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O DESCANSADOURO DA EIRA DA CUADA

Quinta-feira, 07.04.16

O Descansadouro da Eira da Cuada era, incontestavelmente, o mais deslumbrante, o mais emblemático, o mais mítico e, sobretudo, o mais histórico de quantos descansadouros existiam na Fajã Grande. Deslumbrante porque dali se desfrutava de admiráveis vistas e belas paisagens. Emblemático porque além de descansadouro para os homens que vinham carregados das terras da ladeira do Biscoito, da Cuada e, nalguns casos, até da Fajãzinha, era ali também que, uma vez por mês, permaneciam multidões à espera de familiares, amigos e conhecidos que regressavam à ilha a bordo do Carvalho Araújo, sobretudo dos que vinham da América. Mítico porque sobre ele se contavam algumas lendas entre as quais a do Calhau de Nossa Senhora ou Pedra da Missa. Finalmente histórico porque fazia parte da história da freguesia, ligando o povoado da Fajã Grande, desde os seus primórdios até precisamente ao final da década de cinquenta, altura em que se construiu a estrada que liga o porto da Fajã Grande aos Terreiros. Por ali passaram durante dezenas de anos, centenas de pessoas nas suas idas e vindas, não apenas para a vizinha Fajãzinha mas para as Lajes, para Santa Cruz e para todas as outras freguesias das Flores. Além disso também por ali passavam os que, vindos destas paragens, visitavam a Fajã Grande quer por altura das Festas de São José de Santo Amaro ou da senhora da Saúde quer nos dias em que o Carvalho, devido ao mau tempo, fazia serviço na Fajã Grande quer por outra razão qualquer demandavam a mais ocidental freguesia da ilha. Por ali passaram governantes, bispos, capitães-mores, militares, escritores, poetas e muitas outras individualidades que visitaram a freguesia e decerto ali se sentaram para descansar e para apreciar as belas paisagens que dali se disfrutam.

Localizado no lugar da Eira da Cuada, este descansadouro situava-se num planalto, junto ao mar, a sul da freguesia e, consequentemente, muito próximo da Fajãzinha e ligava o antigo Caminho da Missa que tinha o seu início no cimo da Assomada, à direita de quem a subia, com a ladeira do Biscoito que desembocava na Ribeira Grande onde havia uma fatídica ponte de madeira, de vez em quando levada pela força da corrente. Os habitantes da Cuada também usufruíam deste descansadouro, através duma estreita e sinuosa canada. O descansadouro era importantíssimo, sobretudo, para quem vinha dos lados da Fajãzinha, atravessando a Ribeira Grande e subindo a íngreme e comprida ladeira do Biscoito. Cuida-se que em tempos idos teria existido ali uma eira onde os habitantes da Cuada debulhavam o seu trigo. Trata-se, no entanto, de uma mera hipótese, uma vez que na década de cinquenta do século passado já não existiam vestígios ou memórias de ter existido ali qualquer eira. Assim, o epíteto do lugar e, consequentemente, do descansadouro, poder-lhe-á ter sido atribuído, simplesmente, pelo facto daquele lugar se situar sobre um amplo planalto, de tal maneira liso e circular, formando um grande eirado e que, na verdade, fazia lembrar uma espécie de eira gigante.

Mas o que mais caracterizava aquele descansadouro era o facto de estar situado num grande largo, um espaço público ou de ninguém, atapetado de fresca alfombra e povoado de variadíssimos calhaus. Entre estes existia um muito especial, designado por Pedra da Missa ou Calhau de Nossa Senhora. Acerca deste calhau, contava-se que antigamente, quando a Fajã Grande ainda não era paróquia e, consequentemente, não tinha igreja nem pároco, os seus habitantes deslocavam-se à Fajãzinha, todos os domingos, para assistirem à missa na igreja paroquial. Acontecia porém que a Ribeira Grande, que separa as duas localidades, como é bastante larga e com um caudal muito volumoso, não possuía ponte mas sim umas pequenas passadeiras ou alpondras que em dias de muita chuva ficavam submersas na água, o que, juntamente com a força do caudal, umas vezes dificultava e outras impedia por completo a sua travessia. Quanto tal acontecia os fiéis, impossibilitados de atravessar a ribeira, ficavam do lado de cá, no alto da Eira da Cuada, olhando para a igreja da Fajãzinha, que dali de se avistava, rezando e cantando durante a celebração da missa e apenas se dispersando e voltando às suas casas quando viam as pessoas saírem da igreja, sinal de que a missa terminara. Além disso faziam-se sempre acompanhar duma pequenina imagem de Nossa Senhora que colocavam em cima daquela pedra, durante a missa, ao redor da qual ajoelhavam e rezavam. Em paga da sua grande devoção, a imagem de Nossa Senhora, que fora ali colocada tantas e tantas vezes pelos crentes, deixou, para sempre, bem gravadas naquele calhau as marcas dos seus pés. Na verdade na pedra existiam duas pequenas cavidades na parte superior, semelhantes às marcas de dois minúsculos pés. Também se contava que no regresso os fiéis vinham carregados com pedras destinadas à construção de uma ermida, o que de facto aconteceu antes da construção da atual igreja, na década de cinquenta do século XIX. Por esta razão o caminho que liga o povoado à Eira da Cuada se chama Caminho da Missa

Deste descansadouro desfrutava-se de uma maravilhosa vista, sobre o mar, a Fajãzinha, a fajã que a ladeava, a rocha cheia de verde e de cascatas, as rochas da Figueira e dos Bredos, onde, em meados da década de cinquenta, começou a desenhar-se a nova estrada que ligaria os Terreiros à Fajã Grande e que lançaria no esquecimento não apenas este descansadouro mas o próprio Caminho da Misa.

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