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PARTE V - IV ATO CENA 9 A

Domingo, 12.03.17

PAI               (Entrando com  Álvaro e cumprimentando D. Josefa.) -  Como está D. Josefa? Dá-se licença?

JOSEFA - Faça favor. Entre, entre. Como está Sr António? Ah! E traz um menino!

ALGARVIO (Tentando levantar-se.) – Ó homem! É preciso bater à porta e pedir licença? Esta casa é tua!... Então como estás, homem? – (Abraçam-se.)

PAI               - Como vai essa saúde António?

ALGARVIO - Já esteve pior, muito pior, mas ainda não está bem. Esta viagem no Carvalho custou-me muito, quase me matou. E da Fazenda de Santa Cruz para aqui, como não há estradas, nem carros, olha, tive que vir de palanca. Esta terra não progride. Nunca mais fazem estradas… Admite-se que ainda não haja uma estrada a ligar a freguesia mais importante do concelho de Santa Cruz à vila?... E no concelho das Lajes ainda é pior: quatro das seis freguesias ainda não tem estrada que as ligue à vila. - (Retorcendo as pontas do bigode.) - Vocês lá na Fajã querem tratar qualquer coisa na sede do vosso concelho e têm que ir a pé! Isto não se admite… Bem, mas ainda mal consigo andar, meu amigo. Foi uma operação muito grande! Já me arrependi de ter vindo no último Carvalho! Devia ter ficado mais algum tempo na Terceira. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - Só que se o fizesse teria que lá ficar mais um mês. Não se admite que o navio só venha uma vez por mês às Flores. De duas uma: ou ficava mais um mês em Angra do Heroísmo, gastando uma fortuna ou vinha-me embora para as Flores, fazendo um grande sacrifício e correndo grandes riscos. Mas vá lá que correu tudo bem e estou a ficar melhor. – (Apontando para o Álvaro) – Então trouxeste um dos pequenos!? – (Retorcendo as pontas do bigode) - E este qual é? É o mais velho? Como estás meu rapaz? Dá cá um abraço.

PAI               - Este é um dos do meio. - (Para Álvaro) – Cumprimenta o Sr António. – (Para o Algarvio) – E lá em Angra, como foi?

ALGARVIO - Oh homem tu também já foste lá, à faca. Sabes como é. Eles são uns carniceiros!  Nos primeiros dias é esperar, esperar, em casa das Senhoras Cupides, na rua da Garoupinha, nº 5, que é o hotel das Flores e de S. Jorge. Aquilo está sempre cheio de florentinos e jorgenses. Depois lá consegui a consulta no doutor Gago da Câmara. Felizmente ele marcou logo a operação e internou-me imediatamente no hospital. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - Olha ali a Josefa é que gostou de estar em casa das Cupides. Ficou a saber a vida de toda a gente em Angra do Heroísmo… Inclusive a do bispo, do cabido da Sé de quase todo o clero da ilha…

D.JOSEFA   - Credo, que exagero. Mas olha que eu nunca perguntei nada a ninguém. Só ouvia o que me diziam. E olhem que não era pouco! Aquilo é que é pouca vergonha, naquela cidade. São lugares muito grandes. Se aqui já é o que se vê, o que não seria lá. Este mundo está perdido! Até já dizem que é o terceiro segredo de Fátima que vai ser revelado.

ALGARVIO - Ó António, fala-me de ti homem. Que grande desgraça te aconteceu! E eu que não pude ir à Fajã para te dar um abraço. Naquela altura já estava muito doente… Mas conta-me, como foi que ela morreu?

PAI               - António, foi uma desgraça. Foi uma grande desgraça!

  1. JOSEFA - E ela ainda era muito nova, não era Sr António? E é verdade que estava à espera doutro filho? Coitadinha. Deus dê paz à sua alma.

ALGARVIO - Ó mulher ouve e cala-te.

PAI               - Tinha 41, D. Josefa. E estava à espera de um filho… estava… Sabes como ela era António. Não parava, nem em casa, nem nas terras. Sempre a trabalhar. Ajudava-me muito! E agora que a Amélia, a mais velha, já fazia muita coisa em casa ela ajudava-me muito nas terras. Foi tratar dumas galinhas e um sanababicha de um galo da Madeira deu-lhe um bicada numa perna, por azar, numa variz. Depois aquilo nunca mais curava… Fui procurar o senhor doutor… Corri a ilha toda atrás dele… Lá mandou que ela fizesse análises… Ela tinha a albumina muito alta, e ele pediu para a internar no hospital da Vila. Levei-a imediatamente, com muito sacrifício, porque ela já não conseguia andar pelo seu pé. Tivemos que subir a rocha dos Bredos com ela às costas, de palanca. Foi terrível! E, para desgraça minha, já não voltou a sair do hospital….

ALGARVIO- Esse sanabagana desse doutor é que é o responsável por tudo isso. Passa a vida a caçar e em jantaradas. Procura-se por toda a ilha e nunca se encontra. E quando se encontra, só sabe receitar leite de cabra. Mas a culpa não é só dele. É deste governo republicano, a culpa é dos republicanos que desde o regicídio governam este país. Isto não se admite. O governo não olha por nós. Uma ilha com mais de dez mil pessoas tem só um médico e um hospital com meia dúzia de camas! Um hospital que é uma vergonha! A minha sorte foi nem lá entrar. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - Esta ilha está totalmente abandonada e desprotegida, homem. Isto é uma vergonha!... As pessoas morrem aqui com uma simples dor de cabeça, porque não há um comprimido para lhes dar. E ninguém faz nada para mudar isto! Eu bem falo e protesto, mas ninguém me ouve. Acusam-me de monárquico, como se fosse um crime desejar outra vez um rei para Portugal. – (Retorcendo as pontas do bigode.) - E agora António, como é que vais organizar a tua vida, homem?

PAI               - Isso é que me preocupa e muito. Mas tenho que me amanhar sozinho. Os dois mais velhos já me ajudam muito, embora um deles ainda ande na escola, na 3ª classe. Mas eu não o tiro da escola por nada deste mundo! Eles a bem dizer já fazem tudo, menos lavrar com o arado de ferro. E a Amélia, a mais velha, foi muito habituada pela mãe na vida da casa. Já faz tudo sozinha. Coze pão no forno, coze bolo, acarta água, arruma a casa, faz a comida e vai lavar à ribeira. Olha até já remenda a roupa. (Voltando-se para Álvaro). Este é o meu companheiro! Acompanha-me sempre para todos os lados. Mas custa-me muito vê-los penar assim… e depois sempre a lembrarem-se da mãe… Custa muito, custa! Tudo a faz lembrar. – (Com lágrimas nos olhos) - Uma mãe faz muita falta numa casa…

D.JOSEFA   - Se faz Antoninho, se faz. Olhe perdi a minha já era uma rapariga e a falta que ela me fez… Só Deus e eu o sabemos. Mas o Antoninho é muito novo. Não vai faltar mulher que o queira! Olhe o José da Grota, aqui de Ponta Delgada… Há pouco mais de um mês que a mulher lhe morreu e já anda com a mais velha da Ana do Outeiro. Dizem que nas terras aí para cima é uma vergonha! Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Para sempre seja louvado.

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