Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O LAVRADOR DA ARADA

Domingo, 03.12.17

Numa das últimas aulas do ano letivo, o Dr Edmundo de Oliveira, professor de Música, com o objectivo de nos sensibilizar para a pesquisa e defesa do património cultural açoriano, no que à música dizia respeito, encomendou à turma um pequenino trabalho para férias: – cada um de devia procurar uma música popular da sua freguesia ou da sua ilha, registar a letra e a música e aprendê-la. Havia de cantá-la nas primeiras aulas, no início do ano lectivo seguinte.

Arrepiei-me. Na realidade a música não era o meu forte. Mas lá fui para férias sensibilizado para executar a tarefa.

Ora, na Fajã Grande, os foliões do Espírito Santo, cantavam, entre outras, uma música cuja letra era muito conhecida e apreciada: O Lavrador da Arada. Ouvira-a, muitas vezes. Como meu pai, em tempos fora folião do Senhor Espírito Santo, cantava-a muitas vezes. Eu, habitado a ouvi-la já conseguia traulitá-la. O pior era arranjar a música. Tanto procurei, tanto labutei e tanto coscuvilhei que fui dar com ela num livro antigo que havia nos arrumos da igreja paroquial. Todo contente por ver que havia de sair airosamente daquele imbróglio e fazer um figurão na aula do Dr Edmundo, arranjei uma folha de papel com pautas e zás! Numa tarde passei a música e a letra para a pauta com a clave de sol, muito bem desenhada. Regressei ao Seminário e lá me encaminhei para a aula de música, todo contente, cuidando que, pela primeira vez, havia de fazer boa figura e ter um êxito musical de se lhe tirar o chapéu. Chegou a minha vez, entreguei a partitura ao mestre e comecei, com a outra cópia da partitura, a cantar, cuidando eu, de acordo com as notas que ali estavam escritas: “O la-vra-do-or d’a-a-a-ra-da, aien-com-trou-ou um-um po-o-bre-zin-in-nho eo po-bre-zin-in-nho lhe di-i-sse, ó, le-va-me no-o teu-eu car-rin-in-nho…”

Olhei para o Dr Edmundo e ele ria perdidamente. Quando terminei, com um suave e doce sorriso, disse-me:

- Até cantaste muito bem, sim senhor! Mas a música que cantaste não é a que esta aqui!

Foi risota geral, um gozo acentuado e eu, cheio de vergonha e vermelho que nem um pero!

O Dr Edmundo, vendo a minha atrapalhação e o meu desalento elogiou mais uma vez o meu desempenho musical, explicando que nos Açores, algumas canções, embora tendo a mesma letra, nalgumas ilhas, eram cantadas com música diferente.

Mas durante muito tempo, no Seminário, para me arreliar, pelos corredores e recreios não se cantava outra coisa, senão “Lavrador da Arada.”, (à moda das Flores – diziam).

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:20





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Dezembro 2017

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

GEOCLOCK


contadores de visitas

GEOWEATHER


contador de visitas blog

GEOCOUNTER


contador de visitas

GEOUSER


contador de visitas

GEOCHAT


contador de visitas