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O FIO

Sábado, 02.07.16

Todos os anos, nos meses de Março e Setembro, os Cabeças, através de um edital afixado na porta da igreja da Fajã, com duas ou três semanas de antecedência, anunciavam o dia de Fio.

De imediato, todos os que tinham ovelhas bravas no baldio preparavam com acentuado denodo e excessivo desvelo o dia em que mais de metade da freguesia partiria para o Mato a fim de conjuntamente proceder à recolha e tosquia dos ovinos.

Aos homens competia juntar o gado, tarefa nada facilitada por parte dos animais que frequentemente se aventuravam em fugas estonteantes por entre fragas e grotões, a que nem os cães punham cobro. Às mulheres, por sua vez, competia a preparação e o transporte da comezaina, e não era pouca. É que o ajuntamento dos ovídeos iniciava-se pela madrugada, a tosquia terminava ao lusco-fusco e o regresso a casa prolongava-se pela noite dentro.

No dia marcado todos se levantavam alta madrugada. Os homens e os rapazes caminhavam para o mato, ainda noite escura. Na véspera, reunidos com os Cabeças, haviam combinado e formado vários grupos. Um, o dos mais novos e expeditos, ia pela Fajãzinha, subindo a Rocha da Figueira até às lagoas. Aí dividir-se-ia, entrando uns pela Burrinha e outros pela Água Branca. Os restantes grupos seguiam pela Rocha: um com destino ao Queiroal, outro ao Morro Alto e Pedras Brancas, enquanto o último, que incluía os mais velhos, ficaria na zona do “curral”, sobranceira ao Rochão Grande, a fim de controlar e afunilar a chegada dos ovinos e evitar o mais possível a sua fuga. Acompanhados pelos cães, protegidos do frio do Mato por grossos casacos, amparados a enormes bordões de araçá e saco a tiracolo partiam em bandos, arfando em loucas correrias e longas caminhadas, proferindo, em colaboração com os cães, uivos alucinantes e pungentes. Só assim era possível ajuntar as ovelhas bravas em toda zona do baldio, desde o Queiroal à Água Branca e conduzi-las até ao “curral”.

Em casa as mulheres enchiam cabazes e cestos de vimes brancos, usados habitualmente para ir lavar a roupa à ribeira, com pratos e tigelas a que sobrepunha postas de peixe frito, torresmos e toros de linguiça, talhadas de inhames, quartos de bolo do tijolo, fatias de pão de milho, pedaços de queijo, um bule cheio de café com leite, algumas maçãs e as tesouras de tosquiar.

Mal o Sol começava a raiar, iniciavam a longa e difícil caminhada em direcção ao “curral”, a fim de que chegassem a tempo para que os homens tivessem a primeira refeição logo a seguir à recolha das ovelhas.

Era no Alagoeiro que as mulheres, esperando umas pelas outras, juntamente com as crianças, se juntavam para iniciar a íngreme subida da Rocha. Carregando pesados cestos e cabazes, ajeitados à cabeça protegida com uma rodilha de pano, acompanhadas pelas crianças que levavam as cestas e os cabazes mais leves, formavam uma enorme e compacto pelotão, em direcção à Ribeira. Aí voltavam à esquerda para o lado da Figueira, junto ao chamado largo do Arame. Em breve entravam na primeira das trinta e duas voltas da Rocha que, desenhadas em ziguezague, somavam degraus após degraus, num escalar contínuo, íngreme e quase infinito. O pelotão, logo ao iniciar a subida, começava a desfazer-se, transformando-se numa fila compacta que se estendia entre o verde dos socalcos e das ravinas, o negro dos andurriais e dos penedos, como que delineando um filamento serpenteado e colorido que avançava lentamente.

Para trás ficavam as casas, os campos amarelados de milho e o oceano azul e infinito. Ao perto as relvas de um verde muito verde, entrelaçadas entre florestas escuras de faias, incensos e criptomérias, por onde deslizava a Ribeira das Casas.

Ao chegar à Furna do Peito, as mulheres que seguiam à frente paravam. Era um dos lugares da Rocha institucionalizado para o descanso. A furna era uma enorme concavidade encravada num sítio mais saliente e pedregoso da Rocha e cuja forma se assemelhava a um gigantesco peito humano, razão óbvia do seu epíteto. Era lá que os homens descansavam ou se abrigavam e protegiam das intempéries, quando desciam com as latas de leite penduradas em paus de araçá ou quando subiam com o gado. A maior parte das mulheres entrava, poisava os cestos e cabazes no chão e sentava-se a descansar, enquanto muitas outras permaneciam nos degraus circundantes.

Pouco depois a subida recomeçava A coluna ora caminhava em descampados rectilíneos, ora escalava degraus e degraus feitos de pedras rústicas, protegidos por pequenos bardos de queiró e vinhático. A Fajã, agora, surgia como numa vista aérea, onde se divisava o vermelho escuro dos telhados, misturado com o verde amarelado das courelas. Ao longe a mancha negra do baixio, recortada por caneiros e enseadas, onde as vagas crespadas se desfaziam em constante e esbranquiçado rodopio. O oceano, mais azulado, surgia calmo e como que inclinado, a despejar-se sobre a freguesia. No meio e ladeado pela Baixa-Rasa, o ilhéu do Monchique, maior, mais negro e muito próximo.

As voltas da Rocha, no entanto, sucediam-se umas às outras como que teimando em não ter fim. A própria coluna já se dividia e subdividia em pequenos grupos. Algumas mulheres maldiziam a sua sorte e arrependiam-se de ter saído de casa, enquanto outras não o declaravam por vergonha. Na volta do Descansadouro, onde havia uma outra furna mais pequena do que a do Peito, as mulheres voltavam a poisar os cestos sobre uns muros ali existentes, efectuando um segundo e merecido descanso. Era o meio da subida.

Pouco depois reiniciavam a marcha, cada vez mais amarga e mais cansativa.

Finalmente, chegavam à retemperadora Fonte Vermelha! Para além de saciar a sede, na que se dizia ser a melhor água da ilha das Flores, era a certeza de faltarem poucas voltas para o cimo da Rocha.

As mulheres de rosto avermelhado como maçãs apodrecidas, a limpar suor e a proferir imprecações, retiravam os cestos da cabeça, guardavam as rodilhas de pano multicolor debaixo do braço e formavam fila diante da fonte de água miraculosa. Miraculosa porque balsamizava o cansaço, suavizava o esgotamento físico resultante de tão longa e íngreme subida e retemperava as forças e o ânimo para continuar. A água jorrava, incessantemente, de uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada um colocava uma folha de incenso ou de sanguinho, para ter acesso mais higiénico e eficiente ao consumo do cristalino e diáfano fiozinho.

Consoladas com o hausto milagroso, muitas mulheres exclamavam:

- Isto é que é um consolo! Foi posta aqui por Deus, para nos retemperar as forças! Pena é estar tão longe das casas! Uma fonte assim na Praça é que era… Nem o Rossio, na Fajãzinha tem água tão boa e tão fresca,

Todas bebiam, muitas voltavam a beber e a fonte nunca secava. Corria sempre, dia e noite, jorrando um frágil mas contínuo veio, lá bem do interior da terra. Mesmo que ninguém a procurasse para beber, a água continuava a brotar e caía solitária mas sussurrante, formando, no chão, uma poça que, depois de cheia escoava pelos degraus e encostas da Rocha, transformando-se num pequeno regato.

O pelotão aglomerava-se de novo. A paragem junto à fonte proporcionara às mais retardatárias ocasião para se juntarem à coluna e reiniciar a marcha em conjunto. Finalmente a minúscula furna dos “Dez Reis”, a indicar que faltavam apenas dez voltas para a cancela do cimo da Rocha. Era o fim da subida.

Chegar ao cimo da Rocha era um alívio. O cansaço porém convidava a novo descanso, logo a seguir à cancela do Couceiro, onde ao longo dos tempos os homens que por ali passavam diariamente haviam criado uma espécie de logradouro. Junto a uma alta parede, que os abrigava dos ventos frios do Norte, haviam construído uma bancada de pedra tosca onde se sentavam a descansar, a conversar e a esperar uns pelos outros para depois iniciarem em conjunto a longa caminhada que os esperava até às longínquas relvas do Queiroal, da Burrinha ou da Água Branca. Ali o ar era puro, fresco e exalava um cheiro a poejo e a erva-néveda. Além disso, as que iam mais aliviados do peso dos cestos e cabazes podiam apreciar uma vista deslumbrante. A poente vislumbrava-se a ampla fajã, delimitada pela Rocha e pelo oceano. Ao longe, a enorme planície da Fajãzinha, com um alcantil sobranceiro, donde irrompiam cascatas de um esbranquiçado flavescente que, ora se perdiam entre o arvoredo, ora se salientavam nos socalcos das ravinas. Lá longe o casario disperso, a perder-se entre os cerrados de milho e os prados verdejantes. Depois a floresta de um verde escurecido onde se escondiam as poucas casitas da Cuada. Finalmente, mais ao perto, a Fajã, com as casinhas aninhadas junto à igreja e protegidas pelo Pico da Vigia e pelo Outeiro. Cercando o enorme semicírculo, o oceano, azul, infinito e cada vez mais inclinado, onde calmo e ronceiro navegava um enorme e esbranquiçado paquete que se encaminhava-se na direcção do Monchique e da Rocha da Ponta.

Pouco depois a coluna começava a deslizar sobre alfombra fresca e perfumada das relvas, tornando a caminhada mais suave e menos perigosa do que a da Rocha. As casas da Fajã e o Oceano haviam-se perdido de vista. Agora só o verde silencioso e fresco do Mato. Ao fundo o Queiroal povoado de relvas, separadas por tapumes de hortênsias multicolores. Mais aquém, a Ribeira das Casas, na sua infância, com o seu enorme, temível e fundíssimo Caldeirão e, mais ao perto ainda, o Calhau do Touro, que nos dias de vento forte emitia aulidos semelhantes aos dos bovinos, razão porque granjeara aquele nome estranho e esquisito.

Com o  Sol já quase a pique o pelotão atingia o tão almejado portal que dava da relva do Bacelar para a do Fragoso, onde se situava “o curral” das ovelhas. Separava-as uma enorme cancela, feita de paus de cedro, pregados uns nos outros, em rendilhado pouco simétrico, que rodava sobre ganchos de madeira encravados numa grossa parede e fechava-se do lado oposto com uma enorme e desconexa cravelha. Logo a seguir o “curral”, um fosso rectangular, cavado num canto da relva. Num dos extremos tinha um portal de pedra, que alguém já destapara. Precedia-o um enorme átrio, também cavado na relva e que se ia afunilando até desembocar no Curral.

Ao chegar junto do “curral” das ovelhas, as mulheres poisavam os cestos e os cabazes sobre a relva demarcando o território necessário à colocação de utensílios e gado. As mais lestas corriam para apanhar as áreas melhores e mais próximas do “curral”, enquanto as outras escolhiam os sítios mais abrigados. A relva perdia o verde e transformava-se num tapete multicolor, salpicado de pessoas, de toalhas, de cestos e de cabazes.

Os grupos de homens que haviam caminhado de manhã, regressavam agora juntos, com o gado, enquanto outros formavam uma espécie de cordão com o fim de impedir a fuga dos ovinos. Uma enorme algazarra, misturada com o latir dos cães, começava a ouvir-se. Os grupos haviam-se juntado, no cimo da ladeira da Burrinha e conduziam um enorme rebanho do Rochão do Junco ao Rochão Tamujo, onde ficava o “curral”. De repente, este enchia-se e transformava-se num espesso e denso manto negro e branco. Um dos cabeças fechava o portal e dava ordens para que todos saíssem.

Os homens esfomeados, a arfar cansaço e com as roupas encharcadas de suor e humidade procuravam familiares e comida. Todas as famílias se sentavam ao redor dos cestos petiscando as diversas vitualhas que até ali tinham sido transportadas.

Depois de retemperadas as forças com a primeira refeição, homens, mulheres e crianças chegavam-se para a orla do “curral”.  Uma vez dada a autorização, cada qual entrava no “curral” e procurava os animais que tinham assinalado nas orelhas o sinal denunciador de lhes pertencer: “Na direita, forcada e troncha com três mossas. Na esquerda, troncha fendida com mossa”.

É que cada família da freguesia, possuidora de ovelhas bravas no baldio, tinha, por tradição hereditária, um sinal constituído por um conjunto de marcas diversificadas nas orelhas dos animais, que os identificavam como sua pertença. Assim os homens e os rapazes desciam ao curral e procuravam o seu sinal nas orelhas de quantos ovinos lhes passavam pelas mãos, até encontrar os que lhes pertenciam. Depois, amarravam-lhes pés e mãos e entregavam-nos a um familiar que os ia, sucessivamente, aconchegando, no sítio que inicialmente demarcara, enquanto o curral se ia esvaziando lentamente. Por fim ficavam apenas os cordeirinhos e uma pequena quantidade de carneiros e ovelhas, que haviam escapado às recolhas anteriores.

Em seguida, os homens, regressando aos seus locais, munidos de tesouras bem amoladas, iniciavam a tosquia, enquanto as mulheres enchiam a lã em cestos e sacos.

Uma vez tosquiada, cada ovelha era testada: se não desse leite, libertava-se na direcção do baldio, caso contrário era sinal de que tinha cria a qual, muito provavelmente, estaria no “curral”. Era necessário procurá-la e só a mãe a poderia identificar. Por isso os donos amarravam aos pescoços das presumíveis progenitoras lenços ou panos de cores diversas, atiravam-nas de novo para “o curral”e colocavam os mais pequenos à espreita. O vigia nunca podia perder de vista a sua ovelha a fim de identificar a cria logo que mamasse na mãe. O dono saltava para o curral e apanhava ovelha e cria, desenhando, nas orelhas desta, as marcas que a identificariam como sua pertença. No próximo Fio, já feita carneiro ou ovelha, seria facilmente identificado pelo proprietário.

Por vezes era necessário a intervenção dos cabeças para julgar os batoteiros que se apoderavam de crias que não lhes mamavam nas ovelhas, negando-lhes, assim, o direito às que de facto não lhes pertenciam.

Tosquiadas todas as ovelhas, e despejado o curral, homens e mulheres voltavam a sentar-se na relva amachucada por pessoas e gado para novo repasto. Depois, carregando sacos e cestos de lã e um ou outro carneiro para abate, iniciavam o regresso a casa, calcorreando atalhos e veredas, até ao cimo da rocha. Finalmente a descida do famigerado alcantil, enquanto o Sol amarelecido e avermelhado se ia escondendo no horizonte até o dia escurecer por completo.

Dento em breve chegariam as noites longas de Inverno e os serões, durante os quais se cardava e fiava a lã. Enquanto os homens batiam a sueca, algumas mulheres, puxando as cardas, transformavam a lã em fofas pastas, enquanto outras, rodopiando o fuso com destreza, transformavam as pastas em fios que, depois de dobados, ou entravam na urdideira e mais tarde no tear para se tecerem mantas e cobertores ou eram tricotados por mãos mágicas transformando-se em casacos, sueras e peúgas.

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