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OS SANTINHOS DA MINHA AVÓ

Sábado, 25.06.16

Possuía minha avó, em cima da cómoda da sala, um pequeno oratório, onde guardava, com grande estima e acentuada meticulosidade, os três santos da sua heteróclita e pouco canónica devoção: São Pedro, São João e Santa Rita.

Os santinhos passavam ali dias e noites, isolados de tudo e de todos. Apenas minha avó, quando as agruras e atrocidades da vida o exigiam, recorria à sua protecção suplicando as graças e os favores de que necessitava e, em caso de atendimento, acendendo uma luzinha que ali permanecia três, quatro, cinco ou mais dias, conforme a importância do favor alcançado.

Se não chovia durante quinze dias, lá estava ela diante de oratório, pedindo chuva a São João. No dia seguinte chovia e o precursor messiânico tinha garantida luzinha durante três dias, pese embora o mefítico cheiro a petróleo, exalado pela sala e que provocava grande contestação por parte dos tios que, dada a exígua pequenez da casa, lá dormiam.

Se o tio Onofre ia às Lajes e se demorava, lá estava ela a suplicar a Santa Rita que o trouxesse são e salvo. O tio regressava, luzinha acesa quatro dias. Se a Mimosa negava o leite, era para o São Pedro que se voltava, a fim de que o porteiro celestial alterasse o úbere da vaca. No dia seguinte, chegavam as latas cheias de leite e o santo tinha luzinha garantida uma semana. Às vezes, para assegurar de forma mais eficiente a obtenção do milagre pretendido, recorria simultaneamente a dois ou até, em casos extremos, aos três santos. Foi o que aconteceu quando o tio Justino foi para a tropa, para S. Miguel e, passados dois anos, regressou gordo e anafado que nem um chino. Os três santos tiveram a luzinha acesa durante três meses.

A fama milagrosa e a popularidade dos três santos era tanta e tal que muitas vezes, não só as vizinhas como até as amigas de mais longe vinham pedir-lhe que recorresse à sua protecção e, no caso de serem atendidas nas suas necessidades ou maleitas, eram elas que pagavam o petróleo que a luzinha consumia durante os dias que duravam as promessas. A casa da minha avó transformava-se, assim, por vezes, num autêntico pequeno santuário. Pela freguesia corria um falatório desusado. Não havia maleita, infortúnio ou desgraça cuja vítima não procurasse os “Santinhos da tia Jarónima Batelameira.”

Eu, na minha inocência de criança, admirava-me com tal taumaturgo poder e entendia que os santinhos não eram devidamente recompensados. Na igreja, sob as ordens de Padre Silvestre, as gigantescas imagens de São José, da Senhora da Saúde, de Santa Teresinha e até do Coração de Jesus não faziam, que se soubesse, nem de longe nem de perto, milagres comparáveis aos daqueles três santos carracenos. Apesar disso, eram dolares a cair sobre os altares, eram velas, missas votivas, sermões, novenas e procissões, durante as quais eram levados em ombros, pelas ruas da freguesia. A Senhora da Saúde era a mais festejada. Tinha direito a uma grande festa, com foguetes, quermesse, bandeiras, à qual até vinha, juntamente com romeiros de toda a ilha, a filarmónica da Fajãzinha. Os da minha avó era um chorrilho quotidiano de milagres e nada mais do que a luzinha!…

Comecei, então, a arquitectar a forma mais correcta de ressarcir os três santinhos de tão grande injustiça. É que sentia no meu íntimo que, assim como entre as pessoas, também entre os santos havia desigualdades entre grandes e pequenos. Se os santos grandes, mas menos taumaturgos do que os pequenos, tinham direito a festas, missas e procissões, porque razão os pequenos não deveriam ter esse mesmo direito?

Certo dia minha avó saiu de casa juntamente com as tias, para apanhar o milho das Furnas. O cerrado era grande e a tarefa demoraria toda a manhã. Em casa fiquei eu, meus irmãos mais novos e os primos da Via d’Água. Na minha qualidade de decano da pequenada, fora-me recomendada a guarda de todos. Estavam criadas, pois, as condições ideais para repor a justiça. Iríamos fazer uma grande festa, com uma procissão que não desdenhasse em nada das que padre Silvestre fazia à Senhora da Saúde e a São José. Organizei tudo. Os paramentos e as opas foram feitos de toalhas e soeras velhas. A cruz foi construída com dois paus tirados do cepo da lenha. Fazer os andores foi a tarefa mais difícil. Obtive-os da transformação de três caixas de fósforos, devidamente furadas e nas quais meti dois pauzinhos de cada lado. Tudo muito bem preparado e cuidado como a grandiosidade da cerimónia exigia. O vidro do oratório estava pregado. Enfiei-lhe uma faca de cozinha. Os pregos presos na madeira carcomida saíram facilmente e os santinhos, que nunca tinham gozado, que se soubesse, tal privilégio, vieram, sem dificuldade, cá para fora, sendo colocados nos andores que a Graça e a Juliana haviam enfeitado com pétalas vermelhas, amarelas e brancas. Estavam prontos a caminhar.

De seguida organizámos a procissão. À frente, meu irmão mais novo com a cruz, feita de dois garranchos tirados do cepo da lenha. Depois o Luís, o Carlos e a Juliana, cada um com o seu andor, todos de soeras e casacos vermelhos a fazer de opas. A seguir eu com duas toalhas presas com alfinetes, enfiadas no pescoço, a simular uma casula amarela, igual à que padre Silvestre vestia em dias de festa. Atrás a Graça com uma vela na mão. Todos cantavam, na maior das devoções, prestando aos três santos a homenagem devida e o agradecimento por todas as graças concedidas à nossa avó.

De repente, abre-se a porta da cozinha com grande estrondo. Era a tia Hermínia que tinha vindo a casa buscar uns sacos esquecidos.

Todos nos assustámos terrivelmente. Uns fugiram para debaixo das as escadas do saguão e outros esconderam-se debaixo das camas, enquanto os pobres dos santos, porque soltos em cima dos andores, rolaram pelo chão. O São Pedro partiu a cabeça e o braço que mantinha erguido mostrando ostensivamente a chave do céu. Santa Rita partiu-se ao meio e São João, o menos acidentado, partiu a peanha e perdeu o aro.

 A tia Hermínia acorreu espavorida. Levava as mãos à cabeça e gritava como se grande desgraça tivesse acontecido:

  -Ah! Grandes patifes! Vocês sabem o que fizeram!? Estamos desgraçados! A avó o que vai dizer? Deram-lhe cabo dos santos!

 Eu nem a ouvia. Na minha qualidade de responsável mor por tal hierática hecatombe, permanecia estarrecido e a chorar, enquanto os outros, aparecendo dos seus esconderijos e apontando para mim, juravam em coro:

 -  Foi ele! Foi ele! Ele é que abriu o oratório.

Apesar de partidos, virei-me para os santos com enorme convicção. Lembrei-me dos vinte centavos que minha mãe me dava para gastar na quermesse da Senhora da Saúde e, decididamente, prometi:

 - Meus santinhos! Se mesmo partidos, fizerdes o milagre da avó não me ralhar e me livrardes duma grande tareia, vou comprar petróleo com o dinheiro da festa da Senhora da Saúde e acender-vos a luzinha.

A verdade é que minha avó, quando chegou, nem fez grande alarido. Talvez porque compreendesse a minha intenção de agradecer aos santos, talvez porque compreendesse a nossa inocência, decidiu-se por colá-los. E não querem ver que mesmo colados os santinhos continuaram a fazer milagres e o primeiro milagre foi o meu, pois livrei-me da tareia a que merecia.

E os santos tiveram luzinha acesa durante três dias.

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