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O NATAL NA FAJÃ GRANDE NA DÉCADA DE CINQUENTA

Terça-feira, 22.12.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, como naturalmente em todas as outras freguesias açorianas, os preparativos para o Natal começavam alguns dias antes, por vezes e nalguns casos, quase no princípio do mês de Dezembro, sendo que durante todo aquele mês, sobretudo as crianças viviam atafulhadas numa pequena grande azáfama. Na verdade, para os mais pequenos havia várias tarefas a realizar, nomeadamente, o fazer das casas e outros edifícios para o presépio e para as quais era necessário arranjar, por vezes até pedir nas lojas, restos de caixas de sapatos e caixotes de papelão, semear os pratinhos de trigo, arranjar material para a gruta. Aos adultos, nomeadamente às mulheres, era tempo de começar a fazer os licores, reservar ovos, engordar um galo ou uma galinha e arranjar ou mandar fazer uma ou outra fatiota para a noite e dia de Natal. Mas era sobretudo a preparação da ceia e do presépio que estava em causa. Na maioria das casas, sobretudo naquelas em que havia crianças, o presépio era, na verdade, o epicentro de toda a preparação do Natal. O presépio, para além de representar a gruta de Belém onde Jesus nascera pobremente, numa manjedoura, ao lado de um burro e de uma vaca, servia também para representar, não apenas a típica freguesia açoriana, com casas, igreja, ribeiras, caminhos, moinhos, campos, etc, mostrava também cenas do quotidiano da população das ilhas, nomeadamente a ida ao moinho, os trabalhos agrícolas, a criação de gado à porta ou das ovelhas do mato, a matança do porco, a ida á fonte, o mexerico pelas ruas, etc., etc. No meio de toda esta panóplia representativa e metafórica, nunca faltava, num dos cantos, lá bem distante da gruta, a humilde casa de Barbearias, onde segundo a lenda S. José foi pedir lume para fazer uma fogueira e aquecer água para lavar o Menino e, no outro, o grandioso palácio de Herodes, perverso e malvado tetrarca da Galileia. As figuras humanas, assim como as ovelhinhas, nalguns casos, eram de barro, geralmente compradas nas lojas ou trazidas por algum familiar de outra ilha e guardadas de um ano para o outro. A maioria, no entanto, eram figuras desenhadas e recortadas de papelão. Nas ovelhas de papelão colava-se um pouco de lã ou algodão do lado que ficava voltado para fora. As personagens humanas eram pintadas ou revestidas através da colagem de pedacinhos de papel a simular as roupas. Por sua vez os montes eram construídos com pedras ou papel amarrotado e cobertos com leivas musgo verde e fofo, as ruas que circulam entre as casas eram feitas de farelo de serragem de madeira, as ribeiras que corriam pelas encostas com pratas de papel de chocolate e os lagos onde desaguavam feitos com vidros partidos, nos quais nadavam patinhos também eles de barro. A igreja, as casas e as outras construções eram de papelão e, para a cobertura dos telhados, usava-se papelão canelado. Recortavam-se as janelas e as portas, colavam-se cortinados… Enfim, nada faltava, mas todo este material tinha que ser recolhido com antecedência, o que nem sempre era fácil.

A ceia da Noite de Natal era muito diferente das dos restantes dias. Para além dos torresmos e da linguiça com inhames e pão fresco, comia-se uma galinha guisada ou assada e recheada com debulho. Mas, sobretudo para as crianças, o mais desejado era o arroz doce e os figos passados e, nas casas mais abastadas, o bolo doce de frutas.

O que, no entanto, atraía mais a atenção de todos, na noite do dia vinte e quatro era a tradicional Missa do Galo, à meia-noite e que fora precedida, nos nove dias anteriores, pelas novenas de Natal, celebradas sempre de madrugada, ainda noite escura. 

O dia de Natal era dia de visitar os presépios dos amigos, vizinhos, de toda a freguesia. Nessa altura comia-se um biscoito ou uma fatia de bolo e bebia-se um cálice de licor, alcunhado com muito carinho e ternura de Chichi do Menino Jesus.

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