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PARTE VI - V ATO CENA 11 A

Quinta-feira, 16.03.17

                     É noite escura. O pai e o Álvaro caminham, no escuro, nos matos, atravessando a ilha.

 

ÁLVARO     - Pai, a noite está tão escura! Não vejo nada! Devíamos ter ficado em casa do senhor Algarvio, em Ponta Delgada.

PAI               - E teus irmãos em casa sozinhos, sem saber de nós, preocupados, pensando que nos perdemos…

ÁLVARO     - Ó pai! Mas está tão escuro!... Não vejo nada!... Vamos voltar para trás!

PAI               - Vais ver que daqui a pouco os teus olhos se vão habituar à escuridão. E a Lua não vai tardar a aparecer. Isto é luar de Agosto!

ÁLVARO     - Ó pai! Mas eu tenho medo, muito medo.

PAI               - Medo de quê?

ÁLVARO     - Das almas do outro mundo.

PAI               - Qual almas do outro mundo, qual carapuça. As almas do outro mundo não fazem mal a ninguém. Os que morrem nunca mais voltam! As almas que ainda andam neste mundo é que, muitas vezes, fazem mal umas às outras.

ÁLVARO     - Mas dizem que no mato, de noite, aparecem muitas coisas.

PAI               -Aparecem tantas coisas como de dia, isto é, não aparece nada. A noite é igual ao dia, só com uma pequena diferença: é que é escura, não se vê. E é por isso que as pessoas têm medo.

ÁLVARO     - Ó pai, mas dizem que nos Terreiros, de noite, aparece um padre e um cão com uma cesta na boca e dentro da cesta leva a chave do sacrário. Foi o tio Francisco Fonseca que viu…

PAI               - Minhocas, minhocas na cabeça, é o que ele tem.

ÁLVARO     - E no largo da Cancelinha? Dizem que aparece lá uma mesa posta, com comida em cima…

PAI               - Também essa nunca vi. E com muita pena minha, porque às vezes passo lá com fome e aproveitava para comer.

ÁLVARO     - Ó pai! Por que é que é tão anamudo? Por que é que não tem medo de nada!

PAI               - Vou contar-te uma coisa. Uma vez, quando eu era rapaz, ia para o Areal, já era de noite. Ao passar na Furna das Mexideiras, ouvi uma barulheira  enorme. Fiquei assustadíssimo, tive muito medo e voltei para casa a correr cheio de medo. Meu pai perguntou-me o que tinha. Contei-lhe e ele disse-me que eu tinha que lá ir ver o que era, se não nunca mais lá passava. Como eu não queria ir sozinho, obrigou-me a ir com ele lá ver o que era.

ÁLVARO     - E pai foi?

PAI               - Fui, claro, mais ele.

ÁLVARO     - E viram alguma coisa?

PAI               -Vimos muitos cães. Tinham matado um carneiro, nesse dia, e atirado a cabeça para o baldio. Os cães apanharam-na, levaram-na para dentro da furna e, como todos a queriam comer, ladravam muito, faziam uma grande algazarra. Era esse barulho que fazia eco na furna. Era assustador! Mas era uma coisa deste mundo, tão natural. Foi assim que eu perdi o medo. Nunca mais acreditei em nada dessas tolices que contam por aí. Se não tivesse lá ido, nunca mais lá passava com medo… E contava a toda a gente e todos ficavam com medo… Tu também não deves acreditar nessas tolices.

ÁLVARO     - Ó pai, mas avó conta que pai Cristiano via muitas coisas. - (Ouve-se barulho) – Pai, está a ouvir! Ai! Tenho tanto medo. Estão a gemer, ali.

PAI               - É um boi que está a berrar. Estás a ver aquela mancha escura. É um boi na relva do Mantes. Viu-nos passar e, como é de noite, julga que é o dono e começou a berrar. Como vês, é tudo natural, é tudo deste mundo. Não tens que ter medo de nada do outro mundo. É preciso é ter cuidado com algumas coisas deste mundo… Essas, às vezes, é que nos fazem mal…

ÁLVARO     - Mas no fim da missa o senhor padre reza uma oração para afugentar os espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas…

PAI               - Espera – (Param) – Olha Álvaro, perdidos estamos nós. Mas não te preocupes. Antes de chegarmos às relvas vínhamos por um atalho. Era fácil de encontrá-lo. Agora entramos nas relvas, andamos por carreiros formados pelos passos das pessoas, através das pastagens, separadas por cancelas e tapumes de hortênsias. É difícil seguir pelo carreiro sem nos desviarmos. Mas vamos voltar a encontrá-lo. Não te preocupes.

ÁLVARO     - Ai! Tenho tanto medo, pai! E agora? Perdidos!? Vamos ficar aqui até de manhã?

PAI               - Não. Temos que seguir para nossa casa. Vamos procurar o caminho e vamos encontrá-lo. - (Silêncio) – Olha há aqui um tapume de hortênsias. Perto deve haver a cancela que dá para a relva seguinte…

ÁLVARO     - Pai, encontrou a cancela?

PAI               - Não. Estamos mesmo perdidos Mas vamos resolver isto. – (Silêncio) – Vamo-nos sentar um pouco.

ÁLVARO     - Pai, a erva está molhada!

PAI               - É do sereno. Senta-te em cima da minha froca.

ÁLVARO     - Pai, cada vez tenho mais medo. Vamos ficar aqui toda a noite?

PAI               - Não. Vamos resolver isto e já. Descalça os sapatos!

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