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O DIA DE APANHAR O MILHO DA FONTINHA

Terça-feira, 18.10.16

Acordei ainda era muito escuro, noite cerrada! Seriam cinco… Seis… Seis e meia... Era outubro e amanhecia tarde. Atirei de supetão o grosso cobertor em que me enroscara toda a noite, sobre o colchão de casca e pragana, e desatei a correr pela sala fora até à cozinha, escura como breu. Já todos haviam saído, apenas minha irmã, ainda em naitigão e muito despenteada e sonolenta, atiçava as labaredas de lume. A cozinha mais parecia um cerrado acabado de lavrar por arados minúsculos. Os garranhos de incenso estavam verdes como cubres. Muito a custo, minha irmã partia-os um a um, ao mesmo tempo que os enfiava debaixo da chaleira, assente num tripé de ferro. Depois de muito soprar o lume tímido e azulado pegou, exalando um fumo ácido e provocante. Minha irmã chorava. Dos olhos inchados saíam-lhe abundantes e grossas gotas de água. Cá fora, junto aos currais, ouvia as vozes de meu pai e meus irmãos a por a ceira no carro e a encangar a Benfeita e a Toucada. Lavei a cara, metendo as pontas dos dedos na água da bacia do lava-mãos, que ali ficara da véspera. Por fim a água na chaleira começou a ferver e daí a nada o café deitado no bule, cheirava que era um consolo. Assomando à porta de trás, minha irmã, agora já vestida e penteada, gritava:

- Venham, venham! O café já está nas tigelas, se não vêm depressa vai arrefecer…

Não demorou muito e estávamos todos sentados à mesa e, daí a nada, na terra da Fontinha a apanhar as maçarocas, grandes, amareladas, com as barbas a saírem por entre as cascas da ponta. Cestos e mais cestos povoavam o chão, atapetado com o trevo já crescidote. Uns atrás dos outros os cestos iam-se enchendo. De seguida eram baldeados dentro da ceira do carro até esta ficar rasa. Meu pai subia para cima do carro e, habilmente, ia construindo com as maçarocas maiores uma vedação de forma que a capacidade da ceira aumentasse e assim a carrada levasse mais uma boa dúzia de cestos. Quando o carro estava cheio e bem acaculado, apertava os queicóes, tangia as rezes, tendo antes dado uma maçaroca a cada uma, e vinha, com um de meus irmãos, despejar o milho pela porta da cozinha. Mais um, mais dois, mais três carros e a cozinha ficava cheia…

Havia tachos deitados ao chão, bancos virados e a mesa de jantar estava totalmente coberta. A amassaria pura e simplesmente desaparecera. E, para lá da cozinha coberta com todo aquele entulho cerealífero, cheia de maçarocas via-se a sala desarrumada, com as camas por fazer e o penico, branco e com uma borda partida, ainda não tinha sido despejado. O Farrusco, encavalitado em cima do monte do milho, miava, esfomeado.

Minha irmã não tardou com a sopa de feijão e toucinho que sobrara da véspera. Cada qual pegou no seu prato e com uma grossa fatia de pão de milho, acomodou-se onde pode….

A tarde foi para encambulhar e descascar as maçarocas mais verdes e mais pequenas. À noitinha o estaleiro estava quase meio.

A colheita da Fontinha, naquele ano fora muito boa…

E já pela noite dentro, com a cozinha arrumada e limpa, sentamo-nos todos à mesa, em frente aos pratos vazios, dentro dos quais, pouco depois, caía em jorro esbranquiçado e quente, umas saborosas papas grossas, feitas como o milho das maçarocas mais verdes, que minha irmã fora escolhendo por aqui e por ali.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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