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PARTE V - IV ATO CENA 9 B

Segunda-feira, 13.03.17

ALGARVIO - Josefa, não comeces… – (Retorcendo as pontas do bigode.)

JOSEFA - Eu não ponho famas nem aleives a ninguém. Só digo o que oiço dizer.

PAI               - D. Josefa, com seis filhos para criar, com as terras para trabalhar e o gado para tratar… Não acha que tenho sarna para me coçar?

ALGARAVIO - Ora vamos deixar coisas tristes e vamos conversar é com este nosso homenzinho, que desde que chegou ainda não disse nada. Como te chamas? Perdeste a língua?

ÁLVARO     - Álvaro, Álvaro Lourenço Belchior.

PAI               - Ele está um bocado mal disposto. É que nós viemos de barco…

ALGARVIO – No do Gregório, que foi levar farinha à Fajã…

PAI               – Sim. Mestre Gregório apareceu lá na Fajã e é que se ofereceu para me trazer. O pequeno, quando soube ficou todo contente, porque nunca tinha andado no mar. No início da viagem, vinha muito bem-disposto, mas depois o mar começou a piorar, a piorar e ele começou a enjoar, vomitou e passou mal toda a viagem… Uma desgraça! Sorte foi ter adormecido a partir da ponta do Albarnaz.

  1. JOSEFA - Coitadinho! Então deve estar muito fraquinho e cheiinho de fome.

ALGARVIO - Ó mulher e tu aí parada a fazer o quê!? – (Retorcendo as pontas do bigode.) – Vá lá, buscar alguma coisa para a criança comer.

D.JOSEFA   - O menino quer uma tigelinha de leite e uns biscoitinhos que tenho ali dentro, ainda quentinhos? Quer?

ÁLVARO     (Tímido e envergonhado.) – Não senhora. Não quero nada. Obrigado.

ALGARVIO-Ó Josefa, francamente. Isso é pergunta que se faça a uma criança, ainda por cima a uma criança que enjoou toda a viagem, da Fajã até aqui, que deve estar cheia de fome? – (Retorcendo as pontas do bigode.) – Vai imediatamente buscar alguma coisa para ele comer. Nunca se pergunta a um doente se quer saúde.

  1. JOSEFA - Muda! Ó Muda! Despacha-te mulher! Ai meu Sagrado Coração de Jesus! Ela nunca me ouve. - (Levanta-se e vai buscar comida.) - Estás cada vez mais surda.

ALGARVIO - Então chamas-te Álvaro. Sim senhor. Bonito nome. Fazes muito bem em acompanhar sempre o teu pai. – (Para o pai.) – Ainda tens dois mais novitos, não tens?

PAI               - Tenho uma menina de três e um rapaz de meses. Mas estão quase sempre em casa de minha sogra.

  1. JOSEFA (Entrando com uma bandeja com biscoitos e uma tigela de leite.) – Ora vamos lá a comer, que deves estar mortinho de fome.

ÁLVARO     - Não quero, obrigado.

PAI               - Álvaro, não te faças rogado. A D. Josefa oferece de boa vontade.

ÁLVARO     (Aceita e come sofregamente).

ALGARVIO - Então o leite das vacas cá do Algarvio não é melhor do que o das do teu pai? - (Para o pai.) – Quantas vacas tens, agora, António?

PAI               - Duas. Mas vou embarcar uma, a Toucada. Já está à engorda. Quero ver se me dá pelo menos um conto, para por água em casa e mandar fazer uma pia para lavar roupa. A água faz muita falta numa casa e a pequena é muito novinha e fraquita, não pode andar a acartar baldes e baldes de água e ir lavar sozinha para a ribeira. Tenho uma bezerra deste ano, que vou criar para fazer vaca. – (Para o Álvaro que acabou de comer.) – E agora? Como se diz à D. Josefa?

ÁLVARO     (Mais animado e recomposto.) - Obrigado senhora D. Josefa!

ALGARVIO -Sim senhor! Álvaro, - (retorcendo as pontas do bigode) – agora que já recuperaste as forças, diz-me lá: já andas na escola?

ÁLVARO     - Não senhor. Só tenho seis anos, mas em Março faço sete e a Sra Professora já disse que no dia a seguir entro logo para a escola.

PAI               - Ele já sabe ler. São minhas cunhadas que o ensinam. Depois ouve os irmãos a estudar e aprende tudo.

ALGARVIO - Depois de fazer a 4ª classe deves pô-lo a estudar, que ele parece muito inteligente

PAI               - Ui! Como António? Isso é uma loucura. Só se for com conchas de lapas. Já a Amélia também era muito esperta e quando acabou a 4ª classe a senhora professora disse-me o mesmo. Mesmo que fosse aqui na ilha eu não podia… Mas então para o Faial… Nem pensar…

ALGARVIO – Isto é uma vergonha! Numa ilha como esta só haver escolas primárias! Quem quer continuar a estudar tem que ir para o Faial, para a Terceira ou para S. Miguel. Isto não se admite!...

PAI               - As crianças fazem muita falta aos pais para os ajudar nas terras. Olha em toda a Fajã, que me lembre, só duas raparigas é que foram estudar para o Faial.

ÁLVARO     - Eu já sei os rios de Portugal todos. Quer ver Sr António: Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga, Mondego, Tejo, Sado, Mira e Guadiana. E também já sei os reis da 1ª dinastia e os seus cognomes…

PAI               - Álvaro, não aborreças mais o Sr António.

ALGARVIO – Deixa lá gosto de ouvi-lo. Além disso, com esta idade e a saber tudo isso não é muito vulgar.

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