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O ESTREPE

Sábado, 13.05.17

Certo dia, era eu ainda muito miúdo, fui ao Outeiro Grande buscar dois gueixos. Os estouvados, talvez devido ao estapafúrdio tratamento que, habitualmente, lhes dava, ao chegarem ao cimo da ladeira do Covão, haviam de se desviar da canada, enfiando-se por entre umas canas e fetos que por ali abundavam. Travei-me de razões, com os malditos. Passa fora! Cacetada dali, pancadaria dacolá e lá os consegui tirar daquele descampado, sem que antes não tivesse arranjado uns valentes arranhões por todo o corpo. Aparentemente nada de grave e os bezerros lá foram conduzidos ao seu destino.

Alguns dias depois, ao brincar na sala da casa da minha avó, senti uma dor no braço esquerdo e queixei-me à tia S. José que, de imediato, solícita e gentil, veio passar os seus dedos macios e suaves, mais habituados a rendas e bordados do que às lides do campo, no local onde, supostamente, me doía. Do diagnóstico realizado, minha tia concluiu que eu tinha ali alguma coisa que não era carne nem osso, nem um simples godelhão. Reunido o conselho das tias presidido por minha avó, ala para a Fajãzinha, consultar o padre António, muito experiente em mazelas do género. Manifestei ferrenha e contumaz oposição. De nada me serviu e lá fomos, rumando à Fajãzinha.

Mas o reverendo nesse dia não estaria nos ajustes para grandes e eficientes diagnósticos medicinais talvez porque mais preocupado com as coisas divinas. Muito superficialmente viu, mirou, apalpou o local do meu braço, onde me queixava, concluiu que nada de anormal havia ali e mandou-nos embora. Nada. Não tinha nada e minhas tias regressaram satisfeitas e descansadinhas por quanto, na opinião delas, o veredicto do senhor padre da Fajãzinha era logo abaixo do de Deus.

Minha mãe é que não se contentou com a diagnose do prebendado e decidiu levar-me a casa da Senhora Mariquinhas do Carmo, pessoa muito experiente e imiscuída não apenas em doenças e achaques mas também na sua cura e que, também, exercia as funções de parteira na freguesia.

Lá fomos. Em tais ocasiões, a senhora Mariquinhas do Carmo transformava a sua cozinha em sala de urgência e a amassaria, por sinal junto à janela, muito iluminada e limpinha, em mesa de tratamentos e, até, de operações. Foi aí que me deitou e, observando-me meticulosamente, depressa concluiu que ali havia marosca… e da grossa. Era preciso actuar e urgentemente.

Chorei, gritei, berrei, esperneei e quase deitei a casa abaixo, enquanto a minha mãe me segurava e ela me abria um buraco no braço donde extraiu um enorme estrepe de cana. Mas horror dos horrores! Como a cana já estava humedecida e podre partiu-se ao sair, ficando ainda um bom pedaço do estrepe lá dentro. Então é que foi o bom e o bonito! Os meus berros e gritos de nada serviram, nem para alarmar os vizinhos que a casa dela ficava paredes-meias com o cemitério. Mas ao fim de muitos apertos, puxanços e espremidelas, juntamente com muito sangue e pus, lá saiu o resto do estrepe, enquanto ela desinfectava a ferida que abrira e a minha progenitora me enchia de abraços e carinhos para que não berrasse mais.

Minha mãe agradeceu à Senhora Mariquinhas do Carmo, prometendo que lhe havia enviar, como forma de pagamento, meia dúzia de ovos e voltamos para casa. Compadecida do meu sofrimento, minha mãe trouxe-me ao colo. Como estava grávida e bastante doente, à Praça, areópago institucionalizado da crítica, do mexerico e da má-língua, homens e mulheres criticaram-na severamente:

- Nesse estado e com esse malandro ao colo! Bem burra és!

Sem responder ou dizer palavra, minha mãe sentou-me em cima de um muro circundante e, abrindo o lenço da mão onde guardara os pedaços do enorme estrepe, mostrou-os a toda a gente, dizendo:

- Coitado do meu menino! Vejam o que ele tinha no seu bracinho!

Esta é uma das últimas lembranças que tenho da minha progenitora, que faleceu, algum tempo depois.

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