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QUANDO O CARVALHO FAZIA SERVIÇO NA FAJÃ GRANDE

Sexta-feira, 26.05.17

A ilha das Flores era a única ilha dos Açores em que o velhinho Carvalho Araújo, que as visitava mensalmente, atracava em duas localidades: em Santa Cruz e nas Lajes. Como ambas as vilas estavam e ainda estão actualmente, viradas a leste, sempre que o mar estava bravo numa, ainda estava pior na outra, impedindo assim aquele paquete de fazer o serviço na ilha, o que se verificava, geralmente, mais do que uma vez por ano e, por vezes, até no verão.

Quando tal acontecia, em contrapartida, o mar na Fajã Grande, freguesia voltada a oeste e com um pequeno porto protegido por altas rochas, estava calmo, tranquilo e excelente para o serviço do paquete. O vento soprava fortíssimo de leste e era, com se dizia, “de cima da terra”. Nessas condições só era possível ao Carvalho fundear e fazer serviço na Fajã Grande, pese embora a grande oposição das populações de Santa Cruz e das Lajes, nomeadamente os comerciantes daquelas duas vilas. É que só havia duas estradas nas Flores: uma desde Santa Cruz até aos Terreiros e a outra que ligava as duas vilas, passando pela Caveira, Lomba e Fazenda. Dos Terreiros até ao porto da Fajã, os passageiros tinham que ir a pé, atravessando rochas e veredas, saltando ribeiras e grotões, percorrendo ladeiras, atalhos e calcorreando caminhos maus e estreitos. Apenas os doentes eram transportados a cavalo ou em carros de bois e, os casos mais graves, em macas transportadas a ombros. Além disso os passageiros ou os seus familiares e amigos tinham que transportar a própria bagagem às costas.

Mas os principais e grandes problemas eram o do gado, o da manteiga que a ilha produzia e que se havia de embarcar e, sobretudo, o da mercadoria que o navio trazia e que teria que ser descarregada no porto da Fajã e depois transportada para os Terreiros a fim de ser levada em camionetas para as vilas. Assim todos os sacos de farinha, de açúcar, de adubo, de cimento, caixotes de sabão e de bebidas, bidões de cal e de petróleo, grades com garrafas de cerveja e de pirolitos e muita outra carga que o navio trazia com destino à ilha, tudo era transportado para até aos Terreiros em carros de bois, o que acarretava um enorme aborrecimento e uma despesa acrescentada para os comerciantes a que as mercadorias se destinavam. Por tudo isto, toda a população das Flores detestava e barafustava quando o Carvalho ia fazer serviço para a Fajã Grande.

Ao contrário, este dia, na Fajã Grande, era de grande festa, contentamento e regozijo. Era rigorosamente, mais do que o tradicional “dia de São Vapor”, pois era uma verdadeira festa, a “Festa de S. Vapor”. Ninguém trabalhava nos campos nesse dia e toda a população se deslocava para Porto, uns para trabalhar na carga e descarga, outros para acarretar e arrumar a mercadoria e outros simplesmente para apreciar o espectáculo. É que todos os carros de bois que existiam na Fajã eram requisitados para transportar a carga até aos Terreiros. Como os meios eram reduzidíssimos e menos operacionais do que os das vilas, esta azáfama era muito demorada, prolongando-se por todo o dia, pela noite dentro e até de madrugada.

E era precisamente à noite, enquanto os homens paravam os carros carregados com os sacos de açúcar e outras mercadorias fora das suas casas, para uma frugal ceia, nós, os garotelhos de então, à socapa, fazíamos pequenos buraquitos nos sacos de açúcar, furando ligeiramente a serapilheira e deitávamo-nos debaixo dos carros de boca aberta e voltada para cima, com as mãos a fazer de funil, a encher a barriga de açúcar, vingando-nos da abstinência que dele tínhamos nas nossas casas durante todo o ano.

E creio que era esta a principal e mais importante razão porque eu e os ganapelhos da minha idade gostávamos tanto de que o Carvalho fizesse serviço na Fajã Grande, ao contrário dos comerciantes das Lajes e da Vila, que penalizados por tantas contrariedades, nem por sombras desconfiavam que, ainda por cima, lhe papávamos uma pequeníssima parte do açúcar que importavam de Lisboa.

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