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O EMPRÉSTIMO

Segunda-feira, 22.08.16

O Valério nasceu de pai incógnito e de mãe solteira. Criado pela progenitora durante os seus primeiros anos de vida, cedo se emancipou, passando a viver por sua conta e risco. Arrendou uma casa na rua Direita, mesmo ali ao lado da igreja, afastada do adro apenas pela entrada do Gil. Era uma casa alta, de dois andares, geminada com uma outra que pertencia a Tio José Luís, a qual segundo a tradição, em tempos remotos, teria pertencido à família do capitão Freitas Henriques e, na altura, seria dotada de uma ponte que a ligava a uma primitiva capela ali existente, antes da construção da actual igreja.

O Valério não era muito dado ao trabalho agrícola, alegando maleitas diversas, umas reais outras fictícias. Entendia que o seu futuro não passava por acarretar molhos de erva das Covas, cestos de batatas do Areal ou cargas de lenha e incensos do Pocestinho. Havia que ganhar a vida de forma mais leve, mais descansada e mais lucrativa.

Ora o primeiro andar da casa, que comunicava com o segundo por um enorme “saguão” de pedra, estava dividido em duas lojas que outrora haviam sido estabelecimento comercial, por isso possuíam balcão, prateleiras, secretária e outras bugigangas necessárias para montar negócio. “Aí está o teu futuro, Valério!” – Dizia para os seus botões. O problema estava somente no dinheiro para investir quer em pequenas obras de modernização da loja quer no pagamento das primeiras remessas de mercadoria encomendadas aos armazenistas de Santa Cruz e das Lajes, que não vendiam fiado.

Na Fajã poucos tinham dinheiro e quase ninguém o emprestava. O padre Silvestre recusava-se fazê-lo por razões canónicas, o Senhor Claudino porque tinha a filha a estudar em Lisboa, a Senhora Rosa tinha que investir no seu próprio negócio e assim por diante. Quem se dizia que tinha muito dinheiro e já emprestara algum era a Inácia e o marido. Mas eram uns sovinas, “uns porcos” e de juros bem altos não se havia de livrar. Apesar de tudo, encheu-se de ânimo e lá foi bater à porta da Inácia.

A velhota a princípio mostrou-se renitente e pouco disposta a abrir os cordões à bolsa. Mas como o Valério explicasse que era para negócio com lucros garantidos e que lhe pagava com os juros que ela quisesse, a Inácia, mesmo sem consultar o esposo, cedeu, mas com uma condição:

- Só com papel assinado por ambos. Sem papel, nada feito. Emprestar sem assinatura bastou com o Ventura da Ponta e deu no que deu!...

O Valério, que não era preciso, que não era como o Ventura, que confiasse nele, que era homem sério e de palavra, que papéis só davam trabalho e maçada e não adiantavam nada. Era a sua palavra que valia mais do que todos os papéis do mundo.

- Não senhor! Ou com papel ou não há dinheiro para ninguém.

E o Valério, cuidando que sem o dinheiro da Inácia “adeus negócio”, teve que anuir, ficando combinado que o empréstimo seria de cinco contos e que a Senhora Inácia é que havia de fixar os juros conforme a sua consciência e também havia de ser ela a tratar dos papéis, que ele disso não percebia nada, nem tinha tempo. Só assinava depois de tudo pronto.

No dia seguinte a Inácia partiu para a Cuada, para casa do José Pimentel, homem letrado e hábil, seguro em contas e que até usava óculos para as fazer, a quem pediu que lhe preenchesse os papéis e lhe fixasse os juros de modo a que não perdesse nem dez reis do seu dinheirinho. A balança tinha que pender sempre era para o seu lado.

A Inácia voltou da Cuada com tudo direitinho, foi a casa buscar, de entre os colchões, os cinco contos e lá foi levar dinheiro e papéis a casa do Valério. Os juros que iria receber, só por si justificavam todas estas passadas. Estava tudo garantidinho… por causa do papel, claro!

Chegou junto do Valério, ocupado já no arranjo da loja e, entregando-lhe o dinheiro, prazenteira, apontou-lhe o lugar onde ele devia assinar. Ela só assinaria depois dele, não fosse o diabo tecê-las! O Valério olhou admirado para o papel, esboçou um leve sorriso e, agradecendo-lhe, rabiscou o seu nome onde ela lhe indicara e guardou o dinheiro. A Inácia gatafunhou a seguir.

O negócio do Valério floresceu mais do que o esperado. O Correio de que também passou a ser administrador, atraía muitos clientes.

Passaram-se meses e anos. O tempo estipulado para o empréstimo expirar e a Inácia, sem demora, procurou o Valério, sentado ao balcão da sua loja, à espera de clientes. Um ali estava, a senhora Inácia. Mas a velha não desejava nada, queria sim o seu dinheiro e os respectivos juros, conforme o que estava ali escrito no papel que ela lhe apresentava.

O Valério deu uma gargalhada, virou costas e apenas disse:

- O teu dinheirinho!? Hei-de t’o dar quando muito bem quiser e entender.

A Inácia enraiveceu:

- Ai vais dar, vais! Tenho aqui o papel e de duas uma: ou me dás já o dinheiro já ou vou daqui direitinha para o Regedor.

Como o Valério nem lhe respondesse, a velha saiu dali, entre vitupérios e imprecauções, e rumou direitinha à Assomada, a casa do José Caetano, então Regedor da Fajã. Bateu à porta, entrou, sentou-se na cozinha e esperou horas, excruciando a cabeça da Filomena. Quando chegou, o Caetano, assumindo com solenidade o seu papel de legítima autoridade, ouviu-a, leu e releu os papéis e, com ar de espanto e animosidade, disse-lhe:

- Ó Inácia, as coisas não estão fáceis para ti. Pelo que aqui está escrito tu é que deves cinco contos ao Valério e terás também que lhe pagar os juros.

A Inácia, emudeceu. Esbranquiçou-lhe o rosto, arroxearam-se os lábios e os olhos ficaram esbugalhados como maçãs podres. Parecia que perdera o tino. Foi uma chávena de café quente e forte que a Filomena, com a ajuda do marido, lhe enfiou pelas goelas abaixo que a trouxe a si.

Tentaram acalmá-la, sem nenhum resultado. A velha bufava, gemia, gritava, berrava e até roncava, lançando as mais temíveis ameaças, vitupérios e imprecações sobre o Valério: “Que a terra o havia de comer vivo. Mas que isto não ficava assim, não senhor.”

Constava que o Valério, apesar de tudo, passados uns tempos e com a Inácia mais amansada, lá lhe foi dando algumas compras de borla e que ainda, de acordo com a sua consciência, lhe devolveu uma boa parte do dinheiro.

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