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O VINHO E O MILHO DO PICO

Quarta-feira, 07.09.16

Segundo o escritor Dias de Melo o fabrico do vinho e o cultivo do milho eram, antigamente, as atividades mais importantes e a que mais se dedicava a população da ilha que o viu nascer, o Pico, no que à terra dizia respeito, porquanto, no mar, pontificava a caça à baleia. Aquele escritor registou, magistralmente e até como que recriou literariamente a azáfama das vindimas num inédito ambiente de alegria e festa, como evidencia nas suas Toadas:

 

«Ó Setembro das vindimas,

Vindimas da uva escura!

Não há, não, em todo Pico

Um mês de maior ventura!

 

Bom Povo da minha aldeia,

Povo da Terra e do Mar,

Deixa os botes, deixa o gado,

Neste mês é só gozar!»

 

Mas não se fica por aqui. Dias de Melo, um dos mais emblemáticos escritores açorianos, ainda recria as vindimas do Pico em Crónicas do Alto da Rocha do Canto da Baía e em Milhas Contadas. Segundo ele a festa das vindimas é o culminar do muito trabalho e sacrifício desde o tratar das videiras até ao fabrico do vinho, pois: «vinha para dar boa uva que faça bom vinho tem de ser plantada no meio de pedra, e na pedra da vinha se deixava muita pele dos dedos» e arranhões das silvas nos braços ao mondá-las e ao arrancar varas que tinha enraizado aqui e além.

Em quase todas as freguesias, sobretudo nas mais afastadas da costa, a festa começa com a mudança para a beira-mar, onde normalmente se situam as vinhas e as adegas, local de veraneio dos que vivem mais para o interior da ilha. Em freguesias como São Caetano, mais próximas do mar, a deslocação para as adegas fazia, geralmente, durante o dia, embora a atividade vinícola se prolongasse muitas vezes pela noite dentro. Uma vez instalados nas adegas e combinados e devidamente calendarizados os dias de vindima de forma a permitir a entreajuda recíproca entre familiares e amigos, mulheres e homens, raparigas e rapazes vão-se pelos 'currais' a colher as uvas para cestos de asa pequenos enfiados no braço e quando cheios a despejarem-nos nos maiores que depois hão-de acarretar até à adega, eles às costas e elas à cabeça, por canadas de trilho tão mau que aos próprios burros daqueles que os têm custa a passar. É por entre risotas e cantigas que novos e velhos se entregam felizes a este cansativo trabalho, não sem que, interrompendo-o ao meio dia, altura em que muitos fossem de arruada banhar-se ao mar, os de baixo, no cais, já com fatos de banho, e os de cima ainda vestidos à antiga, nos poceirões. Pela tarde, depois de escolhidas as uvas, tarefa em que a miudagem também colaborava, chega o momento de as pisar. Fazem-no os adultos à mão em selhas apropriadas enquanto no lagar os mais novos se deliciam a moê-las de pés descalços e calças arregaçadas em grande folia. A ceia era normalmente comida na rua à luz duma petromax após o que velhos e novos, mais os novos que os velhos, se juntavam num largo central «a prolongar o serão nas voltas das chamarritas bailhadas ao com­passo e ao ritmo da viola, da melodia da rabeca nas mãos dos tocadores, e das cantigas que, em despique, os cantadores cantavam.» A festa haveria de prolongar-se até que, cansados, os bailadores resolvessem recolher-se para dormir num canto qualquer da adega, ao som da linda música que o pingar do mosto fazia ao cair na selha.

Para Dias de Melo o milho era a base da alimentação. A farinha de milho sob a forma de bolo ou de pão tanto era cozinhada no tijolo como no forno. Cultivado em terrenos contíguos à casa ou mais longínquos, a apanha constituía, depois das vindimas, novo momento importante de partilha, um dia nos cerrados deste outro nos daquele. A faina começava de manhã cedo, já com os frios do Outono adiantado. Por volta do meio-dia, muitos de cesto às costas ou à cabeça, acarretavam-no para a atafona ou para a loja ou iam-se enchendo os carros de bois que, pela tarde, a chiar, o haveriam de trazer para casa. Seguiam-se os serões da descasca. Juntavam-se os vizinhos e dividiam-se tarefas, uns a abrir e a esgaçar a casca «com a ponta da navalha, ou com um fincão de faia bem aguçado», outros a quebrarem-na atirando as maçarocas e as folhas para os respectivos montes. Quando aparecia uma maçaroca de milho vermelho ou apenas rajada, havia festa de beijos e abraços numa risada que os mais novos prolongavam indefinidamente. Às vezes, brindavam com figos passados do Algarve a acompanhar uns copinhos de aguardente e ouviam-se histórias contadas ou lidas por um dos mais velhos. Acabada a descasca, o milho em maçaroca ia a secar no forno. Aquecia-se (também se aproveitava o calor que ainda tinha após a cozedura do pão) e lá ficava de um dia para o outro. O número de vezes que era preciso aquecer o forno dependia da abastança da colheita. Uma vez seco, retirava-se do forno e despejava-se numa esteira para ser debulhado à mão por homens e mulheres. Sentados à roda, «iam arrancando dos sabugos, com sabugos debulhados, melhor com debulhadeiras de bucho ou osso de baleia com dentes de ferro, a maçaroca na mão esquerda, a debulhadeira na direita, assim iam arrancando dos sabugos os grãos, e os grãos caíam, ao lado de cada homem, no regaço da saia de cada mulher, crescia o caculo de milho debulhado». Era depois arrecadado em latões, arcas, arquibancos. A escassez de milho em ano de seca levou a que se importasse dos Estados Unidos. Dias de Melo regista o facto várias vezes.

 

NB – Alguns dados e as transcrições foram retirados da net.

 

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