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SINDICATOS AGRÍCOLAS NA ILHA DAS FLORES

Quinta-feira, 18.08.16

Há dias encontrei na net um interessante texto sobre os Sindicatos agrícolas na ilha das Flores e a intensa atividade desenvolvida pelo padre José Mota, pároco do Lajedo durante décadas, em prol dos agricultores da ilha das Flores. Apesar de desconhecer o seu autor, aqui o reproduzo parcialmente, transcrevendo as partes mais significativas:

Uma autêntica revolução é como poderíamos qualificar o movimento pela libertação da Lavoura, que, sob a liderança do jovem padre José Furtado Mota (1878-1963), varreu toda a ilha das Flores a partir da segunda década do século XX. Não deixa, porém, de ser curioso o facto de este grande movimento – que, de certo modo, dava também resposta ao apelo que o papa Leão XIII lançara na sua carta encíclica Rerum Novarum, em 1891, para que os trabalhadores católicos se associassem – ter nascido na pequena freguesia do Lajedo, onde o padre Mota fora colocado em Janeiro de 1909, e não numa das duas vilas da ilha…

A causa próxima do movimento, que, em escassa dezena de anos, haveria de levar à criação de vários sindicatos agrícolas na ilha, num processo que foi praticamente pioneiro no arquipélago e no país, pelo menos na área dos lacticínios, radica na drástica descida do preço do leite à produção, imposta sobretudo a partir de 1912 pelos industriais das Flores. É então que o padre Mota, primeiro sozinho, depois já com o apoio do regente agrícola Guilherme Joaquim da Mata, por ele convidado a deslocar-se do Faial, de alguns colegas do clero… e das páginas do Jornal-Rádio, desencadeia a sua campanha a favor da criação de um grande sindicato agrícola que, abrangendo toda a ilha, tivesse como objeto o fabrico de lacticínios e a exportação de gado a liquidar em Lisboa por conta própria.

A semente lançada pelo padre Mota … e os bons resultados obtidos pelo primeiro sindicato florentino. referenciado, já em 1918, por um jornal faialense como “a melhor organização do género no distrito da Horta”, depressa fizeram engrossar o número de simpatizantes do sindicalismo agrícola. Formalmente, o Sindicato Agrícola da Ilha das Flores nasceu a 5 de Janeiro de 1918, data em que foi celebrada a respetiva escritura constitutiva, e os seus estatutos foram aprovados por alvará de 27 de Agosto desse ano, assinado pelo Presidente da República, Sidónio Pais. A verdade, porém, é que este primeiro sindicato já vinha funcionando no Lajedo, de forma irregular, é certo, com o estatuto da mútua confiança dos seus sócios, pelo menos desde 1915. De resto, no verão de 1918 estava calculado em 18 contos de reis o valor da manteiga exportada pelo sindicato, que então já possuía, também, uma dúzia de fabriquetas em plena laboração e contava com mais de 400 sócios, maioritariamente do Lajedo, da Fajã Grande e de Lajes das Flores (Morros e Monte).

Os sucessos iniciais do sindicato, que, pela primeira vez, conseguia colocar os seus produtos em Lisboa, sem intermediários, a preços bastante remuneradores, depressa tornaram o movimento imparável. Mas, também por isso, em vez de um único sindicato, como idealizara o seu mentor, eis que, rapidamente, se vão constituindo, um pouco por toda a ilha, outras organizações similares. E nem a vila de Santa Cruz das Flores, onde o conúbio entre os industriais e a autoridade concelhia era mais estreito e constituía uma barreira cimentada por interesses comuns ao avanço da nova “doutrina económica” do padre Mota, logrou resistir de todo, sendo certo que, em 1919, também já lá existiam duas “frutuárias”, que, por não terem embora um enquadramento legal bem definido… declaravam pertencer ao “Grande Sindicato do Lajedo”.

Não foi fácil, porém, o caminho que conduziu ao estabelecimento desses sindicatos agrícolas, cuja progressão e sucesso, ao bulir com os interesses de alguns comerciantes e políticos locais, suscitou, da parte destes, violenta e impiedosa reacção. Nas Flores, proibiram-se, então, reuniões aos cooperativistas, mandou-se a tropa fiscalizar outras, fizeram-se ameaças e esperas em caminhos mal frequentados, recusaram-se arrendamentos de terras aos associados e renunciaram-se outros contratos.

Em 1920, as autoridades locais proibiram mesmo a exportação para Lisboa de gado e de manteiga dos sindicatos, os quais chegaram a ter em armazém, com o inerente risco da sua fácil deterioração, cerca de 30 toneladas deste produto. A situação, deveras calamitosa, foi exposta ao Alto-Comissário do Governo nos Açores que prontamente fez deslocar às Flores o navio Granja para escoá-los.

Num embarque clandestino, que haveria de valer depois multas de 400$00 a cada barco e respectivo mestre, o navio carregou então 430 cabeças de gado e 32 toneladas de manteiga, mas, a instâncias das autoridades da ilha, logo, em sua perseguição, foi mandado sair do porto da Horta uma canhoneira de guerra. Valeu ao movimento cooperativista a circunstância de o navio Granja se ter apressado em arribar à Calheta de S. Jorge, onde procedeu à legalização do despacho alfandegário.

Em Santa Cruz das Flores, a fábrica do movimento cooperativista foi também assaltada pela guarda republicana, preso o seu funcionário, feitas buscas às casas de alguns associados e arrematada em hasta pública a manteiga ali apreendida nessas rusgas. A própria exportação de gado foi igualmente condicionada a autorização do administrador do concelho, filho do mandante político local.

Poucos meses depois de o padre Mota ter denunciado, num extenso relatório que enviou ao Governo da Nação, essas arbitrariedades acabaram sendo demitidos das suas funções o juiz e o delegado do procurador na Comarca das Flores.

 

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