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O JOÃO DA CATRINA

Quarta-feira, 14.10.15

Vivia no início da Assomada, numa pequena casa muito próxima da Praça, no enfiamento da Canada que dava para o Pico. Era um homem simples, pobre, bondoso, humilde e muito comunicador. Vivia com a mulher de nome Laura e que por ser casada com ele era conhecida por Laura do João da Catrina. Tinha ainda na sua companhia uma irmã da esposa, deficiente e solteira, conhecida como a Anina da Laura e que se vestia habitualmente de preto, era quase muda e, aparentemente, comunicava com as paredes, como que falando com elas, uma vez que praticamente não falava com as pessoas. O casal tinha apenas um filho, também ele solteiro e um excelente carpinteiro.

Embora mais velho do que meu pai, para além de vizinho, era um dos maiores amigos do meu progenitor. Conversavam bastante, ajudavam-se e aconselhavam-se mutuamente, uma vez que ambos se dedicavam a uma simples agricultura de subsistência, criando apenas uma ou duas vacas, cultivando pequenas belgas, trabalhando uma ou outra terra de mato, possuindo duas ou três relvas.

O que mais caracterizava este homem simples e generoso era ser um pensador nato e um excelente comunicador. Embora não lesse, nem talvez soubesse ler, ouvia muito rádio, coisa rara nesses tempos na Fajã Grande, sendo a Emissora Nacional a estação que ele mais ouvia. Estávamos em plena década de cinquenta e, por esta altura, iniciara-se a guerra em Angola. Algum tempo depois desta estalar por vontade e casmurrice do governo de Salazar, a Emissora Nacional começou a emitir um programa intitulado A verdade é só uma. Rádio Moscovo não fala verdade. Como estávamos em tempo em que a censura era rainha, tratava-se, naturalmente, de uma tentativa simulada de contrariar as notícias e comentários que a rádio moscovita difundia em língua portuguesa acerca do que se passava em Angola e que era ouvida em Portugal, apesar dos esforços do governo em silenciá-la ou de intimidação sobre quem a procurava escutar. Essas crónicas radiofónicas da Emissora Nacional eram invariavelmente encerradas com o slogan acima enunciado e assinadas pelo autor, com a seguinte frase que se tornou célebre e que o João da Catrina repetia com insistência: Crónica de Angola. Daqui fala Ferreira da Costa!

Quando se sentava a Praça o João da Catrina, também se apresentava como defensor e propagandista, à sua maneira, das ideias de Nikita Khrushchov, na altura presidente da União Soviética e líder político do mundo comunista. Dele também falava o Catrina com grande entusiasmo e convicção, embora nem sempre com algum rigor. Mas como o que mais dominava as suas frequentes parangonas eram as crónicas de Angola, as quais terminava sempre com a frase Fala Ferreira da Costa, de imediato granjeou este epíteto.

Acresce dizer-se que o seu nome de verdade era João Rodrigues, mas talvez porque a sua mãe ou alguma ancestral sua se chamasse Catarina, o povo na sua simplicidade e original capacidade de adaptações linguísticas batizou-o simplesmente por João da Catrina e ninguém o conhecia por outro nome, transformando-o, na verdade, numa das mais emblemáticas figuras da freguesia da Fajã Grande.

 

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