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PARTE VI - V ATO CENA 11 B

Sexta-feira, 17.03.17

ÁLVARO     - Ó pai! Para quê?  Tenho os pés quentes e a relva está toda molhada…

PAI               - Faz o que te digo. Descalça-te e dá-me os sapatos. Vou guardá-los na manga da minha froca, até ao Risco, onde acabam as relvas. Do Risco para lá já os podes calçar. Agora vais andando à minha frente, mas vai andando com cuidado, sentindo a relva debaixo dos teus pés, até encontrares o carreiro, onde ela está amachucada. Estás habituado a andar descalço. Passa muita gente por aqui. A erva está muito amachucada no sítio onde as pessoas passam. Assim, com os teus pés, vais conseguir encontrar o carreiro.

ÁLVARO     - Agora percebo. Dê-me a mão, que tenho tanto medo. Mas descanse, pai, que eu vou encontrar o carreiro.

PAI               - Vamos! Vai andando devagar, arrastando os pés… Assim… - (Pausa) – Devagarinho… Procurando bem…

ÁLVARO     - Pai! Encontrei! É aqui! Olhe, apalpe com as suas mãos e veja. É aqui, não é?

PAI               - É! É! Bravo! Estás a ver como foi fácil. Agora vai sempre direitinho, à minha frente, pelo carreiro adiante…

ÁLVARO     - Pai, mas eu queria ir ao seu lado, queria ir de mão dada consigo. Tenho medo. Olhe ali um vulto. É uma vaca deitada. Mas eu tenho tanto medo.

PAI               - Só deves ter medo de nos perdermos outra vez.. E eu acho que continuamos perdidos. Estamos a andar na direção de Ponta Delgada e não na direção da Fajã.

ÁLVARO     - Ó pai! Outra vez perdidos! Nunca mais chegamos a casa. E agora? O que vamos fazer?

PAI               - Agora vamos ter que resolver este problema, outra vez. Mas a noite está muito escura e não se vê nem a Ursa Maior nem a Estrela Polar… Não sabemos para onde fica o norte e por isso não sabemos se vamos na direção da Fajã. Mas vamos continuar a andar e quando encontrares uma parede, paras.

ÁLVARO     - Está bem, pai. – (Silêncio.) – Olhe! Estamos com sorte. Há aqui uma parede.

PAI               - Então para..- (Álvaro senta-se! O pai acaricia a parede de ambos os lados. Depois, com muita determinação e certeza.) - Íamos enganados. Nesta direção, regressávamos a Ponta Delgada. Vamos voltar para trás, porque a Fajã é na direção contrária.

PAI               - Como é que meu pai descobriu.

PAI               -Eu nunca andei na escola, nem sei ler nem escrever, mas durante a minha vida, aprendi muito, com o trabalho e com meu pai, teu avô, que já morreu há muitos anos. Ele ensinou-me que quando há nevoeiro ou andamos numa noite escura no mato e não se vê nada, nos podemos orientar pelas paredes, porque as paredes e os muros voltados para o norte recebem menos sol e, por isso, têm mais humidade e têm mais musgos e mais ervas. Foi isso que eu descobri, quando estive a apalpar a parede. Fiquei a saber para que lado fica o norte. Ora nós íamos a andar para o norte e como a Fajã fica para sul, foi só voltar ao contrário. Agora tenho a certeza que vamos na direção certa.

ÁLVARO     - Ó pai! Demoramos muito, já deve ser muito tarde. Deve ser quase meia-noite.

PAI               - Ainda não. Mas se fosse, qual era o problema?

ÁLVARO     - É que toda a gente diz que a meia-noite é a hora má, é a hora do demónio, em que ele aparece e aparecem muitas outras coisas. Minha avó até tem uma oração que reza para o afugentar para longe, quando está acordada à meia noite. Tenho tanto medo pai e ainda falta tanto para chegarmos a casa.

PAI               - Já te disse para não acreditares em nada disso. Tudo são coisas que as pessoas inventam:

ÁLVARO     - Ó pai e a ainda temos que passar a ladeira das Covas.

PAI               - E o que tem a ladeira das Covas?

PAI               - Pai não sabe? As pessoas quando passam lá ouvem gemidos. Pai, acredite! Toda a gente que passa lá ouve. Até o Senhor Padre Silvestre quando vai dizer missa à Ponta ouve. Ele ficou cheio de medo e agora  leva sempre dois homens com ele e dizem que os três ouviram os gemidos. A tia Juliana diz que aquela ladeira tem coisas do outro mundo porque Tiana de Bárbara contava que antigamente um homem viu lá uma mulher com pés e mãos de cabra.

PAI               - Isso são tudo tolices! Já foi descoberto o que eram os gemidos que toda a gente ouvia. Era a Ana do José Felício que andava por lá a gemer. Ontem um grupo de homens foi-lhe fazer uma espera, na relva do João Cristóvão. Esconderam-se toda a tarde na relva e à noitinha viram-na chegar e esconder-se numa furna. Eles calaram-se bem calados. Quando ela sentia alguém passar na ladeira, punha-se logo a gemer e a gritar. Eles pensavam que era apenas para assustar o senhor padre Silvestre. Mas depois apanharam-na e deram-lhe uma sova e ela lá explicou que só queria que as pessoas da Ponta tivessem medo de passar por ali, para não irem levar a moenda ao moinho do André e as deixassem no seu, que ficava para além da ribeira do Cão. Presta atenção ao carreiro e não penses mais nas tolices que te metem na cabeça.

ÁLVARO     - Já deve ser tão tarde… E ainda falta tanto para chegarmos a cima da rocha da Ponta. E a rocha é muito difícil de descer… e assim às escuras…

PAI               - Ou eu me engano muito ou quando chegarmos ao cimo da rocha já vamos ter Lua. Vai é com cuidado e atenção para não caíres e não nos perdermos outra vez. Tua irmã deve estar muito preocupada. Temos que andar mais depressa.

ÁLVARO     - Vamos pai!

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