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PARTE VII - VI ATO CENA 13 B

Segunda-feira, 20.03.17

M.LEVADA - De Ponta Delgada, de noite, atravessando os matos com uma criança desta idade!? Não estás bom...

PAI               - Mas a verdade é que vim. Saí de lá já muito tarde... A noite estava muito escura... Eu nem sei as horas...

IDALMIRO – Vão dar três, daqui a pouco.

PAI               - Três!? Eu saí de lá por volta sete... Não foi Álvaro?

ÁLVARO     (Sonolento) - Estava a dar as Trindades...

CIZALTINA - Pobre piauzinho! Toda a noite a andar no mato!? E não tiveste medo, meu querido?

ÁLVARO     - Não senhora. Vim sempre agarrado à mão de meu pai. E ele não tem medo de nada!

PAI               - Só que andámos algum tempo perdidos... Pelos vistos até mais tempo do que eu pensava...

LISANDRA- Perdidos!? E chegaram cá? Foi Nossa Senhora de Fátima. (Para o moribundo) Ó Isabelinha aperta-lhe a mão, outra vez, a ver se ele dá algum sinal...

PAI               - Mas o pior aconteceu ao descer a rocha. Logo a seguir ao Risco... Já havia Lua, e eu trazia-o pela minha mão... Só que ele vinha distraído, a olhar para tudo: para a Lua reflectida no mar, para os montes de sargaço no rolo, para um navio cheio de luzes que ia a passar pelo Monchique... e, como já vinha cheio de sono, de repente, zunba: meteu o pé num rego de água, escapuliu-me da mão e caiu num dos sítios mais perigosos da rocha. Se eu não fosse tão lesto e lhe deitasse a mão...

IDALMIRO- Tinha-te caído ao mar…

M.LEVADA- Credo homem! Nunca mais te calas com essas tolices…

PAI               - Mas olha Maria: a verdade é que naquele sítio eu nunca mais o agarrava...

ÁLVARO     - Via-se o mar lá em baixo.

IDALMIRO – Ai se via!.. Se é no sítio que estou a pensar, nem a alma se aproveitava. Eu conheço aquela rocha melhor do que ninguém. Há quarenta e cinco anos que passo lá todos os dias... E na descida venho sempre carregado com as latas do leite. Mas nunca caí.

CIZALTINA- Que grande susto senhor António. E ele não se pisou?

PAI               - Só fez um mamulo na cabeça. Chorou... Chorou… O mamulo cresceu... E eu sem nada frio para lhe pôr. Mas como ele gritava tanto disse cá para mim: Não vou acordar ninguém, mas se vir alguma casa com luz na Ponta, vou bater à porta e pedir uma faca...

RICARDINA- Ó senhor António!? Já podia ter dito. – (Corre a ir buscar uma faca).

TADEU        (Despertando.) – Faca! Vão matar algum porco? (Acordando.) O José e o Manel já chegaram?

CIZALTINA- Meu tio e o Idalmiro deram-nos uma grande ajuda!... Benza-vos deus-obra! Um a dizer tolices e outro a dormir…Olhe o melhor era irem ambos para casa ou deitarem-se um bocado lá dentro.

RICARDINA (Com a faca) – Ó Lisandra, põe-lhe tu a faca, tens mais jeito para isso.

ÁLVARO     - Ó pai, não quero a faca. Vão-me cortar o mamulo? Vai doer muito...

CIZALTINA – Não, não vai doer. Eu é que te vou tratar. Deixa ver onde é, Alvarinho….É aqui, não é?! Coitadinho! Dói-te muito? E olhem que é enorme… - (Poe-lhe a faca na cabeça) - Com que então um galo para cantar de noite... Isto não dói nada. Olha., já está a mingar...

GENOVEVA – Um pingo de azeite-doce é que era bom. O azeite-doce para mamulos e inchaços é como a mão de Deus...

IDALMIRO    - É, mas é logo a seguir... Enquanto está quente. Este foi feito quase em cima da rocha, já está frio, já não vai nem com faca nem com azeite-doce...

CIZALTINA – Olhe que se engana, sr Idalmiro. Está muito melhor. Não está meu querido?

ÁLVARO     - Está sim senhora, obrigado!

PAI               - E eu tenho que ir! – (Ouvem-se bater três horas num relógio de parede) – Oh! Três da manhã! Tenho que ir. Tenho os outros em casa sozinhos... Obrigado a todos... E as melhoras do doente...

CIZALTINA – Ó senhor António, deixe o menino cá a dormir. Está tão cansadinho e cheinho de sono! Amanhã vem busca-lo… Mas se quiser lho levo a casa. Eu tenho que ir à Fajã, amanhã. É um pecado caminhar com ele a estas horas. Eu tomo conta dele... Amanhã vem buscá-lo...

PAI               (À porta e já de saída)- Não Cizaltina! Não pode ser. Mas obrigado por tudo e melhoras para o teu pai.

CIZALTINA – Ele podia cá ficar, senhor António... Mas o senhor é que sabe. Pobre piauzinho! (Beijando Álvaro) – Adeus! Boa noite e boa viagem. Vão com cuidado…

                     (Saem o Álvaro e o pai)

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