, estava encravado o camarim. Empurrei a porta semiaberta. Esta rangeu, abriu-se lentamente e eu entrei.

No minúsculo, caliginoso e apertado cubículo pairava um silêncio sepulcral, apenas entrecortado levemente pelo tiquetaque do grande relógio suspenso numa das paredes da capela-mor e pelos meus tímidos passos. Lívido, olhei ao redor, sem ver nada ou coisa nenhuma. O temor, no entanto, foi-se desanuviando à medida que os meus olhos se iam habituando à tenebrosidade do recinto. De um lado da betesga salientavam-se prateleiras com garrafas de vinho de missa, latas de azeite para o Santíssimo, caixas com moedas do tempo dos afonsinos e andores encavalitados em cima uns dos outros. Do outro, caixotes cheios de maços de velas de estearina, as lâmpadas que acompanhavam as procissões, muitas cruzes e uma data de guiões, entre os quais se evidenciava o roxo que era usado na procissão de Passos. Num canto, debaixo das escadas que davam para um piso superior, muito escondida dos olhares dos fiéis, estava a imagem do Senhor dos Passos. Uma dor de alma! Jesus Cristo num dos mais dolentes momentos de tortura e sofrimento da Sua Paixão. Sentado numa pedra, quase nu, mãos atadas por um cordão amarelado, segurando uma cana a fazer de ceptro e com uma enorme coroa de espinhos cravada na cabeça, lá estava o Ecce Homo. Do crânio perfurado pelos espinhos saíam-Lhe gotas e gotas de sangue que corriam pelo rosto e se perdiam nas barbas ou Lhe salpicavam o tronco e os joelhos. Os ombros avermelhados e o tronco despedaçado faziam entender que havia sido fortemente chicoteado nas costas. O seu rosto apresentava-se simultaneamente sofredor e angustiado mas confiante e meigo. Fixei-o e senti uma enorme compaixão. Bem me apetecia libertá-Lo totalmente daquele suplício que me fazia lembrar ao que ali viera, com a insignificante diferença de que as picadelas do Cristo eram na cabeça e as minhas seriam no rabo. Ao lado uma portinhola, com quatro vidros pequenos e toscos a encimá-la, por onde entrava uma claridade pouco clarificante, permitia-me observar melhor a imagem dolente. Espreitei pelos vidros e o meu temor aumentou significativamente. A porta comunicava com o cemitério, onde se visionava uma enorme quantidade de campas, vários jazigos e algumas sepulturas recentes, todas encimadas por cruzes e sobre as quais pairava um silêncio ainda mais assustador.

Aterrorizado, afastei a visão do cemitério e voltei a olhar o Jesus sofredor e a procurar o Boiceiro. Mas nada. Apeteceu-me sair. E se as tias já tivessem chegado? E se aparecesse alguém? Voltei a hesitar por momentos. Mas tinha chegado até ali, continuaria a pesquisa. Decidi subir as velhas e frágeis escadas que permitiam o acesso ao piso superior. Galguei-as a medo, à medida que tentava descortinar o que existia naquele recanto ainda mais enigmático, mais escuro e mais tenebroso do que inferior. Apenas uma fresta, no alto da parede, permitia uma luminosidade mínima, necessária para se identificar o que ali estava. Logo à entrada o esquife em que nas endoenças era transportado o Senhor morto, deposto da cruz. A seguir o S. Miguel, de botas altas, calções e traje nobre, com uma balança na mão direita e uma espada na esquerda. O Arcanjo aguardava serenamente o juízo final, para pesar o bem e o mal praticado pela humanidade. Mais além pendurada na parede a matraca substituta dos sinos na Parasceve e ao lado uma velhíssima imagem do S. José, padroeiro da freguesia e a Senhora da Soledade, totalmente nua, mas com os seios atrofiados e sem parrameiro. Ao fundo do cubículo a essa!

Estarreci por completo. Cheio de medo, dei um enorme grito ao ver aquele horrível catafalco donde via emergir o velho Laranjinho – o enigmático representante de todos os finados da freguesia, lembrado no dia dois de Novembro. Totalmente apavorado, desci as escadas em lances de três e quatro degraus, saí pela porta de trás do altar-mor e, esbaforido, corri desalmadamente até à rua, jurando nunca mais ali voltar.

Quanto ao Boiceiro havia de permanecer ainda por mais alguns anos, na minha mente, como mito enigmático e assustador.

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